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O assassinato de Moïse Mugenyi Kabagambe foi um crime bem à brasileira

A vítima, um imigrante africano, morreu após cobrar R$ 200 de pagamentos atrasados; a família só soube da morte 12h depois

Por Isabella Otto 2 fev 2022, 10h39

Duzentos reais. Esta foi a quantia que o congolês Moïse Kabamgabe foi cobrar de seus patrões antes de ser assassinado no Rio de Janeiro, em um quiosque na Barra da Tijuca, na noite de 24 de janeiro. O valor dos salários atrasados foi revelado pela deputada estadual Dani Monteiro, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Selfie do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe. Ele usa uma camiseta branca e um chapéu preto
Arquivo Pessoal/Reprodução

Mamanu Idumba Edou, tio da vítima, contou à Folha que o gerente do estabelecimento pegou um pedaço de madeira para atacá-lo assim que o funcionário foi cobrar a quantia de dois dias de serviço não pagos. Na sequência, chamou mais quatro homens para ajudá-lo no espancamento. “Mesmo depois de morto, os caras continuaram batendo nele. Largaram o corpo perto do quiosque mesmo, amarraram as mãos dele, coloram elas para trás. Moïse morreu, mas continuaram torturando ele“, disse.

O primo, Yannick Iluanga, falou que o quiosque continuou funcionando normalmente, mesmo com o corpo de Moïse estirado no chão. Dos cinco suspeitos, três já foram detidos, sendo que dois confessaram o crime. O delegado Edson Henrique Damasceno informou ao jornal O Globo que eles responderão, a princípio, por homicídio duplamente qualificado.

 

Moïse Kabamgabe chegou ao Brasil com sua família em 2014, na condição de refugiado político, fugindo da fome e da guerra no Congo (um dos países mais pobres do mundo), uma vez que vivia em uma região disputada por duas tribos, a Hema e a Lendu. Ivana Lay, mãe do jovem, contou que a família perdeu muitos parentes nesses conflitos armados e tantos outros desapareceram: “Mataram meu filho aqui como mataram em meu país”.

Todo assassinato é brutal, mas dada a história de Moïse e as condições em que tudo ocorreu, o crime se torna ainda mais agressivo. O congolês fugiu, mas não conseguiu escapar. Morreu no Brasil vítima de outra guerra, cobrando um dinheiro que era seu por direito para não morrer de fome. Moïse foi assassinado fazendo aquilo que dizem por aí que mais dignifica o homem: trabalhando. Morreu também por ser imigrante e negro, num quiosque chamado Tropicália, nome de uma das expressões artísticas mais importantes do Brasil, nascida em 1967, durante o regime militar, como forma de resistência. Estamos regredindo ou em alguns casos nós nunca nem evoluímos? “Que o nome do Quiosque seja Tropicália aprofunda, para mim, a dor de constatar que um refugiado da violência encontra violência no Brasil”, lamentou o cantor Caetano Veloso, um dos principais nomes do Tropicalismo, no Instagram. Para a comunidade congolesa do Rio de Janeiro, não resta dúvida: “Esse ato brutal, que não somente manifesta o racismo estrutural da sociedade brasileira, mas claramente demonstra a xenofobia dentro das suas formas, contra os estrangeiros”.

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O alvará de funcionamento do Tropicália foi suspenso. Até o final das investigações, o estabelecimento permanecerá fechado. O mínimo. Afinal, o que eles ofereceriam no cardápio? Um crime à brasileira? Que a justiça seja feita, em nome de Moïse, de seus familiares e de todos os refugiados. Mas até quando teremos que pedir justiça por tamanhas atrocidades? A impressão que dá é que seguimos presos a músicas de protesto. De um lado, o jornal “é um banco de sangue encadernado, já vem pronto e tabelado”. De outro, temos as pessoas na sala de jantar, que estão ocupadas demais em nascer e morrer, mesmo que na veia do congolês corra muito pouco sangue. Ê, Miserere… É Made in Brazil!*.

 

*trechos das canções “Parque Industrial”, “Panis Et Circenses”, “Tropicália” e “Miserere Nóbis”, referências da Tropicália, de Gilberto Gil, Os Mutantes e Caetano Veloso

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