Empresa dá bônus em dinheiro para funcionárias que usam roupas curtas

"Queríamos alegrar nossos dias de trabalho", justificou porta-voz da empresa russa sobre a tal "Maratona da Feminilidade".

Por Isabella Otto 1 jun 2019, 10h03

Uma empresa de alumínio russa chamada Tatprof anunciou uma campanha chamada “Maratona da Feminilidade”. Até o dia 30 de junho, as funcionárias que forem trabalhar usando roupas curtas vão receber uma bonificação em dinheiro.

Parte do cartaz de divulgação da maratona interna. Reprodução/Reprodução

Um valor de 100 rublos (algo em torno de R$ 6) será acrescentado ao salário da mulher que vestir uma saia ou um vestido que termine a menos de cinco centímetros do joelho, conforme relata reportagem da BBC.

Mas o absurdo não para por aí! Para receber o bônus, a mulher precisa enviar uma foto do seu look para os diretores da companhia, para que eles se certifiquem de que todas as regras foram seguidas. “Nossa equipe é 70% masculina. Esse tipo de campanha nos ajuda a desligar do trabalho, a descansar(…) Queríamos alegrar nossos dias de trabalho“, revelou um porta-voz à rádio Govorit Moskva.

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    Algumas funcionárias aderiram à campanha, e a Tatprof inclusive disse que muitas se divertiram com a maratona. Contudo, a empresa russa recebeu muitas críticas nas redes sociais. Para tentar suavizar o quadro, um porta-voz justificou a “diversão” como se fosse algo bom para a própria mulher – e não uma iniciativa machista que estimula a cultura do estupro e coloca as mulheres, mais uma vez, como objetos sexuais. “Muitas mulheres usam automaticamente calças para trabalhar, e é por isso que esperamos que nossa campanha aumente a consciência de nossas mulheres, permitindo que elas sintam sua feminilidade e charme”, foi dito.

    Acha que a coisa não pode se tornar ainda mais sexista? Essas tais “maratonas da feminilidade” são comuns na companhia, que, no começo do ano, realizou uma competição entre as funcionárias para ver quem preparava um bolo mais depressa. De novo, como manda a sociedade patriarcal, o sexo feminino foi diretamente associado à cozinha e a tarefas domésticas. Mas, poxa, a Tatprof só está tentando fazer as mulheres redescobrirem sua feminilidade, sabe?

    Uma das propagandas da companhia russa. Reprodução/Reprodução

    Segundo Anastasia Kirillova, que trabalha na companhia, as ideias vêm sempre do CEO Sergei Rachkov. “Ele realmente quer manter a essência feminina em todas as funcionárias da empresa, para que as jovens não tenham cortes de cabelo masculinos, não usem em calças, se dediquem ao artesanato e projetem todo o seu carinho para criar os filhos”, disse, sem parecer muito incomodada com todos esses posicionamentos.

    Talvez o maior desafio não seja os diretores, curiosamente todos do sexo masculino, entenderem o quão sexista pode ser toda essa história de maratona, mas tentar fazer as mulheres perceberem o quão problemático é oferecer dinheiro para uma funcionária que deveria receber bonificações por seu mérito profissional, não pelas roupas que usa ou deixa de usar. Mas e se a mulher se sentir confortável nessa situação? É um debate que, definitivamente, dá pano pra manga. E pra uma comprida! Desculpa, Tatprof, não queremos seus rublos…

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