“Viver é complexo”: por que os jovens são os que mais morrem por suicídio

A taxa de suicídio entre adolescentes e jovens adultos durante o período de transição da escola para a faculdade tem crescido no Brasil nos últimos anos

Por Isabella Otto - Atualizado em 26 set 2020, 10h12 - Publicado em 27 set 2020, 10h06

Você sabia que 80% dos universitários brasileiros não sabem qual carreira seguir? Afinal, ter uma profissão é diferente de ter uma plano profissional. Talvez você não tivesse conhecimento deste número exato, levantado pela empresa de treinamento CMOV, mas já devia ter uma noção, certo? É mais fácil encontrar estudantes do ensino médio perdidos que alunos que saibam com exatidão o que prestar no vestibular. A fase de transição da escola para a faculdade é complicada, principalmente para aqueles que não fazem ideia de qual rumo dar para a vida. A pressão sobre a fase adulta chega com tudo e a saúde mental acaba sendo a maior prejudicada.

“Muitos jovens acabam optando pela profissão que os pais desejam para eles e podem se frustrar com a decisão. É importante se sentir confortável com a escolha”, explicam as irmãs gêmeas Patrícia e Júlia Fernandes, terapeuta ocupacional e psicóloga, respectivamente. As especialistas, que comandam o Instagram @universoduplo, alertam que os pais possuem grande poder de tornar esse período mais leve ou então sobrecarregado. Isso porque muitos acabam depositando suas expectativas e até mesmo seus desejos não realizados nos filhos que, além de estarem preocupados por si só com o futuro, acabam recebendo uma carga extra de preocupação vinda dos pais, já que sentem-se na obrigação de agradá-los. “É preciso um olhar mais atento, acolhedor e empático para que possamos identificar esse sofrimento. Tanto a família quanto a universidade precisam oferecer apoio para que o suicídio não se torne a única forma de alívio da dor“, alertam as profissionais neste Setembro Amarelo.

No Brasil, a taxa de suicídio entre universitário só cresce desde 2002, quando o Mapa da Violência já havia registrado um aumento de 10% no número de casos. O suicídio no país relacionado a transtornos de ansiedade e doenças como depressão é a principal causa de mortes de jovens entre 15 e 29 anos: um caso a cada 46 minutos, dado este que faz com que o Brasil ocupe a nada honrosa 1ª posição no ranking de países da América Latina com maior taxa de depressão e ansiedade. Não à toa, a maioria dos casos coincide com o período de estudos e a transição entre adolescência e vida adulta. “Nosso sistema de ensino ainda preza muito pela quantidade e não instiga os alunos a pensarem, mas sim a darem respostas óbvias. Não há um olhar mais humanizado sobre os estudantes. Dessa forma, há uma alta demanda de trabalhos e provas acadêmicas em que os alunos precisam ter um bom desempenho para alcançar a nota média. Estresse, ansiedade e depressão são alguns dos problemas emocionais e psicológicos que podem ser desencadeados por conta da pressão vivenciada por esses alunos“, pontuam as especialistas.

Ilustração de Aleksei Morozov/Getty Images

“A fase da adolescência já é por si um período estressante para os indivíduos: mudanças corporais, descoberta da sexualidade, comparações com colegas da escola, início de relacionamentos, novas perspectivas, etc. Muitas transformações externas e internas ocorrem nessa fase, inclusive o aumento das responsabilidades. Por conta de tamanha demanda que surge, muitos acabam se sentindo sobrecarregados e não sabem como lidar com a pressão externa [pais, escola e sociedade] e interna [estresse, ansiedade e depressão]. Por isso, o apoio, acolhimento e validação dos pais e/ou responsáveis é de extrema importância na adolescência. Em famílias em que há diálogo, carinho e confiança, essa fase pode se tornar mais leve e não se transformar em casos de depressão e crises de ansiedade”, salientam Júlia e Patrícia. As profissionais da área da saúde ainda alertam que, além da chance de poder ter um bom diálogo com os pais e contar com o apoio deles, evitar comparações é o que mais contribui para a preservação da saúde mental e, consequentemente, da vida: “Lembre-se de que há situações que estão no seu controle e outras que não dependem de você. Foque naquilo que você pode controlar: estudos, dedicação, rotina, comprometimento… Mas que há outras variáveis que podem influenciar nessa hora. Entender que tem coisas que não podemos mudar nem temos controle é uma forma de aceitar a realidade e acalmar a ansiedade. O autoconhecimento tem papel fundamental nesse processo para poder diferenciar o que seu e o que é do outro“.

