Médica com COVID-19 revela rotina com doença e tratamento: “Tortura”

A médica Mylla Borges, do Amapá, fala sobre seu diagnóstico, seus sintomas, seu tratamento, a cloroquina e o risco de colapso do sistema de saúde

Por Isabella Otto - Atualizado em 16 abr 2020, 16h41 - Publicado em 16 abr 2020, 12h12
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CAPRICHO/Divulgação

Na linha de frente no combate ao coronavírus nos hospitais em que trabalha em Macapá, no Amapá, o Hospital das Clínicas Alberto Lima (residente) e o Hospital Central de Macapá (enfermaria), a médica Mylla Borges, de 28 anos, foi diagnosticada com COVID-19 na última terça-feira (14/4). Ela estava no 10º dia da doença quando conseguiu fazer o teste rápido. A macapaense começou a ter os sintomas em 4 de abril. No quinto dia da doença, ou seja, no dia 9, não aguentou e foi para o hospital. “Como estava com muitos sintomas respiratórios, fiz tomografia e cotonete nasal”, conta para a CAPRICHO. Apesar de o exame nasal ter dado negativo para o coronavírus, os sintomas não melhoraram e ela decidiu, enfim, fazer o teste rápido, que atestou a presença do vírus. “Fazer os exames não foi difícil porque eu sou profissional da saúde e estava trabalhando com pacientes suspeitos e positivos. Então, para mim, foi um pouco mais fácil”, explica.

Mylla Borges na linha de frente no combate ao novo coronavírus Arquivo Pessoal/Reprodução

Mylla estava tomando todas as medidas de prevenção no trabalho e em casa. Nos hospitais, o traje era a roupa privativa do local, avental descartável, macacão, pelo menos dois pares de luva, gorro, máscara N95, máscara cirúrgica, óculos, face shield (protetor facial) e propé (sapatilhas descartáveis). “O dever me chama. Estava indo ao hospital de manhã, de tarde e de noite. Tanto no público quanto no particular. Era do hospital pra casa, de casa pro hospital. Não saía pra mais nada. Até comida estava pedindo por delivery. Só saía mesmo quando era estritamente necessário”, relata a médica, que acredita que tenha sido infectada na hora de tirar o uniforme de trabalho ou ao entrar no hospital, ainda sem máscara: “Não tem como saber, porque a gente não consegue enxergar o vírus”. A macapaense ainda revela que é muito complicado tirar de forma correta as roupas de trabalho. “Alguns profissionais da saúde estão se infectando nessa hora, porque é muito difícil mesmo tirá-las. É muita coisa que a gente coloca para se proteger”, garante.

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Nesta quinta-feira, 16, Mylla completa o 12º dia da doença. Ela já está se sentindo melhor e a tosse diminuiu bastante, mas, no mínimo até sexta, quando a doença alcançar o 14º dia, data em que a quarentena terminaria, a médica segue isolada em seu quarto. “Moro com meus pais. Minha mãe é idosa e meu pai é asmático. Eles deixam comida pra mim na porta, batem, daí eu dou um tempo e pego. Quando termino, tento lavar aqui mesmo, depois coloco na porta de novo, eles pegam e lavam mais uma vez na cozinha. Terminei de tomar os remédios ontem, seguindo o protocolo da OMS. Tive muito efeito colateral, como enjoo e vômito. Foi difícil”, conta. Esse protocolo é o da hidroxicloroquina administrado junto da azitromicina, acompanhado de remédios para aliviar os sintomas, como febre, tosse e dor de garganta.

Na foto, à esquerda, Miguel, irmão da Mylla, que também é médico, o pai Nilson e a mãe Lúcia Arquivo Pessoal/Reprodução

Outra coisa que Mylla celebra é o fato de ter conseguido, finalmente, tomar banho sem sofrer. “O banho estava sendo um momento de tortura. Aquela água caindo… Parecia que eu estava me afogando e não conseguia respirar! O tempo todo parecia que eu ia cair. Às vezes, tinha que sentar no chão pra dar uma descansada e conseguir terminar. Cada banho era uma chuva de lágrimas. Eu não queria morrer, eu queria continuar. Eu queria que passasse a falta de ar. Era horrível”, relembra. Os principais sintomas que a médica teve foram febre alta e tosse. “Muita tosse, por sinal, principalmente seca, e falta de ar quando eu fazia algum esforço físico, como tomar banho. Sentia muito enjoo, cheguei a vomitar, mas o que mais machuca mesmo é a tosse. Ela castiga a gente“, conta.

