Salles alega falta de verba pra “salvar a Amazônia”, mas só usou 0,4% dela

Ricardo Salles, ministro do Meio-Ambiente, pediu dinheiro para o Ministério da Economia para evitar a paralisação de ações contra o desmatamento

Por Isabella Otto - Atualizado em 13 set 2020, 10h57 - Publicado em 11 set 2020, 10h07

Na última quinta-feira (10/9), o ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, ficou ofendido com uma postagem que o ator Leonardo DiCaprio fez no Twitter sobre a Amazônia e perguntou se o artista não queria ajudar o país doando dinheiro. Vale lembrar que, em 2019, o americano já enviou R$ 20 milhões para ajudar a floresta tropical. No final do dia, foi a vez de Salles solicitar a liberação de R$ 134 milhões para Paulo Guedes, ministro da Economia, porque, segundo ele, faltam verbas para o combate dos incêndios na Amazônia e no Pantanal.

O ministro na 4ª Assembleia das Nações Unidas para o Meio-Ambiente, no Quênia, em março Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images

Salles alegou que a pasta do Meio-Ambiente não tem saldo e que, se o limite financeiro não for recomposto, pode rolar a paralisação de ações contra o desmatamento, a fiscalização e a gestão de unidades de conservação, especialmente na Amazônia. “Essa situação, a falta de limite de pagamento, exporá este Ministério durante o período de maior incidência de queimadas, que vai dos meses de agosto a outubro, ou seja, na fase que demanda uma maior necessidade de limite financeiro para operacionalizar as ações de prevenção e combate aos incêndios florestais”, completou em nota.

A questão é que, de acordo com levantamento realizado pelo Observatório do Clima, levando em conta apenas a pasta do Ministério do Meio-Ambiente, Ricardo Salles gastou somente 0,4% dos recursos livres disponibilizados pelo governo. Ou seja, dos R$ 26,6 milhões autorizados, ele usou R$ 105 mil até o final de agosto. Para pesquisadores da rede Observatório do Clima, a intenção de Salles e do governo Bolsonaro é apenas uma: paralisar a agenda ambiental do Brasil em âmbito internacional usando a crise econômica causada pela pandemia de coronavírus como “cortina de fumaça”, na voz do próprio Salles.

 

Desconexo, apesar de pedir dinheiro para a contenção dos incêndios na Amazônia, Ricardo Salles continua dizendo que a floresta não está queimando mais do que o esperado. Também na última quinta, 10, o ministro compartilhou nas redes um vídeo falando que a floresta está bem. Nas imagens, contudo, aparece um mico-leão-dourado, primata endêmico do Brasil e espécie exclusiva da Mata Atlântica.

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“Elas [as criadoras do vídeo, da associação Acripará] acabaram cometendo uma gafe, usaram uma imagem de arquivo da produtora que fez o vídeo, que foi a imagem do mico-leão-dourado. Mas entendemos que o mais importante é a mensagem que ele passa. (…) A intenção era só circular pelas redes sociais, acho que ninguém enviou para o ministro, ele deve ter pego, muitas pessoas pegaram nas redes sociais e foram divulgando“, justificou Maurício Fraga Filho, presidente da Associação dos Criadores do Estado do Pará.

No Twitter, Salles também tentou justificar a fake news compartilhada em uma tentativa frustrada de sair por cima. “Lamento o vídeo contendo o mico-leão na Amazônia, embora realmente ela não esteja queimando como dizem. Da próxima vez, vou antes consultar o mesmo compliance [termo corporativo para designar um grupo que, basicamente, fiscaliza regras] que atuou nas fotos e matérias fake do suposto panelaço!”, escreveu, o que configura mais um ataque do governo Bolsonaro à imprensa brasileira.

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