Transtorno de Borderline: o que é, quais são os sintomas e como tratar

Entenda o que é o Borderline, transtorno que acomete 3 milhões brasileiros, entre eles, Raissa Barbosa, ex-participante de "A Fazenda"

Por Gabriela Junqueira Atualizado em 27 nov 2020, 18h12 - Publicado em 28 nov 2020, 10h01
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CAPRICHO/Sestini/Reprodução

“Uma das coisas mais complicadas da vida é ter um problema para o qual todos fecham os olhos e preferem desmerecer você”, lamenta a estudante de direito Amanda Veras, de 24 anos. Ela, assim como a ex-participante de A Fazenda, Raissa Barbosa, foi diagnosticada com um transtorno de personalidade conhecido como Síndrome de Borderline. Em entrevista para a CAPRICHO, a jovem conta que ficou muito incomodada com a reação de algumas pessoas dentro e fora do reality show depois que a modelo teve um episódio de surto dentro do programa e começaram a chamá-la de “louca”. Algumas pessoas até disseram que ela tinha feito aquilo para chamar atenção.

Amanda conta que esse tipo de comentário é um dos piores que se pode fazer, e que ela mesma já ouviu várias coisas do tipo, porque minimizam transtornos mentais. “Não sabem o que é para manter a sanidade tendo Borderline”, disse Amanda, que costuma ouvir comentários como: “Não existe isso, todo mundo consegue ter autocontrole”, “Seu namorado deveria ter vergonha de você, olha a situação que você fez ele passar” e “Isso é falta de levar uns tapas”.

À esquerda, a estudante de direito Amanda Veras e à direita a influenciadora e cantora Evie Dee
À esquerda, a estudante de direito Amanda Veras, e à direita, a influenciadora e cantora Evie Dee @amandveras @wtfevie/Reprodução

A influenciadora Evie Dee, de 23 anos, também diagnosticada com Borderline, diz que o que a motivou a falar sobre transtornos psicológicos nas redes sociais foi perceber o quanto as pessoas ainda compartilhavam um estereótipo negativo sobre o assunto. “Via muita gente falando que quem tinha Borderline era uma pessoa ruim, mau caráter ou mentirosa”, lamenta a influenciadora, que fala sobre sua vivência nas canções que escreve e também em seu livro, Despersonalizada.

  • As duas jovens, como a maior parte dos pacientes, não recebeu o diagnóstico com rapidez. Evie diz que, apesar de tomar medicamentos e fazer terapia desde os 12 anos de idade, o diagnóstico correto só veio há cinco anos. “Quando eu comecei a ler sobre Borderline, após receber o diagnóstico, passei dias lendo sobre o assunto. Fiquei bem impressionada com o quanto aquilo me descrevia”, conta. Já Amanda explica que tem crises e transtornos de comportamento desde criança, mas como o assunto era menos tratado na época, sua família não sabia como proceder direito. Inicialmente, a jovem recebeu o diagnóstico de depressão e transtorno de ansiedade generalizada (TAG), até que enfim foi diagnosticada com Borderline. Ao todo, ela passou por quatro especialistas até receber o diagnóstico correto. “Foi um divisor de águas muito importante para eu entender quem eu era [receber o diagnóstico correto]. Minha qualidade de vida mudou muito”, confessa Evie.

    O que é a Síndrome de Borderline

    O psicólogo e neurocientista Fabiano de Abreu Rodrigues esclarece que o “Borderline é um transtorno mental caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento e na autoimagem”. Entre os sintomas psicológicos estão medo de ser abandonada ou negligenciada (e os esforços para evitar que isso aconteça), um sentimento crônico de vazio e pensamentos maniqueístas (polarizados para o bem e o mal). O diagnóstico é feito através da avaliação de comportamento do paciente, podendo ser necessária a participação de amigos e familiares no processo. Entre as formas de tratamento usadas na terapia, o psicólogo cita métodos como o tratamento baseado na mentalização e técnicas para o uso da inteligência emocional.

