‘Ser negro’ não é fantasia de Carnaval

Não existe fantasia quando o assunto é a cultura de um povo.

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 10 fev 2018, 15h05 - Publicado em 10 fev 2018, 10h04

Os bloquinhos já estão lotando a nossa programação de Carnaval, mas, antes de escolher o body maravilhoso, separar o glitter e marcar o ponto de encontro com a galera, vamos falar de alguns assuntos bem importantes que, vira e mexe, surgem nessa época do ano: fantasias, apropriação cultural e desrespeito.

Reprodução/Reprodução

Na noite de 1º de fevereiro, um famoso baile carnavalesco movimentou as redes sociais com os looks das celebridades. O tema da festa, “Divino, maravilhoso”, sugeria que os convidados fossem com trajes que exaltassem a cultura e as tradições brasileiras. Ou seja, o que o nosso BR tem de melhor.

A YouTuber Tata Estaniecki acabou indo parar nos Trending Topics do Twitter por um motivo nada legal. Ela escolheu usar um vestido preto com um adereço de cabeça bem parecido com uma máscara de Flandres, item usado pelos negros escravizados no Brasil. A máscara, que era feita de aço, impedia que os negros lavassem à boca terra, comida e bebida.

Pelo Instagram, uma seguidora pediu para Tata explicar o tema da fantasia e a YouTuber respondeu que era “em homenagem aos escravos”. Depois de diversos comentários questionando o look, Tata explicou pelos Stories que ela tinha se equivocado e que, na verdade, a roupa tinha sido inspirada nas melindrosas dos anos 20. De acordo com Estaniecki, além da falta de comunicação com o estilista, ela havia sido interpretada de maneira errada. A homenagem ao qual ela se referia era a luta dos escravos e não a escravidão em si. Ruim do mesmo jeito, né?

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Infelizmente, esse caso não foi o primeiro nem será o último. Também no mesmo baile, um ricaço decidiu fazer black face para ~homenagear~ os funkeiros brasileiros. Situações desse tipo só refletem a falta de sensibilidade e bom senso de uma parte da sociedade. Que casos como esse, pelo menos, estimulem a busca de informação e a empatia por tais questões. È aquela velha história de tentar se colocar no lugar do outro, sabe? Não faz mal nem dói. Muito pelo contrário!

O black face é um claro exemplo de representação racista. Nos Estados Unidos, a prática começou quando atores brancos passaram a escurecer a pele usando tinta marrom ou preta para representar negros de forma bem exagerada e até mesmo caricata. Além de tirar sarro de um povo, eles ~roubaram~ os papéis que podiam ser interpretados por negros. A mesma coisa acontece com a personagem “nega maluca”, que reforça os estereótipos da mulher negra de um modo preconceituoso. Não é homenagem, não é zoeira, não é fantasia.

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Campanha idealizada por alunos da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, cujo lema é: ‘nós somos uma cultura, não uma fantasia’. Reprodução/Reprodução

Com tantas opções lindas e criativas, para que se apropriar da cultura de alguém e usar algo que ofenda todo um povo? Pense nisso.

Beijos,
@anacarolipa

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