Mercado da moda no Brasil é racista e comandado por branquitude elitista

"Esperamos que as máscaras da branquitude elitista que comandam a moda brasileira caiam por terra. (...) Estamos muito cansadas desse cinismo", diz modelo

Por Taya Nicaccio, colaboradora Atualizado em 16 jun 2020, 20h45 - Publicado em 16 jun 2020, 12h31
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CAPRICHO/Divulgação

Oi, gente! Aqui é a Taya Nicaccio (@taynicaccio), da Galera CAPRICHO, e hoje vim dar continuidade a uma matéria que escrevi em agosto do ano passado, que debate e questiona a falta de modelos negros na indústria da moda nacional e internacional. Recentemente, a modelo Thayná Santos, de 25 anos, abriu espaço em seu Instagram para fazer o mesmo questionamento que fiz e se deparou com diversos relatos podres de modelos e profissionais que vivenciaram diversos episódios de racismo e conduta abusiva nesse mercado. Marcas grandes e estilistas famosos, como Reinaldo Lourenço e Glória Coelho, são citados em diversos desses depoimentos.

Portfólios pessoais/Divulgação

Nos últimos dias, nós acompanhamos várias manifestações antirracistas ao redor do mundo. Afinal, estamos vivendo uma pandemia mundial não só da COVID-19, mas do racismo também, o mesmo que estrutura todas as relações sociais, o mesmo que atingiu George Floyd, brutalmente assassinado por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, e o mesmo que mata uma pessoa negra a cada 23 minutos no Brasil, como jovens e crianças como Enzo, Miguel Otávio, João Miguel, João Pedro, Agatha Félix, Kauã Ribeiro, Jefiner Gomes, Kauan Peixoto, Pedro Gonzaga, Kethellen de Oliveira e tantos outros que jamais devemos esquecer.

Com todas essas manifestações, muitas pessoas se uniram ao #BlackoutTuesday, movimento que se iniciou na indústria musical com o intuito de causar um “apagão” nas redes sociais através do compartilhamento de telas pretas, para apoiar a luta contra o racismo. Mas não se deixem enganar! Nem todo mundo entendeu o recado. Por exemplo, marcas e estilistas renomados. A modelo Thayná Santos atua no mundo da moda há 8 anos, se incomodou com a situação e resolveu dar nome aos bois. Em entrevista à CH, ela disse: “O motivo da iniciativa foi perceber que marcas e profissionais da moda extremamente racistas estavam se aproveitando do momento para se autopromoverem e se engajarem. Aderindo ao #BlackoutTuesday, ao #BlackSquare e a outras hashtags como se fosse uma sensação momentânea, esquecendo-se de fato de que esse é um problema social. Observei então que tinha muita gente expondo suas opiniões sobre esse falso protagonismo, porém ninguém dizia o nome das pessoas que faziam isso. Percebi que tudo seria esquecido logo, se eu não expusesse quem realmente cometia atos discriminatórios. Foi uma das melhores decisões que tomei. Logo depois, recebi uma série de relatos sobre o racismo na moda. Particularmente, foi meu grito por justiça.”

Coincidentemente ou não, Paulo Borges, idealizador e diretor criativo da São Paulo Fashion Week, fez uma live sobre “Mercado e Desenvolvimento Têxtil” no mesmo dia 6 e, na sequência, atendendo a pedidos, deu início a uma série de três lives com as modelos Natasha Soares e Cindy Reis, e com o produtor de moda @fredericoconceptual. O principal objetivo era discutir racismo, colorismo, silêncio e lugar de fala na moda. Estamos passando por um momento muito importante, porém delicado, e a modelo Cindy Reis, de 20 anos, com três anos de carreira, nos conta o porquê: “É um momento importante para levantarmos essa questão, pois só com o debate e com o conhecimento poderemos quebrar essas barreiras e combater o preconceito. Quanto ao lugar de fala, nós entendemos que [o racismo] é uma questão que pode e deve ser debatida por todos os cidadãos, não é algo que se restringe à população negra, justamente porque queremos que nossa voz seja ouvida, que sejamos reconhecidos e respeitados. Por isso, é importante que a gente amplifique esse debate, para podermos ser verdadeiramente integrados e respeitados.

