Ator de Glee assume violência doméstica contra Melissa Benoist em texto

Blake Jenner assumiu a situação, mas acusou a atriz de ser tão abusiva quanto ele. "Fui arranhado, fui estapeado, fui socado", disse

Por Amábile Reis Atualizado em 9 out 2020, 21h54 - Publicado em 9 out 2020, 12h18
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Divulgação/CAPRICHO

No final de 2019, Melissa Benoist, atriz de Glee e Supergirl, revelou ter sido vítima de violência doméstica. A artista dividiu com os fãs um vídeo em que falava sobre um relacionamento abusivo que tinha tido no passado com um rapaz mais novo que ela. Embora não tenha dito o nome do ex na publicação, fãs especularam que o desabafo se referia a Blake Jenner, ex de Benoist e com quem ela trabalhou em Glee.

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Melissa nunca confirmou ou desmentiu a suposição do público. Mas, nesta sexta-feira (9/10), Blake trouxe o assunto mais uma vez à tona e assumiu o caso. Em uma carta aberta aos internautas, o ator se responsabilizou pelas agressões contra a ex, mas disse que também foi agredido inúmeras vezes e que Melissa também era abusiva.

Abaixo, faremos a tradução livre do texto escrito por Jenner:

“Nos últimos 11 meses, eu tenho pensado em como falar sobre uma situação particular que foi tornada pública no fim de 2019. Durante esse período, refleti sobre aquele momento da minha vida que eu tinha mantido escondido por vergonha e medo, mas eu sei que isso é algo que precisa ser esclarecido. Não apenas publicamente, mas também particularmente com a pessoa que foi diretamente afetada por mim.

Quando eu tinha 20 anos, conheci uma mulher e me apaixonei. Eu não percebi a magnitude disso naquela época, mas, em retrospectiva, apesar de dividirmos um amor imenso, nossos traumas da infância provaram ser maiores. A paixão entre nós nos dava os momentos mais felizes, mas, ao mesmo tempo, trazia momentos de ciúmes, insegurança e instabilidade. De uma maneira, eu acho que para nós dois, nosso casamento foi como uma redenção. Mesmo nos momentos em que eu estava determinado a ir embora porque era a escolha saudável para nós, sentia que não podia abandonar alguém que eu amava e que me pedia para ficar. A raiz da relação era de co-dependência, o que possui as suas graves consequências. Nós éramos muito jovens e deixamos com que nossos traumas nos atrapalhassem por muito tempo.

Eu assumo total responsabilidade pela dor que eu gerei ao longo do meu relacionamento com minha antiga parceira – emocionalmente, mentalmente e, sim, fisicamente. Dois anos antes do fim da nossa relação, houve um momento em que minha ex e eu estávamos numa discussão acalorada e, em um momento de frustração, enquanto eu estava em um corredor e ela estava em nosso quarto, joguei meu telefone sem direção e o aparelho bateu no rosto dela. Eu congelei num estado de choque e horror enquanto a minha antiga parceira berrava de dor. O olho dela instantaneamente começou a inchar pelo impacto do celular. É um momento que eu irei me arrepender pelo resto da minha vida. Ela ficou sentada chorando e eu só podia imaginar a dor, o medo e a vergonha que ela deve ter sentido naquela hora. Se eu pudesse fazer qualquer coisa para voltar atrás, faria. Entretanto, mesmo que seja muito difícil aceitar isso e seja muito difícil detalhar essa situação agora, mesmo que não tenha tido nenhuma intenção, eu sou responsável pela dor que causei nela naquela ocasião e em outras daquele momento em diante. E isso é algo que eu ainda estou trabalhando para poder me perdoar.

Sem querer me absolver de qualquer responsabilidade, é importante entender que existia abuso mental, emocional e físico das duas partes. E, como resultado disso, eu e minha antiga parceira começamos a fazer terapia, mas apesar de várias tentativas de resolver os nossos problemas, nós estávamos estagnados num ciclo tóxico em nosso relacionamento. Eu pensei muito se deveria ou não falar sobre a dor que eu sofri da minha ex ao longo da nossa relação. E eu cheguei à conclusão de que sim, é importante para mim falar sobre isso.

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  • Ao longo dos meus anos de terapia, eu esclareci porque eu vivi por tanto tempo com vergonha de certos traumas que eu passei na minha vida assim como a dor que eu sofri nessa relação. Eu percebi que muito disso era por causa de uma ideia falsa de masculinidade que eu achei que precisava honrar. Quando confrontei isso, assim como tantos homens, eu vi que vivi muito da minha vida em segredo e reprimido por causa de um falso ideal masculino que foi instalado em mim desde meu nascimento. Eu quero deixar algo muito claro: nada disso serve como uma desculpa pelos meus atos, mas, na verdade, como uma percepção que tive durante meu processo de cura com tudo o que esse relacionamento causou na minha vida. Eu também acredito que quando são feitas alegações contra e são dadas informações sobre alguém, a responsabilidade disso é uma via de mão dupla e a pessoa tem direito de se defender se necessário.

