Falta d’água em favelas do RJ e a desigual luta social contra a COVID-19

"Enquanto as pessoas batem panela nos bairros nobres, no Alemão as pessoas precisam bater panela para ter água", relata morador do Complexo do Alemão

Por Isabella Otto - Atualizado em 28 mar 2020, 20h39 - Publicado em 28 mar 2020, 10h05
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CAPRICHO/Divulgação

Em meio à pandemia do coronavírus no mundo, a internet descobriu um novo desafio: o de como lavar as mãos corretamente. É só fazer uma busca rápida no Instagram para encontrar o vídeo de alguém ensinando a higienizar as mãos do jeito certo, quais produtos usar, quais movimento fazer, por quanto tempo deixar a água correr, e por aí vai. É um conselho realmente efetivo, afinal lavar as mãos salva vidas, ainda mais em tempos de surtos virais, mas não é algo que pode ser seguido por todos. Hoje, de acordo com o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada, representando 16,5% da população do Brasil. Como tomar as medidas básicas de higiene contra o coronavírus nessas condições?

A rua em que Helcimar Lopes mora, no Complexo do Alemão, no início da semana Arquivo Pessoal/Reprodução

Nos últimos cinco dias, a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) recebeu mais de 140 denúncias de falta de água, coletadas e divulgadas pelo Ministério Público. Helcimar Lopes, de 44 anos, produtor de eventos, mora no Complexo do Alemão, região que abriga mais de 17 favelas, e convive com o constante racionamento. “Enquanto as pessoas batem panela nos bairros nobres, no Alemão as pessoas precisam bater panela para ter água. Algumas partes do complexo já estão sem. É muita falta de água mesmo. Ela não chega. Por exemplo, os meus sobrinhos estão tendo que vir na minha casa para tomar banho“, disse o morador, que está sem trabalhar por causa da situação de distanciamento social.

 

Mesmo com eventos adiados e outros cancelados, o produtor é a favor da quarentena voluntária para combater o surto de COVID-19, principalmente nas favelas, onde a situação pode se tornar caótica caso o vírus chegue por lá. No Alemão, até o momento, não há casos confirmados da doença. O mais próximo registrado é no Bairro de Ramos. “A gente está se prevenindo o tempo todo para que isso não aconteça. Hoje mesmo, voltando do mercado, um senhor me perguntou se eu sabia onde estavam fazendo testes de coronavírus, porque ele estava tossindo muito, mas disse que não estava com falta de ar e o aconselhei a não ir ao médico por ora. A gente vai orientando as pessoas menos esclarecidas”, relata.

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Letícia Gomes, de 24 anos, mora na comunidade do Fallet, em Santa Teresa, e enfrenta o mesmo problema de falta de água, que está a deixando assustada. Ela disse que, com a pandemia acontecendo e as escolas fechadas, tem sido um desafio manter a casa organizada e fazer a higiene adequada. “Lavar as mãos com a frequência que é recomendada pela OMS e manter a caixa d’água com uma quantidade suficiente para ser usada no dia a dia é bem complicado”, lamenta.

A carioca Letícia Gomes, moradora da comunidade do Fallet Arquivo Pessoal/Reprodução

A jovem explica que o racionamento faz parte do dia a dia do povo da comunidade em que vive. “A gente aqui em casa tenta gastar uma quantidade mínima de água para fazer as coisas. Sempre acaba caindo um pouco da torneira, mas até isso tem sido cada vez mais raro. Nós procuramos encher alguns baldes e ligar uma bomba pra puxar a água pra caixa. Quando isso tudo não é possível, tentamos contar com a ajuda de algum vizinho”, conta Letícia, que fica triste com o fato de, no Fallet, não ter nenhuma associação de moradores para ajudar com a situação: “É bem difícil resolver, porque nós não temos pra quem reclamar. Nunca vi nenhum responsável por aqui.”