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    Juliana Dias/CAPRICHO

    Estima-se que 2% da população mundial tenha Borderline. O transtorno representa 20% dos casos atendidos nos consultórios e a taxa de suicídio entre os pacientes é de 8% a 10%, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, um número preocupante e que revela a urgência de se falar mais sobre o tema.

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    Sobre os comentários que fazemos no dia a dia, como o de uma pessoa ser “louca” ou “desequilibrada”, o psicólogo reforça que “não podemos jamais julgar o comportamento do outro sem entender ou conhecer sua história. Há muitos casos de suicídios em pessoas com Borderline, ou seja, não saber lidar com uma pessoa com esse transtorno pode prejudicar sua vida, potencializando seus comportamentos destrutivos“, explica.

    Quais são os principais sintomas

    De acordo com o Instituto de Psiquiatria Paulista, “os sintomas mais comuns da síndrome de Borderline incluem instabilidade emocional associada à impulsividade, insegurança e relações sociais problemáticas. Os diagnosticados costumam ser pessoas que não toleram ficar sozinhas, podendo sentir medo intenso ou raiva quando se sentem abandonados ou negligenciados”. Normalmente, os sintomas têm a ver com episódios relacionados ao passado do paciente e surgem após conflitos emocionais.

    Apesar de a síndrome ser bastante confundida com transtorno de ansiedade e depressão, ela é diferente, mas a pessoa diagnosticada com Borderline pode também apresentar patogenias associadas, como o próprio transtorno de ansiedade, depressão, transtornos alimentares, etc.

    Como é o tratamento

    Os tratamentos para o transtorno de Borderline incluem terapias e o uso de medicamentos, que podem variar de acordo com o quadro do paciente. Podem ser eles antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e até remédios para dormir.

    Entre as principais terapias, estão a cognitivo-comportamental, a em grupo e a comportamental dialética. A primeira ajuda os pacientes a ter consciência do que motiva as suas ações. Já a em grupo pode ser realizada com a família ou em casal, e é feita a fim de resolver questões e melhorar as relações. Por último, a terapia comportamental dialética é um dos tratamentos mais conhecidos para Borderline, desenvolvida pela americana Marsha Linehan, nos anos 80, e busca resolver conflitos.

    Boderline é a mesma coisa que bipolaridade?

    Não, são coisas diferentes. O transtorno bipolar é caracterizado pelas alternâncias do estado de humor, em momentos em que o individuo se sente eufórico e feliz e outros em que está triste e até depressivo. A síndrome de Borderline, por outro lado, é um transtorno de personalidade e, apesar do paciente também ter oscilações de humor, elas são mais instáveis. “O transtorno bipolar é uma doença que envolve desregulação mais espontânea e duradoura do humor. Dura pelo menos uma ou duas semanas com humor persistentemente eufórico, irritável ou deprimido. Já no transtorno de personalidade Borderline, essa desregulação do humor é mais fugaz e influenciada por eventos exteriores. O paciente experimenta eventos de vida com emoções ruins de forma muito mais intensa, mas dentro de algumas horas estão de volta à normalidade”, exemplificou o psiquiatra Giovani Missio no site Cuidados Pela Vida.

    Outra diferença é nos comportamentos que o paciente tem que acompanham as variações de humor. No transtorno bipolar, podem rolar alterações de sono, de apetite e falta de concentração. Na síndrome de Borderline, os comportamentos mais frequentes são os mal adaptativos, que “são ferramentas psicológicas inadequadas para lidar com o estresse. Por exemplo: se cortar para que a dor física ajude a afastar uma emoção ruim ou ser dependente emocionalmente”, pontua o psiquiatra.

    Tem cura?

    O transtorno de Borderline não tem cura, mas o tratamento com profissionais especializados e medicamentos ajuda o paciente a ter uma maior qualidade de vida. “A primeira coisa que eu falaria é para ter paciência. Às vezes, a gente demora para encontrar o processo que realmente funciona pra gente e também demora para aceitar que precisa de ajuda”, diz Evie sobre a síndrome e a dificuldade de receber o diagnóstico correto.

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