Por que metade dos meninos da geração Z acha que o feminismo é uma ameaça?

"O feminismo atrapalha meu sucesso", dizem os que se sentem ameaçados por uma ignorância muitas vezes estimulada pela própria sociedade patriarcal

Por Isabella Otto Atualizado em 23 ago 2020, 11h52 - Publicado em 20 ago 2020, 12h28

De acordo com relatório recente da Hope Not Hate, metade dos garotos da geração Z, entre 16 e 24 anos, acredita que “o feminismo foi longe demais” e dificulta o sucesso masculino. Foram ouvidos 2 mil jovens, entre eles homens e mulheres, em estudo realizado em meio à pandemia de coronavírus. Ao analisar a resposta dos homens sobre a afirmação “o feminismo foi longe demais e torna mais difícil aos homens ter sucesso”, 50% concordou com ela. Uma parte considerável também enxerga o movimento das mulheres em busca de igualdade de gênero como algo negativo.

Quando questionados sobre o momento atual, 49% dos participantes disseram que ele é mais perigoso para as mulheres, o restante acreditou não ter diferença. Em vários países, como no Brasil e na França, os índices de violência doméstica aumentaram durante a pandemia. Por aqui, no início de junho, a taxa de feminicídio havia crescido 22%, segundo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre março e abril, no comecinho da pandemia de COVID-19, o estado do Acre, um dos mais perigosos para pessoas do sexo feminino, registrou um aumento de 300% nos casos de crimes contra a mulher.

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    Outro levantamento recente realizado pelo IBGE em 2019 mostra que as mulheres gastam o dobro de tempo que os homens realizando afazeres domésticos, como cozinhar, lavar roupa e arrumar a casa. Isso sem contar o trabalho que muitas têm como mães somado ao trabalho relacionado ao emprego fixo ou como freelancer. Fazendo uma compilado dos levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística nos últimos 20 anos, conclui-se que há pelo menos duas décadas as mulheres trabalham o dobro do tempo que os homens em casa – mas a gente sabe que essa herança patriarcal é muito mais antiga e muito mais pesada.

    Ada Yokota/Getty Images

    O resultado da pesquisa da empresa britânica não deve ser encarado com surpresa. Por anos e anos, o feminismo foi pouco discutido em grandes mídias, fazendo com que ele se tornasse distante da realidade de homens e mulheres. Foi em 2015, época em que o projeto #GirlPowerCH foi inclusive lançado na CAPRICHO, que a discussão passou a ser mais democrática, fazendo com que mulheres de diferentes idades passassem a enxergar o feminismo como algo próximo e acessível, e nada assustador ou “do passado”. Houve resistência, é lógico. Quando introduzimos algo novo, mesmo que esse novo seja antigo, ele inicialmente pode causar um estranhamento. Com o tempo, o aprendizado destrói a ignorância de leigos e daqueles que estão dispostos a ouvir, permanecendo forte apenas naqueles que não estão abertos a entender e aprender sobre a própria história. Porque, sim, discutir o passado é entender muito da pessoa que somos hoje e as razões de agirmos de determinada maneira, sejamos homens ou mulheres.

    Possivelmente, metade desses meninos da geração Z cresceu ouvindo fake news sobre o feminismo, muitas delas compartilhadas pelos próprios pais, familiares e amigos. Outros tiveram o privilégio de poder aprender, mas escolheram permanecer na bolha do machismo e da masculinidade frágil, que também os afeta negativamente – mas não tanto quanto afeta as meninas. É cômico ver que ainda hoje homens se sentem ameaçados pelo feminismo porque ainda não entenderam nada e continuam batendo na tecla de que ele é o contrário do machismo. Não é. Em contrapartida, é também triste perceber tudo isso. Apesar de o incômodo ser muitas vezes um sinal de que as coisas estão surtindo efeito, ele pode nascer de uma ignorância involuntária, fruto de uma sociedade pautada em cima de valores patriarcais machistas que negou a esses jovens uma educação baseada na igualdade de gênero, tornando-os inseguros e, o que é ainda pior para todos, machistas inseguros. Isso reflete em toda a sociedade e a luta de nós, mulheres, precisa se fortalecer cada dia mais. E que lindo ver que está se fortalecendo!

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