Não há respeito diante de “opiniões” preconceituosas que ferem existências

Rafa Kalimann e Caio Castro compartilharam o vídeo de um pastor dizendo que não acha certa a homossexualidade, mas que respeita

Por Isabella Otto Atualizado em 31 Maio 2021, 15h42 - Publicado em 31 Maio 2021, 15h50

No domingo à noite, 30, e nesta segunda-feira de manhã, 31, Rafa Kalimann e Caio Castro foram alvo de críticas nas redes sociais por publicarem no Instagram um discurso de homofobia. Isso porque ambos compartilharam em suas redes sociais um vídeo do pastor Cláudio Duarte dizendo que não concorda com relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas que respeita a comunidade LGBTQIA+: “Se você me perguntar se eu acho certo, eu não acho. Mas isso não nos torna inimigos”, disse.

Arte de um arco-íris com os dizeres
Jon Tyson/Unsplash/Reprodução

O pastor, que deu a declaração durante participação no Programa Raul Gil, do SBT, explicou que tem valores e não vai abrir mão deles. Não é novidade que muitas religiões ainda condenam a homossexualidade e qualquer forma de amor que contrarie “a família tradicional brasileira”. Cláudio Duarte faz parte da Igreja Batista Brasileira, que segue o Evangelicalismo e doutrina a partir da Bíblia Sagrada. “Eu vivi com um cara que era meu irmão, e ele era gay. Ele tinha uma situação [financeira] melhor que a minha. Eu usava o tênis dele, as roupas dele. Eu não tenho problema nenhum”, garantiu o líder religioso.

Depois dos questionamentos, Rafa Kalimann usou as redes para se desculpar. “Aquele vídeo foi enviado por um amigo homossexual em um dos nossos grupos. Ele e muitos outros acharam bacana ver um posicionamento diferente da maioria quando se trata de religião(…) Meu intuito era repassar aquilo para aqueles que tratam mal os LGBTs por conta da religião”, posicionou-se. Caio castro, entretanto, não deu o braço a torcer e continuou sem entender as problemáticas da questão: “Eu sou a favor do amor entre as pessoas, mas existem pessoas que não são(…) Não precisamos nem devemos aceitar, mas precisamos respeitar”, contradisse. O ator finalizou seu discurso de maneira ainda mais incoerente: “Eu sou contra ele ser contra, mas eu respeito a opinião dele. Tudo começa no respeito”.

Aqui, explicamos os equívocos nas falas de Rafa e Caio, especialmente na de Caio, trazendo à tona o posicionamento de Gilberto Nogueira, mais conhecido como Gil do Vigor. “A questão é que ele [o pastor] disse que tem valores e que acha errado, mas respeita, e é contra isto que lutamos, contra pessoas que acham que relacionamentos homoafetivos são errados e contra os valores. Sou bicha e tenho valores! Mas que bom que você apagou e entendeu”, escreveu o ex-BBB21 para a influenciadora.

Print de publicações feitas por Caio Castro (no Instagram) e Rafa Kalimann (no Twitter) sobre comentários homofóbicos feitos por eles
Twitter/Instagram/Reprodução

A tal liberdade de expressão dá margem para que muitos discursos criminosos sejam validados, como o da homofobia, que é crime previsto em lei. Como explicamos nesta matéria publicada na CAPRICHO em 2019, liberdade de expressão não é desculpa para tudo. É essencial entender que a sua liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Quando seu posicionamento fere essa existência alheia, e principalmente quando é pautado em cima de julgamentos de caráter e valores baseados em estereótipos e generalizações a respeito de um determinado grupo social, ele deixa de ser opinião e vira preconceito (a Lei 7.716/89 “define os crimes resultantes de preconceito, que podem ser cometidos por intolerância racial, étnica, religiosa ou de nacionalidade”). Logo, não dá para usar o respeito para lutar contra algo que é desrespeitoso por natureza nem usar a justificativa de Caio Castro, de que não aceita mas respeita, porque ao respeitar você automaticamente compactua com o preconceito em questão.

Quando a temática religiosa entra em cena, o negócio se torna mais complicado, mesmo em teoria o Estado sendo laico. Isso porque a fé é algo que move muito as pessoas e bastante delicado de ser sentenciado. Ao longo a História, quantas guerras já não aconteceram tendo como pano de fundo religiões? Quantos já não mataram e morreram em nome de Deus?

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    De acordo com o pastor protestante alemão Stefan Scholz, a Bíblia Sagrada apresenta poucas e claras situações a respeito da homossexualidade: no “Antigo Testamento”, em Levítico 18, 22 e Levítico 20, 13, em Gênesis 19, e em 1Samuel 18, 1-4; no “Novo Testamento”, em 1Coríntios 6, 9 e 1Timóteo 1, 10. “Que valor a Bíblia tem para as interrogações éticas no âmbito sexual hoje? Uma condenação das práticas homossexuais como simples aplicação das afirmações bíblicas sobre o assunto não leva em conta nem os atuais conhecimentos das ciências humanas sobre as identidades sexuais, nem as pesquisas histórico-críticas sobre os antigos conceitos sexuais. Ora, a homossexualidade é contrária à Bíblia? Se nos referirmos àquilo que naquela época se podia imaginar e àquilo era praticado, certamente sim“, escreveu em artigo publicado na revista Der Spiegel, em 2015, traduzido por Moisés Sbardelotto.

    Trecho de 1Coríntios 6:9-10, retirado da Bíblia Sagrada
    Reprodução/CAPRICHO

    Entretanto, como o alemão mesmo pontua posteriormente no texto, a Bíblia retrata períodos de tempo e pode ser interpretada de maneiras diferentes por aqueles que a leem. Não necessariamente eu vou ter um entendimento da Bíblia Sagrada igual ao seu, e isso varia levando em conta as vivências das pessoas e os contextos nos quais elas estão inseridas (como o ano da leitura, a sociedade atual, etc). Por exemplo, até mesmo os chamados cristãos progressistas compactuam com a homofobia em seus discursos elaborados em cima do respeito. “Independente do que seja certo ou errado”, “é o lugar [Igreja] em que eles [gays] devem estar” ou “só o Espírito Santo pode trazer respostas” são alguns dos argumentos usados por esses religiosos que, na prática, se dizem mais empáticos e menos preconceituosos, mas na teoria continuam seguindo os tais valores conservadores pregados pelo pastor Cláudio Duarte, cujos “discursos descontruidões” podem fazer brilhar os olhos num primeiro momento, mas basta uma simples interpretação de texto para ver que o buraco é bem mais embaixo e as amarras são antigas e grotescas – e oferecer e pedir respeito nem sempre é a solução ou o início de uma revolução. Na realidade, pode ser só mais um recurso de compactuar com intolerâncias, segregações e mortes.

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