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    Para Natasha Soares, de 23 anos, modelo também há três anos, a hora de implementar efetivamente mudanças é agora. “Nós acreditamos que não haverá momento mais propício para instigar uma mudança. As empresas que influenciam a imagem e o pensamento de milhões de pessoas estão agora com o queijo e a faca na mão“, opinou. Camila Simões, de 22 anos, que trabalha como modelo há quatro anos e meio, tem atuado diariamente junto com outras modelos através do grupo “Pretos Na Moda”, batalhando na linha de frente do combate ao racismo na indústria. “Esperamos que as máscaras da branquitude elitista que comandam a moda brasileira caiam por terra. Estamos muito cansadas desse cinismo absoluto que reina há décadas e apaga nossas histórias“, disse para a CH. Sobre o fato de nós, mulheres e modelos negras, muitas vezes sermos silenciadas, ela diz: “O silêncio é o que mais machuca. O fato de nossas vozes serem caladas e nossa luta ser invalidada pelas pessoas brancas nos torna invisíveis perante a sociedade em geral, o que é absolutamente injusto.”

    Quando questionadas se já tinham sido vítimas de racismo na moda, Camila Simões compartilhou um de seus piores casos. “Foi quando fui a um editorial pago. O tal shooting seria fotografado por um francês superconhecido no meio. Não sabia exatamente como seria, até que me pediram para tirar a roupa e ficar só de calcinha no estúdio. Sem aviso prévio e me sentido pressionada, segui as ordens. A referência da fotografia era eu sentada nas bordas da banheira de pernas abertas, cheia de curativos no corpo, fazendo uma alusão a cortes de lâmina. E, então, como se o constrangimento não fosse o suficiente, em meio a toda a equipe presente, o fotógrafo me perguntou: ‘Por que sua virilha é mais escura que o restante do corpo?’. Não sabia onde enfiar minha cara. O que mais doía era estar ali, exposta, sem reação”, desabafou.

    Essa sou eu, a Taya, produzindo minhas próprias roupas e desfilando pela We’e’ena Tikuna Arte Indígena, 1ª Grife de roupa Indígena desenhada por uma própria nativa Arquivo Pessoal/Reprodução

    Infelizmente, o racismo na moda está naturalizado e muitas vezes velado, impregnado na memória social das pessoas. Há quem diga que é “comum e normal” chegarmos para fazer um job ou um desfile e os “profissionais” envolvidos não saberem mexer em nossos cabelos crespos ou cacheados. “São inúmeros casos ou piadas que são feitas nas entrelinhas. É um maquiador despreparado que deixa nossa pele cinza, um cabeleireiro que não sabe lidar com nosso cabelo e nos pergunta como penteá-lo, um trabalho para o qual não somos considerados por não nos adaptarmos ao padrão da marca. As microagressões estão por toda parte“, contou Natasha Soares.

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    Em meio a tudo isso, a página “Moda Racista” nas redes sociais saiu do ar. Em entrevista para CAPRICHO, o idealizador dela, que prefere manter sua identidade preservada, conta que o perfil já existe faz tempo, mas foi derrubado numa clara tentativa de censura. “Já foram feitas algumas denúncias, como a de uma maquiadora importante no cenário da moda ter apresentado atitudes transfóbicas. As denúncias sobre racismo começaram através do movimento #BlackLivesMatter. Apesar do mesmo estar sendo muito usado como marketing em perfis e marcas do Instagram, era uma bandeira levantada e um momento que não podia ser perdido. O propósito da página inicialmente é mostrar a realidade do mercado da moda nacional e, a partir disso, exigir mudanças e respeito“, informou. Segundo o administrador, a página não possui ligação nenhuma com as modelos citadas acima: “Na verdade, os seguidores sempre tiveram a informação de que não temos vínculos com as modelos citadas. A única ligação que enxergo é a exigência de mudanças no mundo da moda referente ao racismo”. O dono da página também relata de que maneira pretende continuar daqui para a frente. “Compartilhar uma tela preta ou usar a hashtag #BlackLivesMatter nunca foi o suficiente. A luta contra o racismo acontece todos os dias. Para ser sincero, não sei o que esperar do cenário futuro. Sinto que as pessoas ainda não entenderam o que é racismo e o que ele causa. O que posso garantir é que sempre lutarei contra isso de todas as formas que me forem possíveis”.

