A lacração do autoritarismo: do linchamento ao descancelamento online

Tanto quanto o cancelamento, o descancelamento é tendencioso, perigoso, misógino, racista, paradoxal e recheado de incoerências

Por Isabella Otto Atualizado em 30 set 2021, 18h08 - Publicado em 30 set 2021, 16h46

Na Antiga Mesopotâmia, mais ou menos em 1700 a.C., foi criado o Código de Hamurabi, conhecido como uma das primeiras noções de leis, mas ele era baseado no preceito de fazer Justiça com as próprias mãos – a mesma dinâmica que por anos autorizou o linchamento e enforcamento em praça pública, por exemplo, da Idade Média ao Velho Oeste.

Tentativas de silenciamento sempre existiram e exatamente por isso o conceito de cancelamento não é novo, do ponto de vista histórico. O recorte de gênero e raça sempre esteve presente, assim como a valorização da tal racionalidade europeia. Quem tinha voz era sobretudo o homem branco. Para o filósofo, pesquisador e professor Filipe Campello, a cultura do cancelamento que hoje é tratada à exaustão pode ser vista como um efeito colateral de todo esse processo. “O fenômeno do cancelamento é intrinsicamente ligado às redes sociais, porque antes você não tinha esse espaço de ampliação de vozes. E esse é o lado positivo. Hoje, as pessoas podem falar, elas têm esse espaço, as redes são democráticas e permitem a inclusão de vozes que até então eram silenciadas. Só que, quando você amplia essas vozes, dá espaço a terraplanistas, a negacionistas… E é aí que se encontra o paradoxo do cancelamento“, explica.

Desenho de uma mulher nua na parte de cima, pendurada em frente a um tribunal formado apenas por homens
A perseguição às mulheres chamadas de bruxas nada mais era do que um tribunal que perpetuava um pensamento branco machista num tempo em que as redes sociais não existiam Reprodução/Reprodução

A teoria do filósofo chega para explicar um pouco aqueles lugares comuns do cancelamento e do descancelamento, que funcionam com a lógica do “fazer justiça com as próprias mãos”. Só que, ao mesmo tempo em que alguns debates escancarados pela internet são importantes, em muitos casos os justiceiros virtuais acabam reproduzindo o mesmo mecanismo daquele que estão tentando cancelar, sucumbindo na mesma lógica de silenciar. “O cancelamento tem uma régua moral forte e presente, e é uma lógica de faroeste. O efeito que isso tem é meio essa coisa de queimar em praça pública, nem sempre de tratar o assunto com a seriedade que ele merece. Ele também é uma válvula de escape para a justiça falha, mas a resposta não é substituir as instituições da Justiça pelo tribunal da internet, pois, neste caso, o cancelamento corre o risco de jogar lutas importantes foras e seguir compactuando com o pensamento branco homogeneizado“, garante.

Outro paradoxo tem a ver com o autoritarismo dessa cultura nas redes. Quando simplesmente cancelamos uma pessoa, perdemos a oportunidade de educar, porque, em muitos casos, essa possibilidade é substituída pela lógica da lacração. “Este lugar, que devia ser um lugar da tolerância, já vem com a régua moral pronta. Ninguém pode errar, ninguém pode aprender. Se a gente nasce numa sociedade estruturalmente misógina e racista, o que você faz? Você desconstrói, você ensina, não dá só para punir. Isso não é passar pano”, pontua o filósofo Campello.

OS PRECONCEITOS PERPETUADOS PELA CUTURA DO CANCELAR

Recentemente, Leví Kaique Ferreira, cyberativista e palestrante, foi cancelado pela internet depois de publicar uma foto da sobrinha comendo em uma famosa franquia de fast food. Por ser uma criança gorda, deduziram que ela comia muito lanche e começaram a criticar o homem por isso – sem saber que, na verdade, a ocasião era especial e, por isso, a concessão havia sido feita. Para Levi, as críticas foram pautadas em cima da gordofobia e de achismos, algo bastante comum nas redes sociais.

Ilustração de uma mulher negra sendo prestes a ser cancelada
“É muito mais fácil cancelar uma mulher preta”: a ideia do cancelamento, que surgiu para dar voz aos silenciados e fazer justiça, acaba em muitos casos reproduzindo antigos preconceitos nadia_bormotova/Getty Images

Com mais de 109 mil seguidores no Twitter, Leví faz seu nome em uma das redes sociais mais tóxicas do momento – e que, num passado não tão distante, existia apenas para perpetuar zoeiras e memes. O influenciador não acredita na cultura do cancelamento. “As pessoas se escondem por trás dessa ideia para não serem criticadas. Em 99% das vezes em que vejo as pessoas falando que foram canceladas, foi a internet cobrando responsabilidade por algo que a pessoa fez. Isso não é cancelamento. A pessoa cometeu um erro, normal dentro do contrato social, e cobra-se a responsabilidade por esse erro. E muitas dessas cobranças são coerentes. O que acontece é que existe uma toxidade dentro das redes sociais, mas ela não vem desse cancelamento, dessa cobrança. Eu acredito que não é uma característica exclusiva do cancelamento. A gente acaba criando um inimigo comum só pra se isentar das coisas que fazemos de errado“, justifica.

