Caso Robinho reforça padrões de fala dos “homens ameaçados pelo feminismo”

Homens como o Robinho, que lamentam a existência do feminismo, configuram a real ameaça à sociedade, não o movimento feminista em si

Por Isabella Otto 19 out 2020, 12h47

Já reparou como a maioria dos homens que se diz ameaçada pelo movimento feminista configura, na realidade, a própria ameaça à sociedade? Na tentativa de se eximir de alguma culpa, eles a transferem para o feminismo, como se a luta das mulheres fosse a culpada por incriminá-los por atos que por séculos foram permitidos por uma sociedade patriarcal, que os próprios homens moldaram e até hoje continuam a reforçar tais padrões sociais machistas, que não mais são aceitos. Se a desconstrução é um caminho a ser percorrido, o primeiro passo é entender que o feminismo anseia por igualdade de gênero, justiça e libertação, e que a culpa por um abuso sexual é sempre do abusador, não da vítima ou de um movimento.

Na última semana, foi praticamente impossível sair ilesa a notícias envolvendo o jogador de futebol Robinho e sua até então contratação pelo Santos Futebol Clube, que foi suspensa em comum acordo, “para que o jogador possa se concentrar exclusivamente na sua defesa no processo que corre na Itália”, segundo nota liberada à Imprensa pelo clube. Robinho, ou melhor dizendo, Robson de Souza, foi condenado em 1ª instância na Itália por um suposto crime de violência sexual contra uma mulher embriagada. A condenação a nove anos de prisão veio em 2017 e a defesa do atacante está recorrendo. “Confiamos plenamente na Justiça italiana, no sucesso do recurso defensivo e na reforma da decisão”, emitiram em nota os advogados, que alegam que houve um “equívoco de interpretação” nas conversas interceptadas traduzidas do português brasileiro para o italiano.

De acordo com o jornal Corriere dello Sport, o crime teria ocorrido em Milão em 2013, em uma noite em que Robinho teria saído com os amigos e sua esposa. Em entrevista recente para o UOL Esporte, o jogador confirmou que traiu a mulher nessa noite, após ela ir para casa antes dele, mas que não abusou sexualmente de ninguém. A defesa do atleta ainda usa no caso o exemplo do que aconteceu em 2009, em Leeds, quando o atleta atuava pelo Manchester City. Robinho foi acusado de estupro por uma jovem, que foi condenada pela Justiça por ter mentido sobre o ocorrido. “Ele foi acusado de forma leviana e mentirosa, sendo que, após investigação policial [concluída], foi comprovada sua inocência(…) Apesar de revoltado, Robinho está muito bem amparado pela família e por Deus”, disse a defesa do brasileiro em nota emitida em 2014.

Os padrões de fala

Ainda em entrevista para o UOL Esporte, Robinho disse que pode falar por ele, não pelos amigos, e que está frustrado, pois é inocente. Um aspa da reportagem acabou viralizando nas redes sociais. “Infelizmente, existe o movimento feminista e muitas mulheres não são nem mulheres, para falar o português claro”, disse o atacante. A fala reproduz um padrão de comportamento dos homens que se dizem ameaçados pelo movimento feminista, como explicamos no início desta matéria. Além disso, Robinho reproduz outra máxima usada por homens que respondem na Justiça por crimes de violência contra a mulher: a justificativa de que não fariam nada contra alguém do sexo feminino por terem exemplos de mulheres fortes dentro de casa. “Eu tenho três mulheres na minha casa, então eu nunca faltei com respeito com nenhuma mulher”, falou ao jornalista do UOL. Em um contexto diferente, essa é uma desculpa bastante parecida com aquela usada por cidadãos que respondem por crimes de racismo: “Não sou racista, inclusive tenho amigos negros”. Uma coisa meio: “Não sou abusador, inclusive, tenho mãe”.

Outra aspa que merece ser analisada é a seguinte: “A gente teve relação entre homem e mulher, de ela me tocar, eu tocar nela, mas não chegou a ter nenhuma relação, nenhuma penetração”, falou Robinho para o UOL Esporte. O jornalista chegou a citar uma declaração que consta no processo, que diz que o jogador teria dito que “pênis na boca não configura ato sexual”, mas o atleta falou que não se lembra de ter tido ou não isso em algum momento. Aqui, é importantíssimo frisar que sexo oral também é sexo, por mais que algumas pessoas encarem o oral como uma preliminar – e realmente pode vir a ser -, ele já configura sexo. Acontece uma confusão com a questão da virgindade. Para algumas pessoas, só se deixa de ser virgem quando ocorre a penetração, e isso é uma questão de entendimento pessoal mesmo. Contudo, sexo oral, assim como o anal, assim como o sexo com penetração vaginal, é sexo.