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    Entramos em contato com Dorberto Carvalho, presidente do SATED-SP (Sindicato dos Artistas e Técnicos do Estado de São Paulo), que representa, dentre outras profissões, modelos e maquiadores de desfiles e espetáculos. Questionamos então de que forma o sindicato se posicionaria em meio a tudo o que estamos vivendo e essa foi a resposta: “No caso das modelos, passamos por um momento de mudanças muito interessantes nas relações de trabalho, porque estamos negociando uma Convenção Coletiva de Trabalho [que tem como principal objetivo estabelecer novas práticas para este mercado]. O mundo da moda não está fora do mundo real, do Brasil real, no qual o racismo estrutural está presente em todos os poros da sociedade. O Sindicato, como parte da sociedade civil organizada, também tem o compromisso com a diminuição, senão o fim, do racismo e das desigualdades“.

    Carvalho está há dois anos e meio na presidência do SATED e nos conta que, nesse período, foi procurado inúmeras vezes por produtores de desfiles alternativos, que gostariam de realizar espetáculos em comunidades ou desfiles de novos talentos para lançamento de new faces e novos estilistas. Geralmente a falas são muito parecidas. Eles dizem que vão trabalhar com meninas e meninos fora do padrão da moda [jovens negros, gordos ou de estatura baixa]. Esses produtores e organizadores buscam um acordo coletivo com o sindicato para realizar de forma extraordinária esses desfiles, querendo pagar abaixo da tabela, porque dizem, e é verdade, não poderem ser comparados ao SPFW. Eles afirmam também que fazem isso apenas por algum tipo de altruísmo, pois desejam levantar a autoestima desses jovens, ao que eu sempre questiono com a seguinte afirmação: não há nada melhor para autoestima de qualquer pessoa do que ser remunerada dignamente pelo seu trabalho.

    O presidente Dorberto Carvalho mencionou ainda outro mercado que considera absolutamente ilegal: “O ‘mercado do trabalho escravo na moda’ que, em nome de uma suposta aparição na mídia, experiência de trabalho, referência de currículo ou ainda simplesmente para que a agência faça algum agrado ao cliente, alguns modelos aceitam ou são forçados a aceitar trabalhar sem qualquer remuneração ou por permuta de peças de roupas, ao que o SATED não reconhece como trabalho sob nossa representação, e ainda tem denunciado ao Ministério Público do Trabalho como trabalho análogo à escravidão“, disse. Fora todas essas irregularidades, temos a subvalorização do trabalho dos modelos negros. “Ainda que o sindicato estabeleça um piso salarial para todos os trabalhadores sem distinção, qualquer cachê acima do piso é de livre negociação. Não é raro verificarmos que um cachê menor foi dado a modelos negros em comparação a modelos brancos”, informou o representante máximo do sindicato, que nos disse ainda que uma nova convenção deve entrar em vigor nos próximos 20 dias e prevê uma cota racial de 30% para os desfiles de moda, contemplando modelos negros e indígenas: “Dentre as boas novas está o estabelecimento de novas tabelas para cachês e direitos autorais, além do cachê teste para testes presenciais ou por vídeo-teste, destinados à seleção de profissionais para realização de ensaios fotográficos, showroons, desfiles de moda, produção cinematográfica, produção audiovisual, publicitário e comercial. O SATED-SP tem a todo custo trabalhado para honrar o compromisso com a redução ou fim do racismo, da exploração e das desigualdades, mas o sindicato não se constitui como um mundo paralelo, e assim essa luta não deve ser apenas de um setor profissional, mas de todo povo brasileiro”.

    Angela Davis
    GIPHY/@IntoAction/Getty Images

    O mundo da moda ainda precisa passar por grandes transformações. Nós, negros, representamos mais da metade da população brasileira, mas não estamos inseridos corretamente na mídia e muito menos na indústria da moda, por isso se torna necessário discutir e questionar a falta de profissionais negros e indígenas dentro desses espaços. Quero ressaltar que só um, dois ou três desses profissionais em determinado ambiente, para cumprir a cota, não é suficiente. É cruel ser a primeira ou a única pessoa negra em alguma empresa, revista, jornal, desfile, entre outros, ainda mais agora que tantas pessoas se dizem a favor do movimento negro. Não tem que existir vaga só para um, mas para muitos. Para ser antirracista, não basta compartilhar fotos e hashtags nas redes sociais. É necessário ir além: pesquisar, ler e se educar. Você quer mudança e apoiar o movimento? Comece contratando mais profissionais negros e indígenas, pagando os mesmos salários (e não nos menosprezando pela nossa cor de pele) e usando seu lugar de privilégio para nos ajudar.

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