Gordofobia não é piada: as histórias por trás dos casos que viralizaram

Os influenciadores Pati Quental, Caio Revela e Mel Soares falaram sobre os impactos e traumas que os acontecimentos deixaram em suas vidas

Por Izabel Gimenez - Atualizado em 8 set 2020, 09h48 - Publicado em 7 set 2020, 10h39

Os últimos dois meses foram marcados por vários casos de gordofobia nas redes sociais. A gente sabe que o preconceito e a falta de inclusão, infelizmente, não são novidades para pessoas gordas. Mas um detalhe chamou a atenção nos episódios mais recentes: a visibilidade que os acontecimentos tiveram através da mídia. É possível perceber que, aos poucos, o debate sobre o tema está furando a bolha do movimento body positive e chama a atenção da sociedade como um todo.

Pati Quental foi uma vítima recente de ataques gordofóbicos. Em entevista à CAPRICHO, a influenciadora revelou que levou um susto quando soube que sua foto estava no perfil do humorista Léo Lins em tom de deboche e com uma série de comentários ofensivos. “Eu me senti violada, invadida e impotente, como se não tivesse controle da situação. Foi uma exposição gratuita e violenta. Estavam me ridicularizando, me xingando e dizendo que eu merecia ouvir certas atrocidades por ser gorda”, relembra.

Esse não foi o primeiro caso de gordofobia envolvendo o humorista. Leonardo também foi o responsável pela publicação da foto da modelo Bia Gremion com frases ofensivas em relação ao corpo dela no mês passado. “Na época, eu ajudei a denunciar e bloqueei o perfil dele porque não tinha o menor interesse em acompanhar. Fiquei sabendo que a minha foto tinha sido divulgada por ele quando uma amiga me ligou”, explica Pati. “Eu sou uma pessoa depressiva, então pra mim foi um baque muito grande. Eu tive um efeito paralisante e isso ‘gatilhou’ uma crise muito grande de ansiedade. Da primeira vez, quando o post caiu, fiquei aliviada, mas, depois, quando voltou novamente, fiquei horas chorando. Parecia um pesadelo”. 

Relembre outros casos

O influenciador Caio Revela é um dos exemplos mais duros de como a gordofobia acontece atualmente. Um dia, ele acordou com a notícia de que estava morto. Além de não ser verdade, a causa da suposta morte foi instantemente associada ao seu peso. “Ao mesmo tempo que foi muito difícil, principalmente por causa dos meus familiares, foi necessário chegar nesse nível. Tudo isso aconteceu por causa do ódio que existe ao corpo gordo. Meu tipo de conteúdo incomoda, mas estou falando sobre autoamor e acessibilidade. O que tem de errado nisso?”, questiona o ativista. 

Se por um lado viver esses ataques foi complicado e dolorido, por outro, Caio entende que o tema conseguiu atingir novos níveis depois desse episódio, como quando o debate sobre o ocorrido chegou ao canal de notícias CNN, por exemplo. “É uma vontade de continuar pela certeza que o trabalho que eu produzo tem força, é potente e é necessário. Mas tudo isso vem junto do medo dessa situação afetar minha saúde mental. Meu objetivo, hoje, mais do que nunca, é ampliar as conversas e dar voz às pessoas gordas. Todo esse trabalho é importante justamente por isso. Foi muito triste e tem sido muito difícil, eu ainda estou pensando, absorvendo e entendendo, principalmente porque ficou claro para mim que estavam tentando matar a minha ideia. Poderia ser qualquer motivo, mas tentaram tirar a credibilidade da minha história e da minha luta“. 

Caio ainda reflete a dualidade que o preconceito impõe às pessoas gordas. “Com a gordofobia você é vitima e culpado ao mesmo tempo: sou vítima por sofrer, mas sofro por ser gordo. Como vamos achar algo bonito se a gente não vê esse corpo? Por isso, eu e outros criadores de conteúdos estamos aqui, a gente inspira e mostra que é possível. O corpo gordo é político. Só pelo fato de eu postar algo nas redes, já gera um impacto, eu já ocupo o espaço”, fala.

Quem eu poderia ter sido se eu não tivesse perdido tanto tempo esperando ser algo?“, reflete o influenciador. “Passar a vida toda se escondendo te impossibilita de se expressar, descobrir quem você é, o que acredita. Por isso, o processo de amor próprio é experimentar, se amar, tentar. É autoconhecimento, mas, por outro lado, quanto mais eu tento, mais eu incomodo – e parece virar um ciclo infinito“. 

Essa não foi a primeira e nem a última vez que Caio sofreu ataques gordofóbicos. Um pouco depois da fake news da sua morte se espalhar pela internet, o apresentador Danilo Gentili fez piada com a reportagem sobre gordofobia feita pela CNN, em que o influenciador apareceu ao lado da jornalista e defensora da causa corpo livre Alexandra Gurgel. Vale dizer que, alguns dias antes, o comediante havia defendido Léo Lins, seu colega de programa, das polêmicas gordofóbicas em que ele se envolveu.