A frustação é um grande mal, seja ela motivada pelas enormes desigualdades sociais que existem no Brasil, pela decepção de perceber que errou na escolha da graduação, que não conseguiu entrar na faculdade que o pai gostaria, que não foi tão bem no Enem, que ficou na lista de espera da universidade pública, que precisou fazer cursinho… Ser universitário já é um desafio em qualquer lugar do mundo, afinal é uma fase nova na vida que se inicia, mas no Brasil esse cenário é ainda mais delicado. Além dos abismos sociais já citados anteriormente, o país é um dos mais racistas do globo e que mais tem cortado verbas destinadas à educação ultimamente. Se a pressão já afeta o pré-universitário heterossexual, branco e de classe média-alta, afeta com ainda mais força a jovem negra de classe baixa. É sistêmico, é cruel, é de perder a cabeça.

Ilustração de Marina Borodacheva/Getty Images

E daí, o que acontece? Esses jovens de famílias menos favorecidas acabam estampando manchetes de grandes veículos de comunicação quando conseguem se destacar e fazer o impossível após horas de estudos a fio, às vezes tendo que trabalhar nas horas vagas, se privando por meses de importantes horas de descanso e sono, do contato social, da distração, da qualidade de vida. Ninguém deveria ter que fazer o extraordinário para garantir uma vaga em uma boa universidade. “Os jovens que estão em época de vestibular ou de adaptação à faculdade acabam, muitas vezes, tendo prejuízos no desempenho ocupacional, principalmente relacionados ao lazer, participação social e descanso. Isso acaba impactando, direta ou indiretamente, na saúde mental, considerando que a qualidade do sono, a falta de interação social e lazer podem acarretar sintomas como estresse, ansiedade, cansaço e desmotivação”, conta a terapeuta ocupacial, Patrícia, que desenvolve ao lado da irmã, que é psicóloga, estratégias que facilitam o desempenho nessas ocupações que estão sendo prejudicadas – mas não dá para negar que, no Brasil, até isso é um baita privilégio.

Se poder contar com o apoio dos pais, evitar comparações, pesquisar seus gostos e habilidades, e investir no seu futuro, não no futuro que alguém projeta para você, são questões pessoais, as outras que dizem respeito à forma como o ensino nos é aplicado e às maneiras que o estudante precisa se virar nos 30 para garantir um futuro promissor são sistêmicas e estruturais – e, infelizmente, pode levar anos até que sejas enfim questionadas por uma maioria e levadas em conta por aqueles que estão no poder. Às especialistas, cabe continuar ajudando o máximo de jovens possível a não deixar que a pressão sobre o futuro seja mais forte de aguentar que a vontade de continuar lutando por ele. “Quando se sentir muito ansioso, mude o foco: preste atenção em algum objeto que há na sua casa, qual o formato dele, sua cor, textura, detalhes, até que a respiração volte ao normal e você possa pensar com mais clareza. Além disso, você pode fazer técnicas de respiração e meditação que te ajudem a trazer a atenção para o aqui e agora, desviando o foco dos pensamentos ansiógenos e controlando a respiração. Em uma crise, respiramos rápido demais causando hiperventilação. Respire lentamente para levar oxigênio no cérebro e aumentar a concentração”, dão as dicas.

 

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