Planos de governo prometem proteger mulheres. E dividir o poder?

Estudo do Instituto Update analisa 12 candidaturas à Presidência e mostra diferenças entre reconhecer demandas e abrir espaço para mulheres no poder.

Por Andréa Martinelli 15 set 2026, 16h37 | Atualizado em 4 out 2026, 17h53
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er segurança para voltar da aula à noite, conquistar independência financeira e participar das decisões que afetam o próprio futuro. Tudo isso passa pela política — mas essas necessidades recebem atenções bem diferentes nos planos de quem pretende governar o Brasil. Um levantamento do Instituto Update sobre 12 candidaturas à Presidência em 2026 ajuda a enxergar essa distância: enquanto nove programas apresentam propostas explícitas de enfrentamento à violência contra mulheres, apenas um traz medidas específicas para ampliar a participação político-eleitoral feminina.

O contraste aponta para uma questão que vai além das promessas de campanha: como as candidaturas enxergam as mulheres? Como pessoas que precisam de proteção e apoio ou também como lideranças capazes de definir os rumos do país?

“Existe uma diferença entre reconhecer os problemas que afetam a vida das mulheres e reconhecê-las de fato como sujeitos políticos”, afirma Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, em entrevista à CAPRICHO.

Publicado em agosto, o relatório Mulheres nos planos de governo de 2026 identifica uma concentração de propostas em violência, saúde, autonomia econômica e cuidado. Já a participação política e a relação entre segurança e circulação pelas cidades aparecem menos.

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Há uma ressalva importante: o estudo contabiliza medidas explicitamente dirigidas às mulheres ou que conectam uma experiência específica delas a uma ação de governo. Os resultados medem a presença e a abrangência dos temas, não a qualidade, a viabilidade ou o impacto das propostas.

Proteção entrou na agenda. A liberdade de circular, menos

Marcha pelos Direitos das Mulheres/Feminismo em 1º de junho de 2016 no Rio de Janeiro.
Marcha pelos Direitos das Mulheres/Feminismo em 1º de junho de 2016 no Rio de Janeiro. Phil Clarke Hill/In Pictures/Getty Images

O enfrentamento à violência contra mulheres aparece em 75% dos planos analisados. As propostas incluem redes de proteção, casas-abrigo, monitoramento eletrônico de agressores e articulação entre segurança, Justiça, saúde e assistência social, além de medidas de endurecimento penal.

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Para Carolina, essa presença indica que o tema passou a ser difícil de ignorar na disputa presidencial. Mas reconhecer o problema é apenas uma etapa. “Há uma diferença grande entre citar a violência e apresentar uma política capaz de enfrentar suas causas e acompanhar a vida dessas mulheres. Em alguns casos, ainda aparecem soluções muito superficiais ou isoladas.”

A distância fica mais evidente quando o olhar sai do momento da agressão e alcança as escolhas que o medo impõe no cotidiano. Na pesquisa Mulheres, Polícia e Facções, de 2026, realizada pelo Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado e citada no relatório, 79% das mulheres dizem sentir medo ao sair à noite, e 31,4% deixaram de utilizar algum meio de transporte por insegurança.

Apesar disso, segundo o levantamento dos planos, apenas o programa de Ronaldo Caiado relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano.

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“Se uma jovem deixa de estudar à noite porque não se sente segura para voltar para casa ou uma mulher recusa determinado trabalho porque o deslocamento naquele horário é inseguro, a violência está restringindo oportunidades”, explica a diretora-executiva do Instituto Update.

Por essa perspectiva, pensar a segurança das mulheres também exige olhar para as condições que permitem estudar, trabalhar e ocupar a cidade com liberdade.

Independência financeira começa antes do primeiro salário

Ilustração de várias barrinhas de ouro em cima de um fundo rosa claro

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Propostas específicas de autonomia econômica aparecem em sete dos 12 planos, cerca de 58%. Mas falar em independência financeira não significa defender os mesmos caminhos para alcançá-la.

O relatório identifica programas que relacionam autonomia a direitos, salários, proteção social e creches. Em outros, ganham destaque crédito, educação financeira, empreendedorismo e construção de patrimônio. A igualdade salarial ou remuneratória entre homens e mulheres está presente em cinco planos.

Na avaliação de Carolina, propostas concentradas no esforço individual podem deixar em segundo plano as diferenças nas condições de partida. “Autonomia econômica começa antes do primeiro salário. Tem relação com as possibilidades de formação, com a entrada no mercado de trabalho, com o tempo disponível, com a segurança para circular e com a expectativa de futuro que aquela jovem consegue construir para si.”

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É nessa discussão que entram as políticas de cuidado, explicitamente relacionadas à vida das mulheres em sete programas. Serviços como creches podem ampliar o tempo disponível para estudar e trabalhar. Segundo o relatório, porém, os planos variam entre tratar o cuidado como responsabilidade pública e associá-lo principalmente à maternidade e às responsabilidades familiares.

Quem pode participar das decisões?

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Atualmente, no STF temos apenas a ministra Carmem Lúcia como única mulher, frente aos outros 10 ministros que são homens. JVBarreto/CAPRICHO

O levantamento também cruza as propostas com a pesquisa Mulheres em Diálogo, realizada pelo Update em 2025. Nela, 72% das entrevistadas concordam plenamente com o aumento da representação feminina em cargos políticos.

Nos programas presidenciais analisados, apenas o de Caiado apresenta uma proposta específica de participação político-eleitoral feminina, com medidas relacionadas ao combate à violência política de gênero, à formação de candidatas e lideranças e ao financiamento partidário.

Quando o critério se amplia para a presença de mulheres em espaços de liderança e decisão, Augusto Cury também aparece, com incentivo à liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal.

“Falar de participação política exige discutir quem ocupa as chapas, quem recebe recursos, quem está nos ministérios, quem governa, quem decide prioridades e orçamento”, observa Carolina. Para quem está começando a votar, esse debate também diz respeito à possibilidade de se imaginar nos espaços de decisão — e de encontrar condições para chegar até eles.

Como olhar além das promessas?

A ausência da palavra “mulheres” não significa, automaticamente, que um programa não tenha políticas que afetem suas vidas. Emprego, educação, saúde, transporte e custo de vida também fazem parte das prioridades das eleitoras. O cuidado necessário é outro: uma proposta destinada a toda a população pode ter efeitos diferentes sobre grupos distintos.

“Uma maneira de perceber isso é procurar se o plano apresenta um diagnóstico. Explica quem é mais afetado pelo problema? Reconhece diferenças de gênero, raça, renda ou território? Diz como a proposta vai funcionar e quais barreiras pretende enfrentar?”, orienta a diretora-executiva do Instituto Update.

O levantamento não tem um recorte específico de mulheres jovens, por isso não permite tirar conclusões sobre essa geração isoladamente. Ainda assim, Carolina destaca que mobilidade, entrada no mercado de trabalho e participação política são questões especialmente relevantes para quem começa a vida adulta.

Para ler um plano de governo com atenção, ela sugere três perguntas:

  • Como esse plano enxerga as mulheres? Elas aparecem também como trabalhadoras, cidadãs e lideranças capazes de exercer poder?
  • Existe uma proposta concreta para enfrentar o problema apresentado? O texto explica o que será feito, como e por meio de qual política pública?
  • As mulheres aparecem nas grandes discussões sobre o país? Ou ficam restritas a um capítulo de “pautas femininas”?

“As mulheres já estão no centro da eleição como eleitoras. O desafio é que estejam também no centro da política como formuladoras e detentoras de poder”, conclui Carolina.

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