Desmentindo quatro falas do ministro Ricardo Salles sobre as queimadas

A CAPRICHO conversou com biólogos, voluntários e moradores da Amazônia e do Pantanal para entender se justificativas para o fogo usadas por Salles procedem

Por Isabella Otto Atualizado em 1 out 2020, 19h04 - Publicado em 23 set 2020, 13h17
colecao-roupas-capricho-marisa
Divulgação/CAPRICHO

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mais uma vez defendeu abertamente a legalização do garimpo na Amazônia durante entrevista e disse que a “grande mídia” está “torcendo os fatos [sobre a Floresta Amazônica] para incriminar o presidente Jair Bolsonaro. As declarações foram feitas durante participação dele no Programa Pânico, da rádio Jovem Pan, no último dia 17. Salles ainda disse que a falta de fiscalização na maior floresta tropical do mundo não é o principal problema do desmatamento e que, no Brasil, há uma perseguição à pecuária, principalmente por parte de “ativistas do Twitter” e da esquerda.

Entre as declarações polêmicas que o ministro deu, listamos algumas a seguir:

  • “O garimpo na Amazônia existe há 30 anos, a diferença é que fingiram que o problema não existe. Não é à toa que a Amazônia é a região mais rica do Brasil em termos de recursos naturais com a pontuação [IDH] mais pobre(…) O garimpo, por si só, pode ser feito de uma maneira menos agressiva, com licenciamento, dentro das regras, desde que a gente não tenha essa politicagem que a esquerda colocou, alguns a serviços de interesses financeiros, outros por um desvio realmente ideológico. O fato é que você dizer que não pode ter nenhuma atividade joga a pessoa para a ilegalidade.”
  • “É melhor você colocar ordem, fazer um licenciamento ambiental próprio(…) É preciso reconhecer que o indígena na Amazônia já está aculturado, a maior parte deles, e querem que o cara volte para a idade da pedra?”
  • “O meio ambiente é um assunto de todos. A esquerda quer preservá-lo a custo do congelamento. A direita tem um visão de mercado, quer levar um desenvolvimento econômico [para a Amazônia].”
  • “O pessoal que geria a Amazônia até ontem, as ONGs e os acadêmicos, não todos, mas a maior parte, são avessos ao capital privado, à livre iniciativa, à iniciativa privada. Dinheiro é só pra ONG e Academia, pra fazer pesquisa que não acaba nunca, seminário no mundo todo, grandes encontros internacionais pra discutir o clima, e o coitado que mora na Amazônia morre de fome. Então, você tem que atrair as empresas pra lá.”
  • “O problema não é a fiscalização [sobre queimadas na Amazônia e no Pantanal]. O principal fator é uma mudança de clima. Há dois anos que está seco. Outros três fatores são a perseguição à pecuária, o não poder usar o fogo por causa de uma visão ideológica nem o bloqueador de fogo.”
  • “Você pode querer o que você quiser, mas tem que por a mão no bolso pra pagar.”
  • “Esse é o governo Bolsonaro. A gente veio para dizer a verdade, para mexer onde ninguém queria mexer(…) O governo Bolsonaro não foge do assunto, diz o que pensa, enfrenta as questões e gera polêmica [disse depois que o apresentador Emílio Surita falou que está difícil para ele tocar o barco, mas que Salles também briga com todo mundo].”

Talvez a mais problemática das justificativas seja a que o ministro fala sobre as queimadas, enumerando quatro causas para os incêndios, que bateram recordes em 2020: o clima seco, a perseguição à pecuária, ao contra-fogo e ao bloqueador de fogo. Por serem termos técnicos, principalmente os dois últimos, os leigos podem acreditar nas palavras bonitas do ministro, como se ele fosse conhecedor do assunto e dono de uma verdade absoluta. Conversamos com especialistas nessas técnicas na Amazônia e biólogos que atuam atualmente na região pantaneira para entender se as pontuações de Ricardo Salles fazem sentidos. Mas já adiantamos que não.

