O certo é dizer que nenhuma mulher deveria ser assediada, Danuza

Escritora Danuza Leão disse que 'toda mulher deveria ser assediada'. A gente então resolveu explicar algumas coisas para ela - e para quem pensa como ela.

Por Isabella Otto - 12 jan 2018, 11h35

Na última quarta-feira, 10, a jornalista e escritora Danuza Leão deu uma opinião bastante preocupante sobre o manifesto que ocorreu no Globo de Ouro 2018, em que mulheres se reuniram e vestiram preto para protestar contra os inúmeros casos de assédio em Hollywood que foram denunciados no último ano e apoiar a campanha Time’s Up. Danuza, de 84 anos, disse que a cerimônia mais pareceu “um grande funeral” e que “toda mulher deveria ser assediada”.

Reprodução/Reprodução

Em seu depoimento, a escritora também se mostrou confusa a respeito de alguns conceitos, como o significado de assédio. Ela também prestou muita atenção nos modelos dos vestidos, mas deixou a desejar na mensagem que eles estavam passando. A senhora ainda disse que os americanos não têm noção de sexo, se esquecendo completamente de que nós, brasileiros, também vivemos na América. Por fim, ela disse que é um pecado que um homem perca o seu emprego por causa de denúncias de assédio vindas de mulheres. Bem, talvez seja hora de explicar algumas coisas à Danuza, não?

Para isso, pedimos licença ao GLOBO para reproduzir na íntegra alguns trechos do depoimento dado pela jornalista e explicarmos o quão problemáticos eles são. Muita gente acredita que Danuza Leão tenha dados tais declarações machistas porque já tem mais de 80 anos e é de outra geração. É verdade, ela é de uma época em que a educação dada para as meninas era extremamente machista, assim como a sociedade, que, ainda bem, evoluiu muito. Mas a gente acredita que nunca é tarde demais para aprender.

1. Danuza diz: “o que não está claro para mim é o conceito de assédio. É uma paquera? Avanços sexuais entre homens e mulheres começam sempre de um lado. Às vezes, o outro lado não quer, e isso é normal. Como definir?”
Segundo o dicionário Aurélio, assédio é uma “ação que consiste em cercar uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado; um comportamento desagradável ou incômodo a que alguém é sujeito repetidamente”. É verdade que nem todas as mulheres se incomodam em receber as tais cantadas, seja na rua, em festas ou nas redes sociais, mas outras não só se incomodam, como se sentem invadidas. Ou seja, o que para um é assédio, para outro pode não ser. E é exatamente por isso que devemos usar o bom senso. Fez uma investida? Viu que a garota não tá a fim? Para. Não é que os homens devem deixar de mostrar interesse nas mulheres. Até porque o jogo da sedução pode ser bem interessante, quando não lesa uma das partes. Fazer comentários machistas, usar palavras ofensivas, invadir o espaço do outro, não. Jamais. Nunca. Vale também lembrar que, de acordo com o artigo 216 A do Código Penal, assédio sexual é crime – não uma simples e inofensiva paquera.

2. Danuza diz: “espero que essa moda de denúncia contra assédio sexual não chegue ao Brasil.”
Na verdade, já chegou, Danuza! Mas muita gente ainda não percebeu, então ainda bem que você fez a gente se lembrar de avisar. E nós vamos continuar avisando quantas vezes for necessário. A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo. Além disso, em 2015, o país registrou um estupro a cada 11 minutos. Parece muito, mas só piora quando você percebe que somente 10% dos casos são denunciados, de acordo com pesquisa do Ipea, e apenas 15.7% dos acusados são presos, de acordo com um levantamento realizado pela GloboNews, em 2017. A gente espera, sinceramente, que essa “moda” não só chegue ao Brasil como faça a diferença na vidas de tantas brasileiras.

