O racismo internalizado que fez da natação um “esporte de branco”

De piscinas proibidas para negros a toucas que não foram pensadas para cabelos afro: natação é esporte de elite e inclusão continua sendo sabotada

Por Isabella Otto Atualizado em 27 jul 2021, 16h00 - Publicado em 27 jul 2021, 15h38
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CAPRICHO/Divulgação

Bora começar com um exercício rápido: pense em alguns nadadores brasileiros. Pensou? A maioria dos nomes foi de homens brancos, certo? César Cielo, Fernando Scherer, Gustavo Borges, Thiago Pereira… Talvez em algum momento você tenha pensado na Joanna Maranhão?! Não se culpe. Acontece que, em 100 anos de Brasil nas Olimpíadas, 94% dos atletas que representaram o país no esporte aquático eram brancos. Logo, apenas 6% eram negros. Dentre os nomes, Edvaldo Valério é a exceção, que conseguiu, nos anos 2000, subir ao pódio e trazer uma medalha de bronze para casa no revezamento 4×100 livre, nos Jogos Olímpicos de Sydney. “Quando eu ia competir, o atleta branco me olhava de cima abaixo. Aquilo me intimidava, me deixava acuado, e eu tinha medo. Ou seja, quando o atleta fazia isso comigo de me olhar de cima abaixo ele já ganhava a prova pra mim ali“, disse o nadador em entrevista ao Globo Esporte em 2020. Para ele e outros atletas da natação, o racismo estrutural é a resposta para esse cenário.

Em 1896, em Atenas, foi realizada a edição de estreia das Olimpíadas da Era Moderna. A primeira disputa oficial da natação aconteceu em 1958, nos jogos sediados na Austrália, mas foi só em 1976 que uma nadadora negra ganhou uma medalha olímpica [de bronze, em Montreal]: Enith Brigitha. O feito foi repetido por uma mulher negra apenas 40 anos depois, no Rio de Janeiro, em 2016, por Simone Manuel. Não por falta de talento, mas por falta de oportunidade.

Homem branco joga ácido em pessoas negras que nadavam na piscina do seu hotel durante regime segregacionista nos EUA
Jimmy Brock jogando ácido nos ativistas Len Murray/Indican Pictures/Reprodução

Nos Estados Unidos, durante o período da segregação racial, as piscinas eram locais proibidos para negros, que tinham seus próprios espaços de banho. Eles não podiam se misturar com os brancos. Em 1964, mais precisamente no dia 18 de junho, ativistas brancos e negros invadiram o Hotel Monson, em Saint Augustine, após Martin Luther King ter sido preso no local por frequentar um restaurante que não permitia a presença de pessoas pretas. Como forma de protesto, os manifestantes pularam na piscina, mais um local exclusivo para pessoas brancas. Ao perceber o que estava ocorrendo, Jimmy Brock, o dono do hotel, jogou ácido clorídrico nos ativistas. No dia seguinte, a Lei dos Direitos Civis foi aprovada pelo Senado, decretando o fim do regime de segregação racial nos EUA. Contudo, ainda hoje, ele dá frutos podres. Em 2012, por exemplo, uma moradora de Cincinnati colocou uma placa na piscina pública do prédio dizendo que ela era apenas para pessoas brancas. Jamie Hein tentou justificar sua atrocidade dizendo que uma criança negra nadava no local e poluía a água com seus produtos de cabelo, deixando-a turva. O cabelo da garotinha foi taxado de “sujo” simplesmente por ser afro.

Uma placa com os dizeres:
Placa colocada pela moradora Jamie Hein CNN/Reprodução

Por falar em cabelos, talvez você nunca tenha se dado conta disso, mas as toucas de natação são projetadas para brancos – e é mais um dos obstáculos que os nadadores pretos precisam enfrentar, cujas raízes também brotam no racismo internalizado. Em 2017, Michael Chapman e Toks Ahmed-Salawudeen criaram no Reino Unido uma touca de natação chamada Soul Cap, que acomoda melhor cabelos afro, com tranças e black power. Ambos sentiram necessidade de desenvolver uma peça do tipo ao não se ajustarem com as toucas convencionais vendidas no mercado. Apesar de ser feita de silicone, como a maioria dos acessórios já existentes, ela foi banida de Tóquio 2020 pela FINA (Federação Internacional de Natação). A explicação dada foi a de que “a touca é inadequada” porque não segue “a forma natural da cabeça”. Técnicos e nadadores ficaram tristes com a decisão, mas não surpresos. Para muitos, como para o técnico norte-americano Tony Cronin, de 22 anos, o posicionamento da FINA mostra ignorância, conforme relato dado para a BBC.

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    Vanessa Davis, de 23 anos, também contou à BBC que parou de praticar natação porque a touca convencional vendida nas lojas não funcionava para ela. “As toucas eram sempre muito pequenas e nunca protegiam meu cabelo, que sempre ficava molhado, bagunçado, e o cloro demorava uma eternidade para sair – especialmente se eu tivesse tranças. A certa altura, eu fiquei farta daquilo”, disse a atleta amadora. Mais uma vez, a falta de representatividade resultou numa incultura coletiva daqueles que estão confortáveis dentro de suas bolhas. A proibição da Soul Cap é bastante simbólica, pois evidencia mais uma situação em que os negros precisam se adequar a um sistema segregacionista, como se eles fossem errados ou desajustados – e não o contrário.

    O medalhista olímpico Edvaldo Valério disse ainda que, por diversas vezes, escutou que os negros têm corpos que não servem para a natação. “Eu ouvi isso minha carreira toda. De que o negro tinha o osso mais pesado o que dificultaria o deslocamento dele na água. Eu cresci tendo essa referência mesmo, de que o negro não tinha o biotipo específico para natação”, contou em entrevista ao Globo Esporte. Não é de hoje que fake news se alimentam da ignorância daqueles dotados de racismos e preconceitos.

    Foto de Etiene Medeiros nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Ele veste maiô e touca pretos, e faz sinal de silêncio com o dedo indicador sobre a boca
    Etiene Medeiros nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016 Andrea Staccioli/Getty Images

    Nas Olimpíadas de Tóquio de 2020, a equipe de natação do Brasil é composta por 26 pessoas: 16 homens e 10 mulheres. Entre elas, Etiene Medeiros, primeira mulher a conquistar uma medalha de ouro no Campeonato Mundial de Natação, em 2017. Em depoimento dado ao jornalista Paulo Roberto Conde, para o especial Na Pele, do Globo Esporte, a atleta relembrou alguns episódios de racismo vividos no esporte aquático: “Eu não vi um técnico negro, não via um auxiliar negro. Os negros que a gente via eram o piscineiro, que cuidava da piscina, ou a moça terceirizada que limpava o banheiro. Por termos poucos atletas negras, vivemos cedo esse contato do preconceito. No meu caso, meu primeiro contato foi com o cabelo. Por várias vezes eu escutava que tinha ‘cabelo pixaim’, ‘cabelo de bombril’, ou então ouvia uma ordem como ‘prende esse cabelo, menina’ ou um insulto na linha do ‘teu cabelo é feio’. A natação é um esporte de elite. Caro e pouco acessível. Muito diferente do atletismo, onde você vai lá e corre – a maioria dos atletas vem da periferia, porque o atletismo dá mais acesso. Você põe um tênis e corre. Na natação, não. Onde você arruma uma piscina? Para se comprar uma touca, é R$ 50. Um óculos é R$ 100. Quantas pessoas têm condição de pagar isso? Eu tenho certeza de que o negro médio, infelizmente, não tem. O poder aquisitivo é baixo. A inclusão dos negros na natação inexiste“.

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