Incêndios na Turquia: entenda o que está ocorrendo no país e como ajudar

Turquia registra as piores queimadas da sua história, intensificadas pelos recordes de temperatura, pelo aquecimento global e pelo negacionismo

Por Isabella Otto Atualizado em 23 ago 2021, 09h36 - Publicado em 5 ago 2021, 13h45
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CAPRICHO/Divulgação

Assim como aconteceu no Brasil no ano passado, e como vem ocorrendo em outros países do globo, a Turquia enfrenta os piores incêndios da sua história desde a última quarta-feira, 28 de julho. Dos 187 focos de fogo identificados, pelo menos 15 continuam devastando o sul do país, que registrou até agora oitos mortes em decorrência das queimadas (sem contar as mortes de animais, as principais vítimas em áreas florestais).

A Turquia recebe a ajuda do Irã, do Azerbaijão, da Ucrânia, da Rússia, da Espanha e da Croácia para conter as chamas. A causa delas está sendo investigada, e até mesmo a possibilidade de terrorismo está sendo cogitada, contudo especialistas apostam que esses incêndios têm ligação direta com as mudanças climáticas.

Imagem de uma floresta tomada de chamas; incêndios estão sendo registrados na Turquia
Queimadas em Adana; foto do dia 2 de agosto Ozan Efeoglu/Anadolu Agency/Getty Images

Durante esta época do ano, Verão no hemisfério norte, focos de fogo são mais comuns, devido às altas temperaturas. Porém, nunca antes os termômetros registraram médias tão altas, o que intensifica os incêndios, uma vez que o vento forte e seco alimenta as chamas. Tem feito mais de 40ºC na Turquia e em outros países do continente europeu, como na Grécia, que registra a pior onda de calor dos últimos 30 anos e dezenas de focos de incêndio. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, as queimadas florestais no sul da Europa só devem se tornar mais frequentes e intensas com isso.

  • Explicando a relação entre os incêndios e o aquecimento global

    No Verão, basta uma atitude impensada ou mal intencionada para dar início a um foco de fogo. Sem contar que as próprias queimadas naturais, tão defendidas pelos negacionistas, são intensificadas pelas condições climáticas acentuadas. “No Verão, costuma a ser mais seco mesmo, mas o que se tem acontecido ao longo desses últimos anos são ondas de calor muito intensas. E a Europa, particularmente, tem conseguido bater recordes de temperaturas“, relata o Prof. Dr. Tercio Ambrizzi, do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP.

    Escombros pós-queimada em uma região do sul da Turquia. Vemos restos de casas, muita pedra e uma montanha ao fundo totalmente desmatada
    Escombros em Antalya após incêndio devastar a região Islam Yakut/Anadolu Agency/Getty Images

    O especialista explica que esses eventos extremos, que têm ocorrido em diferentes partes do planeta, precisam ser vistos em conjunto e não de forma separada, pois vêm acontecendo todos ao mesmo tempo. “Aí você começa a pensar que tem que haver uma coincidência, é a coincidência é o aumento sistemático da temperatura do nosso planeta, que é algo verdadeiro, baseado em dados medidos por instrumentos desde 1850. Esses eventos extremos ocorrem porque a atmosfera sente que ela está fora da sua normalidade, da sua variabilidade natural, e ela reage a isso com extremos para tentar voltar a um equilíbrio“, conta Tercio, que lista alguns episódios ocorridos recentemente: “Temos visto recordes de calor no norte dos EUA e do Canadá, com temperaturas chegando a 50ºC. E veja que o Canadá está em latitudes muito altas, então, na verdade, a temperatura média dessas latitudes no alto Verão é na ordem de uns 22ºC. Na Europa e na China, tivemos recentemente aquelas chuvas torrenciais. Choveu em um dia o que deveria chover em um mês! E, aqui no Brasil, está todo mundo passando muito frio. Claro que estamos no Inverno, que ondas de frio ocorrem, mas esta onda é uma das mais intensas dos últimos 30 ou 40 anos”.

    Foto de uma imensa nuvem marrom e de um helicóptero pequenininho sobrevoando na frente dela
    Helicóptero tentando conter as chamas com mangueira de água, em Mugla Behlul Cetinkaya/Anadolu Agency/Getty Images

    É importante entender que os gases do efeito estufa sempre existiram e são importantíssimos. A questão é que nós estamos aumentando esses gases, desregulando todo um sistema, não deixando que parte do calor escape para o Espaço e, consequentemente, aumentando a temperatura média da Terra. “Como você explica isso? Nós, seres humanos. Esse aumento de gases vem da nossa evolução humana, da nossa evolução industrial”, pontua.

