Medo crônico: saúde mental da população LGBTQIA+ precisa de atenção extra

Neste Dia Internacional do Orgulho (28), é urgente discutir o sofrimento e o adoecimento emocional das pessoas LGBTQIA+

Por Isabella Otto Atualizado em 28 jun 2022, 13h13 - Publicado em 28 jun 2022, 13h10
Duas meninas de costas, com as mãos dadas. Uma delas carrega a bandeira LGBTQIA+ no bolso da calça jeans
Daniel Garrido/Getty Images

Aceitar e reconhecer seus limites, ter energia para organizar a rotina e realizar as tarefas, conseguir lidar com sentimentos, emoções e frustrações, aceitar os ciclos da vida e estar em paz consigo mesma. Estes são os principais ingredientes para o bolo da saúde mental não desandar.

E olhando assim nem parece uma receita tão difícil de ser seguida, né? Mas, na hora de colocar a mão na massa, o passo a passo pode não ser tão simples – ainda mais quando levamos em conta o ambiente em que o bolo está sendo preparado.

A saúde mental é um caso de saúde pública, especialmente depois do início da pandemia de coronavírus. Em 2021, a startup The Bakery publicou um levantamento mostrando que, em 2020, a maioria dos brasileiros sentiu uma piora na saúde mental. Apesar disso, 55% deles são resistentes na hora de buscar ajuda. “Ainda há o estigma de que fazer terapia é sinônimo de conviver com uma doença mental grave”, explicou Raquel Imbassahy, diretora de gestão de Saúde Populacional da SulAmérica, à VEJA Saúde na ocasião.

Quando fazemos recortes de gênero, etnia e sexualidade, a situação se agrava. Segundo estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a maioria da população LGBTQIA+ apresentou uma piora na saúde mental durante a pandemia.

Entre 2020 e 2021, os diagnósticos de depressão severa aumentaram 28% e os de ansiedade cresceram 45,3%. A vulnerabilidade socioeconômica é vista como uma das principais explicações para o cenário. Quando fazemos um recorte ainda maior, ou seja, quando paramos para analisar a saúde mental de pessoas LGBTQIA+ negras, gordas e/ou trans e travestis, o quadro é ainda mais alarmante.

“A comunidade LGBTQIAP+ sofre um processo histórico de discriminação e violência social. Primeiro, fomos considerados pecadores, depois criminosos, e, por fim, doentes. A busca por igualdade de direitos e garantia de uma vida justa não é uma pauta recente. Viver numa sociedade que se opõe ao diferente gera muito sofrimento para pessoas da comunidade, pois, além de serem vítimas frequentes de situações de violência, sofrem com os impactos que a falta de informação e preconceito causam nas famílias, nas escolas, no trabalho, etc”, explica o psicólogo e psicoterapeuta Jonnanh Nascimento, especializado em tratamento da população LGBT+.

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E lembra quando comentamos que, para esse bolo não desandar, é preciso analisar o ambiente em que ele está sendo feito? Pois é. Além de tudo isso que já citamos, o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, de acordo com relatório do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTQIA+. São Paulo é o epicentro, ou seja, o estado em que mais assassinatos acontecem. Não é surpresa nenhuma descobrir que, no Brasil, a probabilidade de um homossexual cometer suicídio é 5X maior que a de uma pessoa heterossexual.

Cérebro branco em cima de um fundo rosa. Metade dele está pintado com as cores do arco-íris
SerrNovik/Getty Images

“O preconceito é o fator que mais afeta a saúde mental da comunidade LGBTQIAP+. Pertencer à uma sociedade intolerante ao diferente causa em pessoas da comunidade um sentimento crônico de ansiedade e insegurança, já que a qualquer momento elas podem ser agredidas: na rua, no trabalho, em casa. Quando ampliamos a discussão para corpos ainda mais marginalizados ou excluídos, é evidente que o sofrimento se agrava. A invisibilidade dos corpos LGBTQIAP+ é só um desdobramento do preconceito social. A presença de pessoas LGBT+ incomoda e faz parte do funcionamento histórico da opressão que corpos marginalizados não sejam vistos”, conta Jonnahn.

As pequenas violências diárias sofridas pela comunidade são somatizadas, e quem acaba sentindo mais é o cérebro. E quando nossa mente não está bem, nosso corpo não fica bem e nada funciona. Isso pode desencadear um quadro de ansiedade sexual, como pontua o psicólogo. “Pessoas LGBT+ costumam crescer em famílias LGBT+ ignorantes, que repudiam qualquer comportamento ou prática considerada não-normativida; tendo suas identidades pouco representadas na mídia e nos meios de comunicação, o que nos impede de comparar e ter referências saudáveis sobre nossa forma de existir no mundo; numa sociedade que possui uma série de crenças distorcidas sobre a vida fora do mundo hétero-cisnormativo. Eventualmente, chegamos à adultez com um sentimento de desvalidação e desconforto com a própria experiência subjetiva de vida. A ansiedade sexual é também o resultado que a falta de informação e validação causa em pessoas LGBTQIA+“.

Pessoa branca de cabelos loiros de costas, com o braço direito levantado e um arco-íris pintado na mão
Tatyana Aksenova / EyeEm/Getty Images

Segundo levantamento recente realizado pelo Walk The Talk, os direitos da comunidade LGBTQIA+ estão entre os problemas atuais menos importantes para os brasileiros. Juliana Simão, uma das fundadoras da organização, explica que o assunto é uma preocupação de nicho e uma pauta que está mais presente entre jovens de 16 a 24 anos, de classes mais altas e não heterossexuais. Para Jonnanh Nascimento, é apenas revertendo esse cenário que a LGBTfobia vai diminuir. “É um problema que envolve o trabalho contínuo de todas as esferas sociais, das famílias ao governo. Estamos em ano eleitoral. Qual o posicionamento dos seus candidatos sobre a comunidade? Como você lida com comentários preconceituosos dentro da sua família?”, questiona.

Sendo conhecimento um poderoso antídoto contra o preconceito e a intolerância, as pessoas de fora da comunidade, que têm uma visão limitada sobre o universo LGBTQIAP+, devem buscar informação e se educar. E não em qualquer lugar, vide intensa fase de produção e compartilhamento de fake news que vivemos, impuslionada pela redes sociais e pela polarização política.

“Precisamos que mais pessoas falem desses assuntos para que ocupem espaços onde pessoas LGBT+ não têm voz ou presença e é fundamental cuidarmos das crianças. As primeiras experiências de preconceito, com frequência, surgem na infância e dentro das famílias. Se você convive com crianças, cuide para que elas tenham espaço de se expressar e se descobrir no mundo. Você não sabe se ela é LGBT+“, alerta o psicólogo, que ainda ressalta que essa questão envolvendo a saúde mental dos membros da comunidade é o que faz com que tantos deles ainda tenham medos e inseguranças de falar sobre o assunto, por mais bem-resolvidos sexualmente que sejam: “Como me definir parte de um movimento que culturalmente é punido, invisibilizado e vítima de inúmeros preconceitos? Exige um posicionamento que demanda muita consciência, força e coragem. É por isso que a Parada LGBT+ é também uma Parada do Orgulho. Não orgulho porque ser LGBT+ seja um privilégio, mas porque o preconceito tende a nos colocar numa posição de vergonha, e é a principal causa do sofrimento e adoecimento emocional de pessoas LGBT+“.

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