“Viver é complexo”: por que os jovens são os que mais morrem por suicídio

A taxa de suicídio entre adolescentes e jovens adultos durante o período de transição da escola para a faculdade tem crescido no Brasil nos últimos anos

Por Isabella Otto Atualizado em 13 abr 2021, 17h01 - Publicado em 13 nov 2020, 15h05

Você sabia que 80% dos universitários brasileiros não sabem qual carreira seguir? Afinal, ter uma profissão é diferente de ter uma plano profissional. Talvez você não tivesse conhecimento deste número exato, levantado pela empresa de treinamento CMOV, mas já devia ter uma noção, certo? É mais fácil encontrar estudantes do ensino médio perdidos que alunos que saibam com exatidão o que prestar no vestibular. A fase de transição da escola para a faculdade é complicada, principalmente para aqueles que não fazem ideia de qual rumo dar para a vida. A pressão sobre a fase adulta chega com tudo e a saúde mental acaba sendo a maior prejudicada.

“Muitos jovens acabam optando pela profissão que os pais desejam para eles e podem se frustrar com a decisão. É importante se sentir confortável com a escolha”, explicam as irmãs gêmeas Patrícia e Júlia Fernandes, terapeuta ocupacional e psicóloga, respectivamente. As especialistas, que comandam o Instagram @universoduplo, alertam que os pais possuem grande poder de tornar esse período mais leve ou então sobrecarregado. Isso porque muitos acabam depositando suas expectativas e até mesmo seus desejos não realizados nos filhos que, além de estarem preocupados por si só com o futuro, acabam recebendo uma carga extra de preocupação vinda dos pais, já que sentem-se na obrigação de agradá-los. “É preciso um olhar mais atento, acolhedor e empático para que possamos identificar esse sofrimento. Tanto a família quanto a universidade precisam oferecer apoio para que o suicídio não se torne a única forma de alívio da dor“, alertam as profissionais neste Setembro Amarelo.

  • No Brasil, a taxa de suicídio entre universitário só cresce desde 2002, quando o Mapa da Violência já havia registrado um aumento de 10% no número de casos. O suicídio no país relacionado a transtornos de ansiedade e doenças como depressão é a principal causa de mortes de jovens entre 15 e 29 anos: um caso a cada 46 minutos, dado este que faz com que o Brasil ocupe a nada honrosa 1ª posição no ranking de países da América Latina com maior taxa de depressão e ansiedade. Não à toa, a maioria dos casos coincide com o período de estudos e a transição entre adolescência e vida adulta. “Nosso sistema de ensino ainda preza muito pela quantidade e não instiga os alunos a pensarem, mas sim a darem respostas óbvias. Não há um olhar mais humanizado sobre os estudantes. Dessa forma, há uma alta demanda de trabalhos e provas acadêmicas em que os alunos precisam ter um bom desempenho para alcançar a nota média. Estresse, ansiedade e depressão são alguns dos problemas emocionais e psicológicos que podem ser desencadeados por conta da pressão vivenciada por esses alunos“, pontuam as especialistas.

    ilustração mostra garota de lado, com as duas mãos no rosto. Em volta dela, traços que simulam pensamentos
    Ilustração de Aleksei Morozov/Getty Images

    “A fase da adolescência já é por si um período estressante para os indivíduos: mudanças corporais, descoberta da sexualidade, comparações com colegas da escola, início de relacionamentos, novas perspectivas, etc. Muitas transformações externas e internas ocorrem nessa fase, inclusive o aumento das responsabilidades. Por conta de tamanha demanda que surge, muitos acabam se sentindo sobrecarregados e não sabem como lidar com a pressão externa [pais, escola e sociedade] e interna [estresse, ansiedade e depressão]. Por isso, o apoio, acolhimento e validação dos pais e/ou responsáveis é de extrema importância na adolescência. Em famílias em que há diálogo, carinho e confiança, essa fase pode se tornar mais leve e não se transformar em casos de depressão e crises de ansiedade”, salientam Júlia e Patrícia. As profissionais da área da saúde ainda alertam que, além da chance de poder ter um bom diálogo com os pais e contar com o apoio deles, evitar comparações é o que mais contribui para a preservação da saúde mental e, consequentemente, da vida: “Lembre-se de que há situações que estão no seu controle e outras que não dependem de você. Foque naquilo que você pode controlar: estudos, dedicação, rotina, comprometimento… Mas que há outras variáveis que podem influenciar nessa hora. Entender que tem coisas que não podemos mudar nem temos controle é uma forma de aceitar a realidade e acalmar a ansiedade. O autoconhecimento tem papel fundamental nesse processo para poder diferenciar o que seu e o que é do outro“.