A Mel Soares, conhecida nas redes sociais como @RelaxaAíFofa, sabe bem o que é incomodar. A influenciadora teve uma das suas publicações apagada pela plataforma do Instagram. Na imagem, ela aparece nua, porém sem exibir nenhuma parte íntima que poderia ter sido vetada pela rede social. “O pior é entender que isso aconteceu pelo fato de eu ser gorda. Nosso corpo sempre é marginalizado e discriminado, ainda mais o meu por ser negra. As pessoas não querem nos ver falando sobre bem estar e felicidade“, desabafa em entrevista à CH. “Quando é uma mulher magra, isso é aceito e normalizado. O mundo diz que não podemos ser estilosas, felizes, amadas. Eles esperam que a gente seja desleixada, triste e desanimada. Quando alguém prova o contrario, isso assusta. Eles precisam entender que ser gorda é apenas mais uma das minhas características, isso não me define“.

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Pois eu vou repostar já que denunciaram para o Instagram remover minha foto! Porque minha foto incomoda? O Instagram está cheio de Mulheres nuas . Minha foto não está mostrando nada demais. Infelizmente a legenda bonita se apagou e os comentários lindos de vocês também! Mas resumindo novamente: Postei a foto original a mais de 1 ano atrás e ela é minha foto mais curtida. Porque nude trás like. Mas eu não quero ser a Blogueira pelada mesmo que eu possa ser! Mas se eu quiser vocês me apoiem hahahah. Meu conteúdo aqui vai além de ego! Eu quero realmente fazer a diferença na sua vida de alguma forma. Eu quero te mostrar que Gorda, Preta, Grande e seja lá qual for sua característica física ela não vai te impedir de realizar seus sonhos! Você pode !!! Na publicação original tem mais de 2.700 comentários de Mulheres falando o porque me seguem! E é por isso que eu continuo firme! Você pode ser o que você quiser!!! Bom dia ✨💕

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Apesar da situação difícil, a repercussão positiva foi um incentivo não só para o trabalho de Mel, mas também para outras meninas que estão na jornada de autoaceitação. “A força da união feminina foi muito forte, chegaram quase 50 mil seguidoras nova depois do episódio. Eu fiquei assustada, mas, ao mesmo tempo, muito feliz. Eu já acreditava no potencial do meu trabalho, mas hoje tenho ainda mais garra e confiança em mim mesma“, disse, e completou:  “Pessoas como o Léo Lins são fáceis de serem ouvidas porque ele é um cara branco, famoso e padrão. A sociedade é totalmente preconceituosa e racista. Ele sabe que esse tipo de conteúdo dá audiência e, por isso, faz. Quando tem racismo, as pessoas ainda param para refletir, mas se a piada é sobre gordo, acham normal.” 

Como isso pode afetar alguém?

Quando falamos que gordofobia não é piada, precisa ficar muito claro que esses comentários, que parecem inofensivos para alguns, podem causar sequelas muito graves na vida de alguém. De acordo com a psicóloga especialista em análise do comportamento Thatiani Melanda, o termo gordofobia, em seu sentido literal, significa aversão à gordura que, na nossa sociedade, pode ser manifestada tanto pelo pavor de engordar, quanto pelo desprezo com as pessoas gordas – que é feito por intermédio de violência verbal, física, moral ou psicológica. “Esse tipo de postura faz com que, muitas vezes, a pessoa gorda enfrente discriminação no trabalho, nos serviços de saúde e na vida afetivo sexual, pois tem sua imagem vinculada a improdutividade, lentidão, ineficiência, preguiça e, em algum casos, relacionam até à maus hábitos de higiene corporal”. 

É claro que cada caso é único e cada um irá lidar de uma forma com esse preconceito. Porém, essas situações podem servir de estopim emocional para quem ainda não está confortável com seu corpo. “Todo gatilho funciona como um estímulo que acontece no ambiente e vai conectar a pessoa a uma situação marcante de sua vida, ativando lembranças que podem ser positivas ou negativas, podendo, inclusive, fazer a pessoa se conectar com traumas“, explica Thatiani.  “Quando ativado, um gatilho pode gerar raiva, tristeza, ansiedade, estresse, perda de controle, culpa, sensação de vazio, dentre outros sentimentos. Uma vez que não é possível evitar a exposição aos gatilhos no dia a dia, o melhor é conhecer e entender como eles funcionam. Esse processo, que nem sempre é fácil, pode ser feito dentro de uma jornada de autoconhecimento viabilizado pela psicoterapia”.

Infelizmente, o período atual que estamos vivendo, por conta do isolamento social causado pelo coronavírus, faz com que os problemas psicológicos se tornem ainda mais graves. “Por estarmos restritos ao contato com pessoas queridas, estarmos privados de nossa liberdade e em um ‘estado de alerta’ constante, afinal, o período em si já é caracterizado por uma condição de estresse que pode afetar nossa saúde mental, nossos sentimentos podem ficar ainda mais aflorados, inclusive, acabar desenvolver quadros de ansiedade e depressão”, aponta a especialista.

    O aprendizado que podemos tirar de todos esses casos preconceituosos que temos visto nos últimos tempos é que gordofobia não é, nunca foi e nunca será piada! O ambiente da internet, apesar de muitos não verem dessa forma, é respaldado por leis e regras. Não há mais espaço para bullying e preconceito, principalmente aqueles que vêm disfarçados de opinião.

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