Alimentar-se também virou uma tortura e a macapaense só conseguiu comer direito no 9º dia da doença. O caso de Mylla foi moderado e por pouco ela não foi internada para usar oxigênio. “A nossa saturação normal é 98, 99, 100. A minha chegou a 89. Aí batia o desespero. Ficava muito tempo deitada de peito pra baixo, que isso ajuda o pulmão a expandir, e tentava tomar muito líquido”, revela a médica, que, se receber alta na próxima sexta, 17, já deve retornar ao trabalho. “Quando você é infectado por um vírus, você ganha imunidade. O problema é que o vírus sofre mutação, mudam algumas cepas, aí rola o risco de se infectar novamente”, explica.

 

Pegar mais uns dias de descanso, no atual cenário do Brasil e do mundo, seria um luxo e também um egoísmo com seus colegas de profissão. Na última terça-feira, 14, quando a médica conversou com a CH, a situação do Amapá já era preocupante, e a tendência é piorar, ainda mais porque agora é época de surtos de Influenza e Dengue no estado, o que deixa os hospitais ainda mais sobrecarregados. Fala-se em risco de colapso do sistema de saúde, não só lá como em todo o Brasil. “Aqui já tem mais de 300 casos confirmados e 7 óbitos. É um dos estados brasileiros com maior incidência do vírus e também um dos mais pobres. As autoridades abriram mais 13 leitos de UTI no SUS. Tem 21 pacientes hospitalizados entre SUS e privado. Estamos chegando no nosso pico. Vai sobrecarregar o sistema”, alerta Mylla, que também faz uma ressalva com relação à cloroquina: “Ainda não tem comprovação científica, os estudos não são conclusivos. Não tem como sair distribuindo a torto e a direito pra todo mundo. Vi paciente se recuperar sem usar nada e vi paciente sendo intubado mesmo usando“.

A médica voltava do trabalho e deixava as roupas usada naquele dia fora de casa. Rotina deve retomar em breve Arquivo Pessoal/Reprodução

A cloroquina, medicamento usado no tratamento de malária, por exemplo, segue em pauta. Na última segunda-feira, 13, a Sociedade Brasileira de Cancerologia enviou um documento ao Ministério da Saúde recomendando o uso da cloroquina por cinco dias, associado ao uso de azitromicina, para o tratamento da COVID-19. O presidente Jair Bolsonaro é outro defensor fiel do medicamento. A OMS, contudo, reforça que sua eficácia no tratamento do coronavírus ainda não foi comprovada. Na última terça, um dos estudos que estava sendo realizado sobre a substância no Brasil foi interrompido por notarem que a cloroquina estava aumentando as complicações cardíacas em alguns pacientes. Rita Wilson, esposa do ator Tom Hanks, usou a substância para se tratar da COVID-19 e relatou efeitos colaterais fortíssimos. “Senti muita náusea, tonturas e meus músculos ficaram tão fracos que eu não podia andar”, relatou a atriz e produtora de 63 anos.

O combo hidroxicloroquina e azitromicina funcionou para Mylla, que seguiu o protocolo da OMS. Segundo a médica, mais porque na hora do desespero vale tudo. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde afirma que não dá para garantir com 100% de certeza que esses medicamentos sejam os diferenciais na recuperação nem que sejam seguros para todos. Eles precisam ser administrados com sabedoria e usados apenas com prescrição médica. Para Mylla Borges, não há medida preventiva ainda mais eficiente senão o isolamento social: “O pessoal que está andando por aí sem máscara, a galera que não está lavando as mãos, que está na rua sem necessidade, essas pessoas têm que ter noção e ficar em casa, por mais difícil que seja. Tem pessoas que estão com o vírus e não sabem, e continuam transmitindo porque estão aí na rua batendo papo, se encontrando com os amigos para assistir a lives, o que é totalmente errado e perigoso“.

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