Relacionamento abusivo: por que não é tão simples assim sair dele?

"Continuou vivendo uma relação abusiva porque quis. Era só ter saído dela": entenda por que, na prática, as coisas não são tão descomplicadas

Por Isabella Otto Atualizado em 22 out 2021, 17h27 - Publicado em 24 out 2021, 10h05

Na teoria, as coisas muitas vezes parecem ser mais simples do que são na prática, especialmente quando tratamos de assuntos do coração, como relacionamentos. É por isso que, olhando de fora, parece evidente que a solução parar sair de uma relação abusiva seja terminar o compromisso. Entretanto, além de existirem relacionamentos abusivos de todos os tipos, e não apenas entre casais, colocar um ponto final na ligação está longe de ser assim tão simples. Na maioria das vezes, porque pode ser extremamente difícil identificar o que é abuso.

Ilustração de um coração preso a cordas e sendo controlado por uma mão, como se fosse uma marionete
Daryna Zaichenko/Getty Images

As mulheres são as principais vítimas de relacionamentos abusivos, de acordo com a ONU. Toda relação tóxica começa da mesma maneira: pautada em cima do controle, que é uma forma de violência que pode começar de modo muito sutil, disfarçada de ciúme protetivo, por exemplo. A justificativa mais usada? Que aquele controle é em nome do amor, conforme aponta Cristina Maria Cortezzi, mestre em Psicologia Clínica pela PUC, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

 

Daí entra em cena a carência. A pessoa se engana e não percebe que controlar crenças, roupas, amizades, comportamentos e compromissos seja uma forma de violar o espaço do outro. A vítima acredita que o parceiro faz isso porque a ama demais, e peca por desejar cuidar e proteger. “Só que esse controle vai aumentando gradativamente e a mulher, por sua vez, começa a se acostumar com ele, como se fosse banalizando esse abuso, esse sufocamento. Então, a tolerância vai aumentando”, explica a psicanalista, que ressalta que existe uma enorme diferença entre ceder e complacer: “É quando você vai ficando elástica e se afastando do seu eu, por algum medo, inclusive o de perder, e vai se submetendo cada vez mais às situações impostas”.

Foto de uma menina adolescentes de costas, com as mãos amarradas por uma corda atrás da cabeça
hjalmeida/Getty Images
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O jogo psicológico vai ficando tão intenso que, em determinado momento, a vítima começa a se culpar pelo que está sentindo e vivendo. Isso porque as falas do abusador dão a entender que ela está sendo mal-agradecida, que nunca ninguém a amará como ele a ama, que ele só está “louco” porque ela o deixa assim. “A própria vítima começa a pedir desculpas. Ela vai adoecendo, tanto física quanto psiquicamente, enlouquecendo e enfraquecendo nas suas razões. Só que ainda assim não percebe que tem algo de tóxico na relação. Ela se sente incapaz”, explica a Dra. Cristina.

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Na psicanálise, existe uma coisa chamada Desautorização do Processo Perceptivo. É como se com um olho você enxergasse a situação tóxica, mas com o outro tentasse justificá-la, dizendo que, no fundo, a pessoa é boa e te ama. A racionalização [tentar explicar porque a pessoa é assim] e a negação [não enxergar, porque a decepção vai ser tão grande que é melhor nem ver] são mecanismos de defesa do cérebro; e é aí que procurar ajuda profissional se torna imprescindível nesse processo de entender que está vivendo uma relação abusiva, e precisa e pode se desvencilhar dela. “Essa oscilação de enxergar só com um olho não leva a uma resultante de abrir os dois olhos. Porque, ao abrir, você vai precisar lidar com consequências desagradáveis, que a mulher pensa que não vai dar conta. Porém, se você não vai em direção à verdade, você adoece. Quando a pessoa se fortalece com o trabalho analítico, ela vai em direção a sua saúde mental e começa a sair de situações que são insalubres. É preciso buscar ajuda, porque, caso contrário, a tendência é a repetição“, alerta a psicanalista.

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Respondendo a pergunta do título da matéria, não é tão simples sair de um relacionamento abusivo porque (1) as formas de abuso psicológico podem ser muito sutis; (2) a pessoa tende a ir se acostumando com as violências cotidianas, mesmo elas se tornando maiores e mais frequentes; (3) a vítima começa a se sentir culpada pela situação; (4) muitas vezes, ela tenta justificar os atos do parceiro até como autopreservação; (5) buscar a verdade é por si só um processo difícil e doloroso; (6) ela, durante o processo, pode acabar sendo desacreditada em diversos momentos e por várias pessoas; (7) a ameaça econômica é real e gera muito medo na vítima; e (8) o nosso próprio cérebro utiliza alguns mecanismos de defesa que podem nos fazer mascarar a verdade e dar aquela sensação de incapacidade.

Dentre as principais e mais comuns formas de violência cotidiana, a Dra. Cristina Maria Cortezzi destaca:

  • controle disfarçado de preocupação;
  • humilhação;
  • bullying;
  • desqualificação, tanto com relação à pessoa quanto com relação àqueles que ela ama;
  • elevação do tom de voz;
  • falas no modo imperativo, sempre exercendo comando;
  • cobranças;
  • ameaça econômica, como se a mulher não fosse conseguir sobreviver sem o dinheiro do homem;
  • atitudes que diminuem a parceira e a fazem questionar sua capacidade.

É preciso parar de culpabilizar e desacreditar a vítima, para que assim ela se sinta encorajada, em um mundo já tão machista e perigoso para as mulheres, a buscar ajuda, denunciar (Disque 180) e reencontrar sua verdade.

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