  •  

    Enquanto homem negro, o engenheiro civil afirma que lida diariamente com esse ódio e que, quando acontece de cometer um erro, ele é ampliado pelo fator racial. Há algum tempo, o cyberativista repercutiu o caso de uma criadora de conteúdo que fez black face em pleno 2020. Depois, a moça entrou em contato com ele para entender por que a haviam cancelado. Leví disse que ela realmente não sabia o que era black face e ele fez questão de educar. Só que, na sequência, descobriu que algumas pessoas haviam conseguido o telefone da mãe dessa influenciadora, e estavam ligando para a senhora e ameaçando a filha, dizendo que iriam estuprá-la. Conclusão: a moça acabou desenvolvendo uma síndrome do pânico. “Em momento algum em que eu critiquei o black face feito achei que a crítica seria proporcional ao nível de falarem que iriam estuprá-la, porque não faz sentido”, assusta-se.

    Continua após a publicidade

    Desde então, o colunista do site Mundo Negro, de quem os seguidores cobram posicionamento, mudou sua lógica de “cancelar”. Ele não mais expõe quem errou, nem dá retweet no arroba, ele escancara o erro e explica por que ele é problemático. “Quando eu comecei com esse tipo de crítica, era muito tentador por causa do engajamento, e agora eu comecei a diminuir isso. Na grande maioria do casos, as pessoas não imaginam que a crítica vai chegar a um grupo tão extremado que chega até a ser contraditório“, preocupa-se. Esta é justamente uma das principais críticas dos cyberativistas: os militantes está cancelando os seus – em contrapartida, o movimento de oposição, que usa a liberdade de expressão para tudo, ganha força com esse cancelamento exacerbado, que vira até um pouco caricato.

    CANCELAMOS PESSOAS OU OPINIÕES?

    Um dos maiores casos de cancelamento em massa que o Brasil acompanhou foi o de Karol Conká no BBB21. Em entrevista para a CAPRICHO, a rapper disse que não se sente mais cancelada, mas que o linchamento online foi carregado de racismo, afetou muitos membros de sua família, e teve sim o recorte de gênero. “O racista não aceita nada de bom. Se o artista negro não dá motivo para ser atacado, eles ficam esperando”, pontuou.

    A cantora diz não ignorar nada que fez durante o programa, e que a terapia foi essencial para seu processo de retomada de confiança, porém ela sempre acreditou que o que cancelamos são ideias e opiniões, não pessoas. Afinal, se sairmos cancelamento todo mundo que erra, não vai sobrar ninguém no planeta Terra. A fala de Conká bate com os posicionamentos do filósofo Filipe Campello e do cyberativista Leví Kaique, uma vez que as redes sociais criam o efeito manada, que a lacração é muito tentadora e que o que chamamos hoje de cultura do cancelamento é bastante moralista e não admite erros – mas faz vista grossa para alguns deles. “É muito mais fácil cancelar uma mulher, e muito mais fácil cancelar uma mulher preta. No BBB, a Lumena e a Karol tinham uma postura muito próxima da cultura do cancelamento, e as pessoas que estavam cancelando as duas estavam reproduzindo o mesmo cancelamento que elas promoviam dentro do programa“, cita o filósofo mais este paradoxo.

    E por que descancelamos algumas pessoas com mais facilidade? É impossível não fazer uma análise de gênero, raça e padrões. Descancelar um alguém que está muito mais próximo do que a sociedade dita ser “bonito” é muito mais simples e há até quem use esses recortes preconceituosos para se justificar. Aí, sim, temos a famosa passagem de pano.

    A liberdade de expressão é um direito constitucional e “a pluralidade faz parte do jogo democrático”, como destaca Campello, mas não podemos usar essa liberdade para tudo. Racismo, por exemplo, é crime, assim como a LGBTfobia, a misoginia, o bullying e o cyberbullying, a gordofobia… Algumas coisas não são opiniões, mas sim atos criminosos e devem receber punição da Justiça. A internet pode expor essas atitudes, alertar, debater, mas, por mais falha que nossa Justiça seja em muitos sentidos, não pode fazer justiça com as próprias mão. Algumas questões são muito sérias para ficarem apenas no tribunal da internet – e é aí que mora o real perigo de “orkutizar” o cancelamento.

    Sem contar que, quando falamos sobre a atitude de descancelar, caímos na questão da reinserção social, que é o processo de integração na sociedade de um indivíduo, por meios que lhe permitam seguir as regras vigentes de convivência social. Além disso, o cancelamento online ignora alguns direitos jurídicos, como o da presunção da inocência [a pessoa é inocente até que se prove o contrário]. É por isso que, quando escrevemos matérias sobre violência contra a mulher, por exemplo, temos jornalisticamente algumas regras a seguir – ainda que não queiramos.

    Usamos o termo “suspeito” até que haja a finalização do inquérito, podendo assim o termo “acusado” ser usado. Quando o Judiciário aceita a denúncia formulada pelo Ministério Público, o denunciado/acusado passa à condição de réu. Só após a decisão de 1ª, 2ª ou instância superior que podemos condenar alguém. O tribunal da internet, entretanto, acusa e condena pessoas a torto e a direito, muitas vezes ignorando essas questões constitucionais. Por mais que a intenção seja boa, como escancarar crimes e sair em defesa de vítimas, há tanto silenciadas e injustiçadas, os prejuízos podem ser enormes e irreversíveis.

    É preciso ter consciência dos seus atos. Por mais tentador que seja o anonimato das redes sociais, ele é uma ilusão. E por mais intensa e digna que seja a vontade de fazer justiça, não dá para sair cancelamento todo mundo, não nos moldes de hoje, com um autoritarismo desenfreado que reproduz preconceitos, está diretamente ligado ao linchamento virtual e anula uma das coisas mais importantes e valiosas do mundo: o direito à educação.

    Continua após a publicidade
    Publicidade