Pode até não parecer, mas estas 10 frases transbordam transfobia

Odara Soares, um dos nomes do ativismo trans brasileiro, explica por que você não deve reproduzir nunca mais essas falas no dia a dia

Por Isabella Otto Atualizado em 29 jan 2022, 11h06 - Publicado em 29 jan 2022, 10h02

A transfobia é caracterizada por toda forma de discriminação ou violência específica contra pessoas trans, seja ela moral, verbal ou psicológica. As pessoas que cometem essas violências, de forma velada ou explícita, são chamadas de transfóbicas. Tendo ciência disso, mentalize bem a frase a seguir: “Não precisa ser trans para lutar contra a transfobia”. Afinal, direito de pessoas trans são direitos humanos, certo?

Conversamos com a Odara Soares*, ativista do movimento trans no Brasil, para te ajuda a identificar frases que podem ainda ser ditas no dia a dia e são extremamente carregadas de transfobia. Às vezes, as reproduzimos porque falamos coisas sem pensar ou porque ouvimos aquilo em algum lugar. Mas nunca é tarde demais para aprender e se tornar uma pessoa melhor, desconstruindo o que precisa mudar, olhando para o outro com empatia e nunca mais cometendo erros do passado.

Foto da ativista Odara Soares. Ela tem o cabelo comprido, castanho, usa franja e usa uma make retrô
Esta é a Odara. Já conhecia? Odara Soares/Instagram

1. “Maior traveco/trap

O sufixo “eco” dá o sentido de inferioridade, por exemplo: jaleco, carcareco, etc. Logo, tratar uma pessoa assim é, no mínimo, desumano. Trap significa armadilha em inglês e é um termo muito utilizado no mundo gamer. “É só mais uma forma ~bonitinha~ de nos violentar e nos deslegitimar, como se nós, pessoas trans, dedicássemos nossas vidas à enganar as pessoas por aí por algum motivo. Armadilha é quem é babaca, mas não parece ser, não é mesmo? Ser trans não é brincadeira nem engraçado”, pontua Odara.

2. “Você parece mulher/homem de verdade”

Pessoas trans são de verdade, são legítimas e não são caricaturas. “Essa lógica de que somos de mentira ou de que somos menos homens ou mulheres é  extremamente preconceituosa e transfóbica”, alerta.

3. “Mas qual é seu nome verdadeiro?”

O nome de batismo de pessoas trans é chamado de “nome morto” por um motivo: ele não existe mais e deve evitar a ser lembrado. “Reviver esses nomes e/ou o gênero de nascimento são violências simbólicas, e acabam interferindo negativamente na vida das pessoas trans, além de reforçar lembranças que são extremamente inconvenientes e desnecessárias”, explica a ativista.

4. “Você é operada?”

Você não sai por aí fazendo esse tipo de pergunta como quem diz: “Oi, tudo bem?”. É extremamente invasivo! E que diferença isso vai fazer na sua vida, né? A não ser que você seja parceira(o) dessa pessoa, não precisa saber, por mais curiosidade que exista.

5. “Não sabia que você era trans! Nem parece…”

Não parecer trans não é termômetro de beleza dos nossos corpos ou elogio. Entendemos que parecer trans não é demérito, pessoas trans são pessoas lindas com suas particularidades e está tudo bem. Então, dizer que uma pessoa trans é bonita por não parecer trans é ofensivo, porque, mesmo que suas intenções tenham sido as melhores do mundo, aquele alguém sempre será trans”, esclarece Odara.

6. “Quase me enganou, hein?”

“Amore, ninguém quer te enganar! Pessoas trans são como elas se identificam, e precisamos respeita-las assim. Esse tipo de frase faz parecer que pessoas trans dedicam suas vidas a enganar os outros, o que não é verdade”, diz.

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7. “Ser trans agora é moda, né?”