    O abuso emocional e mental começou logo no início do relacionamento. Eu estava sendo chamado para vários trabalhos e oportunidades e tive que negar por conta de ciúmes de eu ter que trabalhar com outras atrizes, fui desencorajado e ameaçado sobre ter alguma relação com colegas de elenco ou de tirar fotos com elas em eventos. Ameaças e comentários de suspeitas eram feitos sobre colegas de profissão mulheres com quem eu tinha ou estava trabalhando. Ela fazia com que eu me sentisse culpado por trabalhar e receber ligações das minhas parceiras enquanto estava fora, ela ameaçava se machucar por conta da depressão e por ter medo de eu abandoná-la. Eu fiquei isolado – proibido de ver meus amigos por anos, o que fez com que esse relacionamento tóxico se tornasse meu universo. Eu era verbal e emocionalmente abusado por tudo, desde a minha família a até as roupas que eu usava em sessões de fotos. Eu fui arranhado. Eu fui estapeado. Eu fui socado no rosto, o que fez que eu precisasse ir ao hospital para tratar do meu nariz quebrado. Também precisei usar corretivo e inventar desculpas em relação aos meus machucados visíveis. Fui machucado durante esse relacionamento. Fui fisicamente agredido no chuveiro, deixando um machucado traumático do qual não quero falar agora.

    Há discrepâncias entre as nossas lembranças do relacionamento, como a linha do tempo e quando aconteceram as coisas ao longo dos anos. Entrar nos detalhes não só seria revelar coisas que eu acredito que a minha antiga parceira gostaria que mantivesse o respeito diante a vida pessoal dela, mas também que transformaria inevitavelmente essa situação em ela-disse-ele-disse. Essa é a última coisa que eu quero. Eu acho que o que estou tentando dizer é que essa relação – que era tóxica e turbulenta – foi o resultado de duas pessoas magoadas por traumas passados. Embora isso tenha vindo à tona ano passado pela minha ex, o fato é que nós não estamos mais juntos há quatro anos. Desde então, tenho trabalhado nos meus problemas pessoais com uma terapeuta, tentando desvendar não só os sintomas, mas a raiz que causou tudo o que aconteceu.

    Ao falar sobre a minha experiência, eu espero que vocês entendam que não tenho interesse em difamar a minha ex. Esse desabafo é algo que eu sinto que muitas pessoas não entenderão: quero que ela se cure, mas eu também quero me curar – e eu quero acreditar que uma coisa não exclua a outra. Acho que essa foi a coisa mais difícil de entender, porque sinto que a minha voz não importa mais. No fim, independentemente de qualquer coisa, quero ser o homem que eu sei que posso ser, estendendo minha empatia aos outros e vivendo uma vida de perdão. Pelos outros e por mim.

    Para quem ler isso, eu peço desculpas pela sua perda de respeito e confiança em mim; por ter aumentado algo de dor em um mundo que já está repleto de mágoa; e por prejudicar algo que deveria ser visto como alegre. Para todas as vítimas de violência doméstica ou de qualquer forma de abuso que pode ter sofrido gatilho com a nossa história, eu sinto muito. Eu sei que nenhuma declaração ou carta pode diminuir a dor, mas eu farei todas as tentativas que puder para melhorar essa situação – uu, como vítima, estou com vocês e eu me arrependo do abuso que gerei como agressor e prometo nunca mais perder de vista quem eu sou.

    Além disso, a minha maior desculpa vai – agora e antes – para a minha antiga parceira. Sinto muito. Há muitas coisas que eu gostaria de ter feito diferente. Eu também não gostaria de ter vivido a dor que passei ao longo do nosso relacionamento, nunca voltarei a cometer esses mesmos erros. Eu nunca vou parar de fazer o trabalho necessário para melhorar essas áreas da minha vida. E desejo a você e a sua família muita saúde, felicidade e amor.

    Após quatro anos do nosso término, eu posso falar sem dúvidas que sei quem sou e sei que eu cresci e aprendi com os meus erros. Passei por um longo período de terapia e trabalho, mas entendi que sempre posso melhorar e continuar a crescer. E eu sei que isso não é uma jornada solitária. Espero que, ao dividir a minha história, que ela possa ajudar outras pessoas de alguma maneira a refletir, ouvir e sair de uma situação de vergonha e segredo após sofrer abuso. A vocês, leitores, independentemente de onde você esteja no mundo, obrigada por ler a minha verdade. Significa mais do que você pode imaginar. Espero que vocês estejam bem e saudáveis”.

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