O presidente Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente e advogado da bancada ruralista Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto/Getty Images

“Perseguição à pecuária”

A indústria agropecuária é responsável por 80% do desmatamento na Amazônia, de acordo com dados recentes levantados pelo museu de história natural Emílio Goeldi, no Pará. No Pantanal, a história não é outra. Atualmente, quatro fazendeiros estão sendo investigados pela Polícia Federal, na “Operação Matáá”, por possivelmente terem incendiado milhares de hectares de terra pantaneira, inclusive de áreas de preservação. O Brasil é um dos países que mais consome carne vermelha no mundo e é aquela coisa: quanto maior a demanda, maior deve ser a oferta. É por isso que não dá para querer salvar as matas brasileiras e continuar comendo carne em excesso. Afinal, quanto mais carne for necessária para suprir o consumidor, mais pastos precisarão ser abertos. A perseguição, então, existe, mas não é exclusivamente à pecuária nem sem fundamento. É contra todo um sistema que favorece as indústrias do agronegócio para estimular a economia, sem pensar em políticas verdes para tornar a prática menos agressiva.

Para limpeza e renovação dos pastos, fazendeiros colocam fogo no mato, que acaba se alastrando descontroladamente, dando origem a incêndios criminosos, como alertou o biólogo Daniel Dainezi para a CAPRICHO. A Dra. Letícia Larcher, bióloga e coordenadora técnica do Instituto Homem Pantaneiro, complementou a informação: “Há uma condição que ocorre chamada combustão espontânea, mas isso representa muito pouco dos incêndios. A maioria é decorrente de focos pequenos por ação humana que saíram do controle”. É claro que as queimadas são agravadas com a chegada da temporada de seca, uma das piores da história da região centro-oeste, com um volume de chuva 40% menor que o registrado no mesmo período de anos anteriores. Agora, é um tanto quanto hipócrita um governo que trata as mudanças climáticas como algo sensacionalista culpar as mudanças bruscas de clima pelo fogo, não? Principalmente quando elas estão diretamente ligadas ao aquecimento global.

  • “Não poder usar o fogo por causa de uma visão ideológica nem o bloqueador”

    O segundo ponto abordado por Salles no Programa Pânico diz respeito à prática do corta-fogo, utilizada por brigadistas florestais para iniciar uma queimada controlada, que funciona como uma barreira para o incêndio, protegendo a floresta, conforme esclarecem os biólogos Hugo Fernandes e Gabriel Aguiar em publicação feita pela Brigada de Alter. Apesar de defendido pelo ministro do Meio Ambiente na entrevista, vídeos de voluntários realizando o contra-fogo, também conhecido como queima de expansão, foram utilizados pelo governo no final do ano passado, quando rolaram aquelas queimadas na região de Alter do Chão, no Pará, para incriminar brigadistas. Na época, Bolsonaro disse sobre os vídeos que estavam circulando nas redes sociais que “o pessoal foi para lá filmar e tacar fogo. Esse é o meu sentimento(…) Pode estar havendo ação criminosa desses ‘ongeiros’ pra chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil”, falou em entrevista ao G1.

    Continua após a publicidade

    View this post on Instagram

    🚨 Conscientização 🚨 Muito boa a iniciativa do @hugofernandesbio e @gabrielbiologia. Precisamos conversar sobre incêndios florestais durante do o ano. Não adianta olharmos para essa problemática somente quando estamos perdendo nossa biodiversidade. 🐆 🦅 🐍 🔥 Para nós brigadistas, temos como propósito promover a prevenção para que não ocorra incêndios florestais. 🌳 O combate a incêndios é a última etapa, quando não se tem mais jeito e é necessário a entrada de especialistas técnicos para o controle e combate dos incêndios florestais. Vamos olhar para as questões de incêndios florestais, entender essa complexidade e vamos promover a prevenção no território onde vivemos. Avante guerreiros brigadistas. Avante sociedade civil ! #brigadista #brigadistas #brigadasvoluntarias #rnbv #prevenção #combate #amazonia #brasil #pantanalemchamas #pantanal #onça #oncapintada #biodiversity #biodiversidade #somosbrigada #floresta #florestaempé #amazoniaviva

