Jucielen Romeu faz história no Pan: “sou mulher, negra e luto boxe”

Após vitória, a atleta precisou se pronunciar sobre uma polêmica envolvendo ela, seu técnico e um jornalista, que relatou cesura por parte do treinador.

Por Isabella Otto Atualizado em 7 ago 2019, 11h48 - Publicado em 7 ago 2019, 11h47

A boxeadora Jucielen Cerqueira Romeu levou a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, e com isso se tornou a brasileira a conquistar o melhor resultado até então no torneio. Após a vitória, a atleta concedeu algumas entrevistas e um repórter disse que Mateus Alves, técnico da Seleção Brasileira, deu uma resposta atravessa quando questionou Jucielen sobre temas como racismo e empoderamento feminino: “ela não pode falar disso. Está proibida. A seleção não é lugar para falar dessas coisas. Ela não pode falar desse tipo de coisa. Não pode falar de política”.

Reprodução/Reprodução

Mais uma vez, de acordo com a reportagem do UOL, o esporte no geral foi colocado em um patamar em que não é possível discutir coisas que deveriam, sim, ser discutidas em todo e qualquer lugar que faça sentido. Como atleta de um esporte ainda bastante masculinizado e negra, Jucielen tinha espaço para isso. E foi o que ela fez após ver que a notícia viralizou.

No Facebook, a medalhista se pronunciou sobre o caso e disse que, na verdade, a abordagem do jornalista foi bastante tendenciosa. “Sou mulher, sou negra, sou da periferia do interior do Brasil e luto boxe. Isso por si já diz muito sobre mim, mais do que qualquer declaração dita“, disse. Ela ainda defendeu o treinador: “tendo em vista o atual cenário político brasileiro que se encontra altamente polarizado, posso considerar agora que foi uma pergunta pretensiosa e tendenciosa, que me colocou em uma situação muito desconfortável. Qualquer que fosse minha resposta eu tenho certeza que eu sofreria consequências negativas”.

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    A boxeadora ainda questionou a atitude do repórter: “depois do ocorrido, o jornalista não me procurou para me perguntar se eu me senti censurada. Não perguntou se eu concordava com a visão dele sobre o fato. Se ele tivesse me procurado, minha resposta seria que confio no meu treinador e me sinto bem com nossa relação profissional. Mas ao invés de tentar esclarecer os fatos, ele preferiu usar minha imagem para seu próprio benefício, divulgando inverdades e me expondo de maneira inconveniente. Não queria estar falando sobre isso, mas sim sobre minha conquista, a mais importante da minha longa trajetória”.

    Vale destacar que toda história tem mais de um lado e o Comitê Olímpico do Brasil, quando procurado pelo UOL, negou que censure seus atletas. Também não dá para saber se Jucielen Cerqueira escreveu sozinha toda a nota de esclarecimento ou sua equipe a ajudou. A aspa do treinador, dizendo que a moça estava “proibida de falar”, também não foi das melhores. Fica a lição: questionar é sempre preciso. 😉

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