    +: Os antes e depois do Pantanal que mostram os estragos do fogo na região

    O silêncio do governo turco

    O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, foi criticado nas redes sociais pela sua falta de posicionamento com relação aos incêndios que vêm devastando regiões do país. O ator İbrahim Çelikkol, da série Muhteşem İkili, não só criticou o governo como colocou a mão na massa e ajudou bombeiros no combate às chamas. Hande Erçel e Kerem Bürsin também se pronunciaram nas redes sociais a favor da hashtag #helpturkey. Celebridades de outras nacionalidades, como Michele Morrone e atores das séries Elite e Sense8, demonstraram apoio à Turquia e pediram ajuda.

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    Enquanto isso, o silêncio de Erdogan era ensurdecedor. O líder turco só foi se pronunciar na última quarta-feira, 4, e com uma fala um tanto quanto polêmica: ele disse que os incêndios que afetam o sul do país são uma ameaça internacional como a COVID-19 e que precisam ser combatidos em conjunto. Entretanto, muitos cidadãos reclamam da falta de informação sobre as queimadas na mídia turca, possivelmente mais um reflexo da política autoritária de Erdogan. “Os governos autoritários têm feito isso sistematicamente. Alguma coisa que afeta o país, eles começam a diminuir as informações. Não é só a Turquia! A Rússia já vez isso e, infelizmente, o nosso país tem feito isso ao longo dos últimos anos mais recentes. É passando as informações para a população que as pessoas ficam conhecendo o que está ocorrendo, por que e como evitar. Você faz com que o povo crie um nível de consciência daquilo que está acontecendo“, ressalta o professor Tercio Ambrizzi.

    No Twitter, o ator Kerem Bürsin foi questionado por uma seguidora sobre como é possível ajudar um país que não quer ser ajudado, tendo como referência o cenário envolvendo o silêncio sobre as queimadas e sobre outros assuntos que são vistos pelo governo,  acusado de manipular informações, censurar a oposição e controlar o Sistema Judiciário, como ameaças em potencial. A resposta do astro foi cirúrgica: “Ouvindo o povo”.

    Prints do Twitter e do Instagram falando sobre os incêndios na Turquia
    Prints das falas de Kerem Bürsin e Hande Erçel nas redes sociais Instagram/Twitter/Reprodução

    Para o especialista em mudanças climáticas, os negacionistas têm opiniões, não argumentos pautados em fatos. “Antes, eles falavam que a Terra não estava esquentando, mas agora é muito difícil continuar batendo nessa tecla. Aí tudo o que está ocorrendo eles dizem que é natural, só que eles esquecem que nós estamos tendo com mais frequências esses eventos extremos, e como você explica isso?! Outro argumento é que, no passado, nós já tivemos períodos mais quentes. É verdade. Mas testemunhos de gelo [dados paleoclimáticos] têm mostrado que, nos últimos 800 mil anos, a variabilidade de CO2 na atmosfera ficava em torno de 280 partes por milhão. Hoje, estamos em 420 partes por milhão“.

    O desenvolvimento industrial é importantíssimo para a sobrevivência das pessoas, que têm necessidades, mesmo que algumas supérfluas, como ostentar mais de um carro na garagem e/ou compactuar com o consumo inconsciente, de roupas e outros itens. É de urgência, contudo, que políticas verdes, que são inclusive bastante lucrativas a longo prazo, tenham investimentos e sejam colocadas em prática. E mais do que tudo, a gente precisa parar de tratar o aquecimento global como algo distante ou conspiratório, pois tal atitude apenas alimenta as chamas do negacionismo, que atinge a todos nós como seres vivos deste planeta chamado Terra.

    Como ajudar

    Além de compartilhar informações e fazer a hashtag #helpturkey circular, é possível fazer doações em dinheiro para instituições internacionais. O fã-clube Özge Gürel Brasil organizou uma thread com organizações confiáveis, que estão atuando no combate ao fogo, entre elas a Fundação da Floresta Egeu (Ege Orman Vakfı), a Fundação de Apoio a Serviços de Desenvolvimento Florestal e Combate a Incêndios Florestais (OGEM-VAK), a Federação dos Direitos dos Animais (HAYTAP) e o Turkish Philanthropy Funds.

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    Também é extremamente importante que você cobre posicionamento dos seus ídolos, especialmente se eles forem turcos e ainda não tiverem se manifestado sobre o que está rolando no país. Lembre-se de que, se aquela celebridade que você gosta não se posiciona, especialmente diante de casos como este, você deve se posicionar sobre ela.

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    Por último, mas não menos importante, é ao mudar hábitos diários que nós impactamos o planeta como um todo. Afinal, a Terra é uma só! Faça mesmo a fiscal de quem ainda hoje comete atos evitáveis que contribuem para a degradação do meio ambiente. É evidente que as grandes indústrias são as que causam mais impactos negativos, mas nosso trabalho de formiguinha é bastante relevante – e você cobrar mudanças dessas empresas faz parte dele!

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