Bia Gremion sobre ser modelo e gorda: “A moda diz não e eu provo que sim”

A influenciadora falou com a CH sobre sua trajetória de autoaceitação e como usa sua profissão para lutar contra a gordofobia

Por Izabel Gimenez - Atualizado em 3 jul 2020, 19h45 - Publicado em 4 jul 2020, 10h01

A luta pela aceitação do corpo gordo acontece há anos, mas foi com o avanço das redes sociais que ela ganhou um maior destaque. Entre as ativistas que lutam por essa causa no ambiente digital e fora dele está Bia Gremion, de 23 anos, modelo plus size e orgulhosa de todas as suas curvas. Nascida e criada em uma cidade pequena no estado do Rio de Janeiro, ela sempre sentiu os olhares tortos sob seu corpo. A dificuldade para encontrar roupas e se encaixar nos padrões fazia parte da sua rotina, e foi só durante o Ensino Médio, quando entrou em contato com o feminismo, que passou a entender que o problema não estava nela, mas na sociedade.

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“Eu sempre fui uma criança gorda, esse tipo de discurso que tratava meu corpo como se fosse algo errado sempre existiu”, desabafou a criadora de conteúdo em entrevista à CAPRICHO. “Eu percebia que minhas amigas magras eram tratadas de outras formas, desde o carinho dos professores até dos namorados da escola. Tanto da minha família, que sempre me trouxe opções de emagrecimento, dietas e nutricionistas, quanto fora de casa. A falta de empatia permeia muito o corpo gordo“.

O preconceito se mostrava no seu dia a dia de forma sutil, mas estava sempre ali para lembrá-la que existia uma diferença entre os corpos. As microagressões, que hoje Bia entende que são mais uma forma de gordofobia, não existiam só nas palavras e atitudes, mas até nas roupas que vestia. “Na minha cidade, tinha apenas uma loja plus size e era bem caro para o meu padrão, então eu tinha uma calça no meu guarda-roupa e, quando rasgava, precisava comprar outra. Era muito constrangedor. Eu já deixei de sair porque não tinha o básico. As pessoas eram muito cruéis, elas me julgavam, riam e apontavam”.

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Qual tamanho que meus braços devem ter pra serem agradáveis aos seus olhos e eu possa usá-los a mostra? Qual tamanho minhas calças devem ter para que vocês possam me vestir? Quantas celulites minhas coxas podem ter pra não ser repulsivo e sim empoderado? Qual tamanho o meu quadril deveria ter pra passar na catraca do ônibus? Quantos dígitos de peso tenho que ter pra que eu seja contratada por uma empresa? Qual tamanho meu corpo tem que ter pra ser amado? Respeitado? Humanizado? Incluído? Despatolozidado? O quanto um corpo que não seu te incomoda ao ponto de você odiá-lo, Porque um corpo gordo incomoda tanto que coagir de forma violenta é o normal? O quanto um corpo gordo precisa sofrer pra ser digno?

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Por sorte, a criatividade sempre foi uma das suas qualidades e Bia passou a criar seu próprio estilo. “Eu sempre gostei de moda. Eu tinha uma costureira que me ajudou a fazer uma saia que virou minha peça chave. Assim, eu conseguia criar looks diversos que expressavam minha personalidade”, afirma a modelo. “A gente está em uma nova época, as marcas precisam entender que no corpo gordo existe pluralidade. A moda é uma forma de contar histórias, mostrar quem você é. As roupas podem parecer algo fútil, mas não são”

O estilo da Bia é único e ela faz questão de deixar isso claro. Mesmo ouvindo que certos tipos de roupas ou maquiagens chamariam muita atenção, a influenciadora não deu ouvidos. “Desde novinha eu usava delineador, batom vermelho, mas isso tinha um preço. As pessoas me viam como algo muito estranho, mas eu aprendi que não posso dosar meu ‘close’ para que os outros estejam confortáveis com eles próprios. No início, eu me sentia muito mal, mas depois eu entendi que as pessoas faziam isso para tentar me reprimir. Não vou deixar de usar o que eu amo. Quero ser singular“. 

Quando a Bia teve contato com o feminismo, tudo mudou e suas referências começaram a ser transformadas. “Foi muito libertador, foi minha porta de entrada. Quanto mais eu entendia sobre, mais eu me questionava por que meu corpo não era um recorte dos debates. Daí eu percebi que eu precisava encontrar grupos que iriam me incluir, foi algo que fez todo sentido pra mim. Até dentro do próprio discurso feminista, faltava falar sobre o corpo gordo. Foi aí que comecei a lutar pelos meus direitos“, relembra.

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Eu fiz as pazes com meu corpo 💖 Isso não quer dizer que eu nunca mais me sinta mal com a minha imagem, quer dizer que daqui pra frente vou me olhar com mais carinho, sabendo que meu corpo tem beleza em cada pedacinho e que eu não devo nunca me comparar pra me depreciar. Todo corpo tem valor, todo corpo tem beleza e todo corpo merece ser amado, ser livre. Sou grata pelo corpo que me trouxe até aqui e que passou por momentos bem difíceis, mas mesmo assim, está aqui resiliente e vai continuar comigo até o fim. Meu corpo gordo me mostrou toda força que eu tenho pra resistir. Me amo, e espero que você comece agora a se olhar dessa forma e construir isso com seu corpo 💖

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Hoje, trabalhando como modelo, ela entende que sua profissão é a colocar de forma prática o seu discurso. “Além de ser algo que eu amo, é um posicionamento. Eu mostro que é possível para mim fazer tanto quanto uma garota magra. A moda diz que não, mas eu provo que sim. Nosso corpo tem caimento, movimento. Eu saio da teoria e isso para mim é militância do começo ao fim. A minha profissão é extremamente ligada a um cunho político dentro do meu nicho”, falou. Um exemplo disso foi o desfile icônico que Bia fez para a marca LAB, em 2016, no SPFW. Na ocasião, as pessoas aplaudiram de pé a diversidade mostrada na passarela. 

Para finalizar, Bia mandou um recado para todas as garotas, que assim como ela, estão passando pela fase de entender suas curvas e amar seus corpos. “Se olhe com carinho, tenha orgulho das suas características, porque elas são você. Suas pernas, seus braços e seu corpo te trouxeram até aqui. Será que você diria para uma amiga as coisas que diz para você mesmo? Reflita! Seu corpo é válido e é lindo!”

Inspirador, hein? Bora se amar? <3

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