    A post shared by Brigada de Alter (@brigadadealter) on

    Sobre o tal bloqueador de fogo que Ricardo Salles comenta, dizendo haver também uma perseguição contra ele, o produto funciona da seguinte forma: o pó químico é diluído em água é espalhado sobre a mata com a ajuda de uma avião, controlando os incêndios. O problema é que ele funciona como um agrotóxico, contribuindo para algo (o controle do fogo) mas apresentando riscos para a saúde humana e dos animais (poluindo águas). Em junho de 2008, o governo do Mato Grosso divulgou que um bloqueador de fogo 100% nacional, biodegradável e atóxico estava sendo testado. O problema é que, em 2010, dois anos após os testes, saiu a notícia de que o composto, chamado Licet F, ainda não tinha licença do Ibama, da Anvisa e do Ministério da Agricultura para ser usado no Brasil – mas estava sendo assim mesmo. “[As falas de Salles] demonstram um desconhecimento por parte dele. Não existe nenhuma campanha contra o gado, pelo contrário. Ele é um personagem importante da paisagem pantaneira. É um equívoco cometido por ele. Não há nenhuma questão ideológica. Sobre o uso do produto químico, você está num cenário de águas, você vai usar um químico, ele apaga o fogo, mas você não sabe nem tem como avaliar as consequências dele nos rios. As conclusões do ministro merecem ser aprimoradas”, esclareceu o coronel Angelo Rabelo, diretor de relações institucionais do Instituto Homem Pantaneiro, para a CH.

    “Querem que o indígena volte para a idade da pedra?”

    Ao Pânico, o ministro do Meio Ambiente comentou que é interesse da esquerda preservar a Amazônia “a custo do congelamento” e que os indígenas não querem voltar para a idade da pedra, dando a entender que preservar a floresta como ela é e sua história é algo ultrapassado – e como se não pudesse haver desenvolvimento sustentável na região. Em entrevista para a CAPRICHO, a indígena Borari Samara Reis, de 18 anos, retrucou a fala de Salles e mostrou que preservar a Amazônia não é politicagem ou coisa de gente mais velha; é um assunto de todos e desejo daqueles que na região da floresta vivem: “Em vários pontos da Amazônia estamos perdemos parte da nossa história. Dói muito ver isso sendo levado pelo fogo, mas o que dói mais é saber que tem pessoas que se negam a ver o que está acontecendo(…) Meu maior medo é que as pessoas só deem valor depois que perderem a Amazônia, e eu, particularmente, não quero perder minha história, as coisas que eu vivi, os lugares em que brinquei, que são tão lindos e deveriam ser preservados(…) A ambição do homem faz com que ele arrisque a própria vida para conseguir o que deseja”, deu o ponto de vista de indígena e moradora da região amazônica. Em entrevista à CLAUDIA deste mês, Watatakalu Yawalapiti, indígena do Alto Xingu e coordenadora da Atix-Mulher, departamento feminino da Associação Terra Indígena do Xingu, reforçou o posicionamento de Samara: “Eles acham que temos que mudar, que precisamos evoluir. Não entendem que essa é a nossa vida(…) Há uma ideia distorcida sobre nós, e isso só muda quando eles passam a entender nosso modo de vida e a respeitá-lo(…) Quando a floresta pega fogo, queimam junto as nossas casas”.

    Membro do Ibama lutando contras as chamas na Amazônia; governo Bolsonaro já prometeu cortes no órgão ambiental no próximo ano Ernesto Carriço/NurPhoto/Getty Images

    “O problema não é a fiscalização(…) A gente veio para dizer a verdade”

    Por fim, mas nem de longe menos importante, a fiscalização na Amazônia durante o governo Bolsonaro foi a menor já registrada: a queda chegou a 70%. Mas o problema não se limita à região Norte do país. Segundo dados do Observatório do Clima, a entrada de gestores sem experiência no governo, a retórica anti-ambientalista de Jair Bolsonaro e um vazio administrativo em órgãos ambientais são as principais causas dessa falta de fiscalização, que acaba contribuindo para práticas ilegais de garimpo e desmatamento. Durante a pandemia de coronavírus, 72% das atividades de garimpo na Amazônia foram em áreas “protegidas”, de acordo com o sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Lembrando que uma das piores consequências do garimpo é a contaminação por mercúrio do solo e das águas (e, consequentemente, de animais e humanos), e que Ricardo Salles foi quem disse para usar a pandemia como “cortina de fumaça” para “deixar a boiada” passar enquanto o governo encontrava meios de aprovar na surdina a “PL da Grilagem”, cujo intuito principal é abrir terras indígenas para exploração de recursos minerais e hídricos.

  • Continua após a publicidade
    Publicidade