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Outra questão é com relação ao crime de estupro. Qualquer ato sexual que seja cometido contra uma mulher sem o consentimento dela configura estupro. Tirar a camisinha no meio da transa sem a mulher saber? Estupro. Forçar uma relação com a esposa sem ela querer? Estupro. Masturbar uma mulher que apresenta alguma condição de vulnerabilidade? Estupro. Fazer sexo forçado mesmo que, no início, ele tenha sido consensual? Estupro.

“Me usaram de bode expiatório”

Em determinado momento da exclusiva para o UOL, Robinho disse que o usaram de bode expiatório e que, no Brasil, as notícias negativas são sempre priorizadas. Ele chega a dizer inclusive que se esqueceram do coronavírus para focar nele. “Eu me arrependo de ter traído a minha esposa(…) O erro que eu cometi foi não ter sido fiel a minha esposa, eu não cometi o crime de ter estuprado alguém”, declarou.

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    O atacante, quando questionado sobre a suposta vítima estar ou não embriagada no momento em que ela diz que a violência ocorreu, garantiu que ele nunca ofereceu bebida alcoólica a ela nem a outra mulher, e que é “engraçado que ela lembra de algumas coisas e de outras ela não lembra”, se referindo ao fato de a moça ter dito em depoimento à polícia que estava embriagada quando foi violentada, mas que se lembra do abuso. Para tal levantamento, temos uma possível resposta científica – possível, pois o cérebro ainda é um grande mistério para a medicina.

    Há dois tipos de receptores de GABA (Ácido gama-aminobutírico) no cérebro, sendo um deles conhecido como receptor sináptico de GABA, que programa o órgão para dar respostas a eventos externos, sejam eles estressantes ou não. Cientistas da Universidade Northwestern descobriram que algumas memórias traumáticas podem se esconder no cérebro por ação dos receptores GABA, como uma forma de proteção. Entretanto, essas lembranças escondidas podem trazer problemas psicológicos gravíssimos a longo prazo, sem contar que, por serem episódios não corriqueiros, os traumas são processados por moléculas diferentes das que codificam lembranças “normais”, explicando o porquê de vítimas de abuso se lembrarem da violência com detalhes ou então a deletarem completamente da memória.

    Dois pesos, duas medidas

    Durante transmissão do Globo Esporte, o jornalista Walter Casagrande se posicionou sobre a até então contratação de Robinho pelo Santos: “Estou assustado com a sociedade brasileira. É um apedrejamento da moral da sociedade brasileira(…) Ele [o jogador] recorreu, mas, no momento, está condenado“, falou.

    Casagrande também aproveitou para trazer à tona o caso da jogadora de vôlei Carol Solberg, denunciada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva por “descumprir regulamento e assumir conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva” por gritar “Fora, Bolsonaro!” durante uma entrevista para o canal SporTV.

    Enquanto a atleta, que disse viver em uma democracia e ter o direito de se manifestar, e que esporte e política caminham, sim, lado a lado, foi advertida, Robinho, em entrevista para o Fox Sports, disse ter ganhado o apoio de Neymar e se comparou com Jair Bolsonaro, dizendo que está sendo julgado e atacado sem provas, igual fazem atualmente com o presidente da República.

    Se cabe à Justiça condenar ou não homens que respondam por crimes contra a mulher, cabe à toda sociedade fazer pressão e ficar atenta a tais padrões sociais criminosos e de falas machistas, e aos dois pesos e duas medidas com que cidadãos são tratados, sejam eles atletas de vôlei ou futebol. Não dá para aceitar sem fazer barulho, especialmente quando, no mesmo intervalo de tempo, um jogador condenado em 1ª instância por crime de estupro na Itália é contratado por um dos maiores clubes de futebol brasileiro enquanto uma jogadora é severamente advertida por se manifestar contrária a um governo que, por diversas vezes, já negligenciou mulheres e estimulou o turismo sexual.

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