    A frustação é um grande mal, seja ela motivada pelas enormes desigualdades sociais que existem no Brasil, pela decepção de perceber que errou na escolha da graduação, que não conseguiu entrar na faculdade que o pai gostaria, que não foi tão bem no Enem, que ficou na lista de espera da universidade pública, que precisou fazer cursinho… Ser universitário já é um desafio em qualquer lugar do mundo, afinal é uma fase nova na vida que se inicia, mas no Brasil esse cenário é ainda mais delicado. Além dos abismos sociais já citados anteriormente, o país é um dos mais racistas do globo e que mais tem cortado verbas destinadas à educação ultimamente. Se a pressão já afeta o pré-universitário heterossexual, branco e de classe média-alta, afeta com ainda mais força a jovem negra de classe baixa. É sistêmico, é cruel, é de perder a cabeça.

    ilustração de uma garota sentada segurando um lápis diante de um caderno. Ela está com uma das mãos no rosto e sua expressão é de tristeza
    Ilustração de Marina Borodacheva/Getty Images

    E daí, o que acontece? Esses jovens de famílias menos favorecidas acabam estampando manchetes de grandes veículos de comunicação quando conseguem se destacar e fazer o impossível após horas de estudos a fio, às vezes tendo que trabalhar nas horas vagas, se privando por meses de importantes horas de descanso e sono, do contato social, da distração, da qualidade de vida. Ninguém deveria ter que fazer o extraordinário para garantir uma vaga em uma boa universidade. “Os jovens que estão em época de vestibular ou de adaptação à faculdade acabam, muitas vezes, tendo prejuízos no desempenho ocupacional, principalmente relacionados ao lazer, participação social e descanso. Isso acaba impactando, direta ou indiretamente, na saúde mental, considerando que a qualidade do sono, a falta de interação social e lazer podem acarretar sintomas como estresse, ansiedade, cansaço e desmotivação”, conta a terapeuta ocupacial, Patrícia, que desenvolve ao lado da irmã, que é psicóloga, estratégias que facilitam o desempenho nessas ocupações que estão sendo prejudicadas – mas não dá para negar que, no Brasil, até isso é um baita privilégio.

    Se poder contar com o apoio dos pais, evitar comparações, pesquisar seus gostos e habilidades, e investir no seu futuro, não no futuro que alguém projeta para você, são questões pessoais, as outras que dizem respeito à forma como o ensino nos é aplicado e às maneiras que o estudante precisa se virar nos 30 para garantir um futuro promissor são sistêmicas e estruturais – e, infelizmente, pode levar anos até que sejas enfim questionadas por uma maioria e levadas em conta por aqueles que estão no poder. Às especialistas, cabe continuar ajudando o máximo de jovens possível a não deixar que a pressão sobre o futuro seja mais forte de aguentar que a vontade de continuar lutando por ele. “Quando se sentir muito ansioso, mude o foco: preste atenção em algum objeto que há na sua casa, qual o formato dele, sua cor, textura, detalhes, até que a respiração volte ao normal e você possa pensar com mais clareza. Além disso, você pode fazer técnicas de respiração e meditação que te ajudem a trazer a atenção para o aqui e agora, desviando o foco dos pensamentos ansiógenos e controlando a respiração. Em uma crise, respiramos rápido demais causando hiperventilação. Respire lentamente para levar oxigênio no cérebro e aumentar a concentração”, dão as dicas.

     

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