A cada dez jovens brasileiros que cometem suicídio, seis são negros

"A questão de ser mulher negra influencia muito, pois parece que as pessoas tentam te rebaixar a todo momento", diz Julia*, jovem negra com depressão.

Por Ana Carolina Pinheiro - 13 set 2019, 11h00

*O nome da entrevistada foi alterado para preservar sua privacidade.

Colocar a matéria em dia, sair com os amigos, encontrar o namorado. A rotina de Julia* no final do ensino médio era cheia, mas não faltava energia para dar conta de tudo. Mas, na mesma época em que o sonho de entrar na faculdade virou realidade, tudo começou a ganhar um peso que não tinha antes. Por isso, lidar com a pressão das provas e atividades, sentir-se bem consigo mesma e pertencer à nova realidade se transformaram aparentemente em missões impossíveis. “Comecei a ver que as coisas não estavam muito bem, porque pensava muito em suicídio, no mínimo, umas três vezes por dia. Ficava muito mal. Em alguns momentos tive síndromes do pânico também. Deixava de sair para muitos lugares, porque não me sentia bem”, comenta a estudante, que na época tinha 18 anos.

Ilyaliren/Getty Images

Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, entre os anos de 2012 a 2016, o risco de um jovem negro até 29 anos se suicidar aumentou 12%, enquanto que de pessoas brancas manteve-se estável. A pesquisa ainda revela que, em 2016, a cada 10 suicídios cometidos por adolescentes e jovens brasileiros, 6 foram realizados por negros. O ato de tirar a própria a vida, na maioria dos casos, é praticado por pessoas que têm transtornos mentais, como depressão. De acordo com Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão atinge 322 milhões de pessoas no mundo, sendo 11,5 milhões só no Brasil. Os fatores que levam ao aparecimento da doença são múltiplos. Eles podem ir de características biológicos – como a baixa da serotonina, hormônio responsável pela alegria e prazer – até questões sociais, econômicas e ambientais.

É impossível (e imprudente) definir um padrão para as pessoas que cometem suicídio, já que ele pode atingir qualquer indivíduo. Porém, alguns grupos estão mais vulneráveis à depressão e consequentemente ao suicídio. De acordo com a pesquisa do Ministério da Saúde, na lista de mais afetados estão os jovens negros, junto com os adolescentes, a população indígena, entre outros. No caso dos afrodescentes, o racismo é o principal culpado pelo abalo no bem-estar dessas pessoas. Inclusive, segundo a OMS, estar saudável vai além de não ter doença, mas sim de sentir um bem-estar completo, ou seja, físico, emocional e social.

 

Julia* se descobriu negra na faculdade, lugar que chegou a duvidar se realmente merecia ser ocupado por ela. Antes mesmo de reconhecer sua etnia, ela já sofria com a crueldade do racismo. “A questão de ser mulher negra influencia muito, porque já tem a baixa autoestima e parece que as pessoas tentam te rebaixar a todo momento. E não é algo explicito, você só sente que as pessoas estão fazendo isso. Nos relacionamentos também era horrível, porque sempre associava crushes malsucedidos ao fato de eu não ser uma ‘garota padrão’. Por mais que ame minha cor, meu cabelo, tem vezes que me sinto mal por ser preterida“, disse a jovem.

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A psicóloga e representante do núcleo temático de psicologia e relações raciais do Conselho Regional de São Paulo Mariana Luz explica como esse combo “adolescência + questões raciais” interfere na saúde mental dos jovens afrodescentes. “Em um momento delicado e cheio de descoberta, como na juventude, o racismo gera essa sensação de não pertencimento. Então, por conta do cabelo e do tom da pele, por exemplo, a pessoa não se enxerga em certos grupos. E o se encaixar em algo é muito importante. O racismo causa um desequilíbrio em todos os aspectos da pessoa“, comenta a profissional.

No filme “Preciosa: Uma História de Esperança”, dentre as muitas coisas que Claireece precisa lidar, está o racismo e o preconceito por ser negra e gorda. Reprodução/Reprodução

No caso de Julia*, os sintomas da depressão foram notados pelo seu namorado da época, que era estudante de Psicologia, e incentivou a estudante a procurar um profissional. Entretanto, nem sempre as pessoas que estão ao redor vão conseguir perceber que as coisas não estão normais. Por isso, a psicóloga Mariana também reforça a importância de buscar a conversa, tanto de quem passa pela depressão como de quem desconfia que um amigo, familiar ou conhecido tenha. “O ser humano nasceu para se relacionar. Falar e não aguentar tudo sozinho são coisas importantes para se manter saudável mentalmente. Se a pessoa não conseguiu falar com a família, ela precisa encontrar alguém para conversar”, explica Mari.

O tratamento para a depressão e outros transtornos mentais devem ser prescritos sempre por um profissional, mas algumas coisas, como exercício físico e ouvir música, não têm contraindicação. Além da terapia, começar a jogar rugby e fazer novas amizades no coletivo negro da faculdade foram saídas essenciais para Julia abstrair os pensamentos negativos e a sensação de angústia. “Sei que posso contar com meus amigos negros, que passam exatamente a mesma coisa que eu. Já no rugby, quando eu treino, fico bem, minha autoestima melhora e também não penso em coisas ruins durante os jogos”, comemora Julia*.

É importante lembrar que ter depressão não é uma escolha, não é frescura nem falta de fé. Por isso, do mesmo jeito que vamos ao médico quando temos uma doença física, também precisamos de acompanhamento profissional para cuidar de transtornos mentais. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece esse apoio emocional e prevenção ao suicídio por telefone – é só ligar para o número 188 –, e-mail e chat 24h. O serviço é totalmente anônimo e gratuito. Outra forma de buscar ajuda sem pagar nada é pelo atendimento oferecido nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que estão espalhadas em todas as cidades do Brasil.

Para quem prefere ser atendido por um profissional afrodescente, seja psicólogo, terapeuta ou psiquiatra, o grupo no Facebook “Afro Terapeutas” é uma boa fonte de pesquisa, já que tem contatos de várias partes do país. Independente da etnia, todos os profissionais estão preparados para atender. Porém, quando o racismo é um dos gatilhos, faz diferença ter alguém que saiba (e sinta) exatamente o que você está falando. Ah, vale lembrar que para fazer acompanhamento com psicólogo ou terapeuta não precisa necessariamente ter algum transtorno emocional, viu? A experiência também serve como uma aliada no processo de autoconhecimento, na maneira como nos relacionamos com os outros e até na saída para problemas que aparentemente nem têm solução.

Se você já passou por esse tipo de situação, seja ao tentar ajudar alguém ou consigo mesmo, fique à vontade para compartilhar experiências e até conselhos nos comentários, no e-mail anacarolipa16@gmail.com ou no Direct do Instagram. Sugestões de outros tipos de temas para conversarmos aqui na coluna, O Nosso Lado da História, também são sempre bem-vindas!

Beijo,
@anacarolipa

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