3. Danuza diz: “o que aconteceu no Globo de Ouro me pareceu um grande funeral.”
É importante destacar que esse “funeral” acontece desde 1792, quando a britânica Mary Wollenstonecraft lançou um livro intitulado Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, o primeiro sobre direitos femininos. Em 1897, foi criada, na Inglaterra, a União Nacional das Sociedades de Mulheres Sufragistas, que defendia a luta das mulheres por seus direitos. Como o direito de voto, conquistado amplamente em 1928. Em 1955, nos Estados Unidos, Rosa Parks fez história ao se tornar a primeira negra a recusar ceder seu lugar no ônibus para um branco. Em 1977, a ONU proclamou o Dia Internacional da Mulher. Nos anos 90, a luta feminista alcançou o seu auge ao chegar na internet. Em 2012, Malala Yousafzai foi baleada pelo Talibã por defender o direito à educação para as meninas paquistanesas. Em 2016, mulheres saíram novamente às ruas para lutar contra o machismo e contra o feminicídio. Em 2017, mulheres vestiram preto e protestaram pelo fim da violência contra a mulher no Globo de Ouro. Apenas alguns momentos de destaque desse “grande funeral”, que já dura desde a Idade Média, com a caça às bruxas.

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4. Danuza diz: “apesar dos vestidos lindíssimos, acho que aquelas mulheres (que foram à cerimônia de preto) foram muito pouco paqueradas e voltaram sozinhas para casa.”
Na prática, o que acontece é muito diferente. Na realidade, as mulheres querem voltar sozinhas para casa, mas nem sempre conseguem. Ao voltar do trabalho, da escola, da festa ou da casa da amiga, nós podemos ser estupradas (além de assaltadas, sequestradas, roubadas. etc). Em 2016, o Brasil registrou 135 casos diários de estupro – sem contar os que não foram oficialmente denunciados. No mesmo ano, mais de 40 mil brasileiras foram estupradas. Em 2017, 70% das vítimas de estupro foram crianças e adolescentes. 89% dessas vítimas foram do sexo feminino. E muitas delas só estavam querendo voltar para casa sozinhas…

5. Danuza diz: “é doloroso saber que uma mulher pode fazer uma acusação e tirar o emprego de um homem.”
A justiça não nos parece dolorosa quando um crime é cometido. Mas, se ainda assim você se sentir incomodada de alguma maneira, Danuza, lembre-se de que os homens ainda ganham mais que as mulheres, mesmo que ambos ocupem cargos semelhantes na empresa. Mulheres têm medo de sair sozinhas de casa porque, além de terem chances de ser assaltadas, podem ser estupradas. Isso não é algo que atormente diariamente os homens. Mulheres não podem usar decote, porque “estão pedindo”, mas homens podem andar sem camisa. Mulheres têm que lutar contra o machismo, o preconceito mais praticado no Brasil, segundo pesquisa do Ibope realizada em 2017. Se essa mulher for homossexual, ela tem que lidar também com a homofobia. E se ela for mulher, homossexual e negra, só piora, porque o racismo também entra em pauta. Mulheres islâmicas não podem estudar ou pensar por conta própria, porque os homens islâmicos, se sentirem-se ofendidos, podem matá-las sem culpa, pois não serão punidos nem por Deus nem pelo Estado. Isso tudo não é doloroso? Porque justo, definitivamente, não é.

6. Danuza diz: “acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz.”
Infelizmente, segundo dados acima, dá para perceber que elas são bem mais que isso, né? Engraçado que elas ainda não encontraram a felicidade. Pelo contrário! Muitas delas encontraram a morte.

7. Danuza diz: “viva os homens!”
É claro que os homens merecem um viva, assim como as mulheres. Não se trata do contrário do machismo. Se trata de um mundo em que homens e mulheres tenham direitos iguais, que meninas não tenham medo de ser livres, trabalhar com o que quiserem, vestir o que quiserem, se relacionar com quem quiserem, pensar da forma que quiserem, beijar quem (e quando) quiserem. Um mundo em que o machismo, tão enraizado em nossa sociedade patriarcal, fique cada vez menor e menor e menor… Até não existir mais nem matar mais. Isso é feminismo.

 Não foi um funeral, Danuza. Foi um sopro de vida!

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