No Alemão, Helcimar encontra mais apoio de associações de moradores. Ele destaca, por exemplo, os coletivos Papo Reto e Voz das Comunidades. “Uma coisa muito linda que eu vejo no Alemão é que a gente tem uma geração muito jovem e muito conectada disposta a fazer o bem”, alegra-se. Em nota, a Cedae informou que as equipes operacionais estão trabalhando para solucionar as solicitações de atendimento e que colocou, só nesta semana, 40 novos caminhões-pipa para “atender prioritariamente comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro”, conforme relata a Agência Brasil. A empresa também garante que “busca viabilizar junto às prefeituras, associações de moradores e outros entes formas de atuar nas áreas informais, em localidades que não possuem redes de distribuição nem acesso para veículos de maior porte, procurando soluções para o fornecimento de água”.

Se a falta de água tratada é uma preocupação recorrente nas favelas, intensificada durante pandemias, outra angústia que piora em tempos de crise é a da falta de estrutura e de assistência médica. “Fazer esse distanciamento aqui é bem complicado para algumas pessoas, porque os cômodos das casas são pequenos e a maioria das pessoas que gera renda para a família está indo trabalhar. Então, quando algum familiar nosso sai de casa, ficamos sempre preocupados”, diz Letícia, que tem acompanhado os noticiários e ficado cada dia mais pensativa: “Me assusta pensar em como a minha família vai fazer depois que tudo isso passar, com a possível falta de dinheiro e emprego”.

Helcimar conta que, apesar da recomendação do distanciamento social voluntário, nas favela os comércios não fecham. “Não tem autoridade que vai lá e fala pra fechar, mas hoje vi muita gente circulando na rua”, disse referindo-se à última quarta-feira, 25, um dia após o pronunciamento do Presidente Jair Bolsonaro, em que disse que a vida deveria voltar ao normal, indo contra a recomendação de isolamento da OMS.

“Eu tomei um susto, de verdade. Até ontem, as pessoas estavam muito reduzidas na rua por aqui, muito mesmo. Hoje, eu vi muita gente na rua. E o comentário na fila do mercado era esse: ‘Se o Presidente falou que pode ir para a rua, que está tudo bem. (…) Se o Presidente falou que é só uma gripezinha’… As pessoas ouviram ele“, falou o morador, que classifica o discurso de Bolsonaro como totalmente irresponsável: “Ele subestimou a capacidade das pessoas que trabalham na área da saúde e da ciência. Aí, quer dizer, o pessoal menos esclarecido das favelas vai acreditar nele. Se o Presidente, o líder de uma nação, fala que é só uma gripe, muitas pessoas vão achar que podem ir pra rua, que podem agir normalmente, que está tudo bem. Isso aí afeta muito a gente.

Helcimar, morador do Complexo do Alemão, ainda opina sobre as pessoas que dizem que nas favelas falta água por questão de justiça, já que eles nem contas pagam. “O saneamento básico aqui é precário. Se tivéssemos todos os serviços que tem no Leblon, pagaríamos, como já aconteceu em programas de governos anteriores, como quando teve o Luz Social. Estamos esquecidos“, lamenta. Letícia, jovem morado do Fallet, comprova esse esquecimento com um agradecimento por ter sido ouvida: “Obrigada mesmo por terem me escutado. Precisamos de mais visibilidade.

Para lutar contra a proliferação do coronavírus nas favelas do Rio de Janeiro, vide situação em que as comunidades se encontram, e combater a falta de informação da população menos esclarecida, movimentos e organizações comunitárias locais têm se unido em campanhas de arrecadação de itens como água potável, água sanitária, sabonete, álcool gel 70% e alimentos não perecíveis, porque, se a favela parar de trabalhar, ela morre – e não de doença respiratória.

Para saber mais sobre a desigual luta de classe no combate ao coronavírus, acompanhe a hashtag #COVID19NasFavelas

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