Se não tiver nada de bom para falar, melhor não falar nada. Até porque um assunto, quando está finalmente sendo minimamente abordado, não significa que seja modinha. “Pessoas trans existem desde que o mundo é mundo, e foram e são muito negligenciadas pela sociedade. Qualquer resquício de visibilidade e respeito é muito importante! Cuidado para não desmerecer ou banalizar uma luta tão árdua. Já se perguntou o quão difícil deve ser lutar por sobrevivência e respeito todos os segundos de sua vida? Tendo que se impor para não ser morta? Pois é… Pessoas trans merecem dignidade e respeito!”, branda Odara.

8. “Morte ao pênis!”

Milhares de mulheres trans e travestis morrem todos os dias ao redor do mundo, e principalmente no Brasil [líder no ranking de violência e assassinato de pessoas trans do planeta], justamente por serem mulheres e terem um pênis. “Existem corpos que você nem imagina, como mulheres com pênis e homens com vagina. Esbravejar ditados como esse reforça essas violências contra corpos de mulheres trans e travestis, já tão negligenciadas socialmente e  vulnerabilizados, pois o homem cis heterossexual (quem seria o foco do brado feminista) nem se abala lá do topo de seus privilégios. É a gente quem segue morrendo!“, lamenta.

Ilustração de várias pessoas diferentes e seus respectivos pronomes
Nadia Bormotova/Getty Images

9. “O travesti”

Mulheres trans e travestis são identidades femininas [portanto, “a” travesti], e isso deveria bastar para que fossem respeitarem como tais. Logo, Tratar pessoas trans no gênero de nascimento é transfobia pura!

10. “É tudo gay”

Ser gay não é nenhum demérito, mas precisamos aprender a entender e diferenciar sem preguiça, pra não jogar todo mundo no mesmo grupo. Precisamos entender que gay não é a palavrinha que engloba todo mundo da comunidade LGBTQIA+. Ela, na verdade, representa pessoas homoafetivas, apagando consequentemente todas as outras identidades e orientações sexuais dentro da comunidade (tão importante e maravilhosas quanto). Então, bora para a aulinha com a Odara? “Gênero é como a pessoa se identifica [homem/mulher/nenhum dos dois ou ambos] e orientação sexual é gosto, preferência [hétero/homo/bi/etc]. A orientação sexual de uma pessoa trans não está alinhada com a sua identidade de gênero. Não é porque ela, a travesti ou mulher trans, se identifica como mulher, que precisa necessariamente gostar de homens, assim como ele, o homem trans que se identifica como homem, não precisa necessariamente se relacionar com mulheres. Essas pessoas podem ser hétero, homo ou bi, percebem?”.

COMO FAZER A DIFERENÇA ALÉM DO DISCURSO

Ofereça oportunidades! Ajude as pessoas trans a fugir da marginalidade imposta e do estigma, oferecendo um trabalho, se tiver a possibilidade, indicando essa pessoa para vagas ou até mesmo consumindo o conteúdo de criadores de conteúdo que abordam o tema. Outra maneira é compartilhando matérias e notícias informativas sobre o assunto (como esta que você está lendo, por exemplo). Posicionar-se também é fundamental! Sempre que uma pessoa trans for violentada ou se sentir desconfortável em alguma situação, é muito importante que você, dentro das suas possibilidades, demonstre indignação e acolhimento naquele momento. Afinal, se você não se posiciona contra, você está indiretamente contribuindo para que aquela violência continue acontecendo.

 

*Com looks icônicos, Odara Soares é ativista do movimento trans no Brasil, além de criadora de conteúdo. No Instagram, ela fala sobre a importância da representavidade, das vivêcias e do empoderamento. Princess da Kiki House of Shaskya (casa/família de acolhimento que treina LGBTQIA+ para performar e batalhar categoricamente nos bailes BALLROOM, é membro também de uma house Mainstream House of Oricci [a casa se apresenta na série “Legendary Max”, da HBO].

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