Mariana Ferrer relata vida de luta contra o sistema após denunciar estupro

"Revivo o crime todos os dias na busca incessante por justiça (...). No Brasil, basta ser branco, rico e influente para a impunidade ocorrer", diz a vítima

Por Isabella Otto - 23 Maio 2020, 10h10
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CAPRICHO/Divulgação

No dia 16 de dezembro de 2018, a blogueira mineira Mariana Ferrer, na época com 21 anos e moradora de Florianópolis, relatou à Polícia Civil que havia sido estuprada em um famoso beach club de Santa Catarina, chamado Cafe de La Musique, na noite anterior. Diferentemente da casa noturna, que segue suas atividades normalmente, a vida da jovem mudou bruscamente enquanto ela segue esperando por justiça.

Mari conta que, antes de tudo acontecer, adorava brincar com seu gatinho e estava empolgada com a carreira de modelo. Em alguns meses, o caso completa dois anos Arquivo Pessoal/Reprodução

Em entrevista exclusiva para a CAPRICHO, Mari relata como seu dia a dia se transformou desde que tudo aconteceu: “Eu era muito ativa e feliz. Amava ir à praia, passear com minha gatinha, nadar, tomar sol, ir ao cinema. Eu era modelo e digital influencer, era o que eu amava fazer e fazia com muito amor e empenho. Estava em um dos momentos mais felizes da minha vida e carreira! Estava cheia de planos, trabalhando muito, sempre de forma honesta e íntegra. Um mês antes de tudo acontecer, tinha assinado contrato com uma nova agência, estava me preparando para começar a faculdade. Eu tinha sonhos que foram brutalmente impedidos de serem realizados por um espurco que ceifou minha vida e a da minha família. Destroçaram não só meu corpo, como minha alma. Desde então, vivo dentro de casa, não saio, não vejo pessoas, evito qualquer tipo de contato, inclusive com amigas. Me isolei. É como se meu brilho e alegria de viver tivessem sido sequestrados e me feito criar uma ‘casca’. É como se minha alma tivesse sido arrancada de mim. Em raros momentos, tento me distrair, ouvir música, meditar, assistir a doramas [dramas coreanos ou K-dramas], brincar com minha gata, mas não tem um dia sequer desde que tudo ocorreu que deixo de chorar, que não tenho crises de pânico. Revivo todos os dias esse tormento e o pior é que minha família sofre comigo”, conta a jovem, hoje com 23 anos.

O réu é o empresário de 43 anos André de Camargo Aranha, que trabalha com marketing esportivo e foi indiciado pela Polícia Civil em 2019 por estupro de vulnerável. O processo segue em andamento e o denunciado, por determinação da Justiça, não pode ficar fora de São Paulo, onde mora, por mais de 30 dias consecutivos. Ele deve também comparecer mensalmente ao juízo para informar suas atividades. Na época, em um pedido liminar de habeas corpus [cujo intuito é proteger o direito de liberdade do ameaçado por ato abusivo de autoridade], Claudio Gastão da Rosa Filho, o advogado do réu, disse que o empresário “até entregou seu passaporte espontaneamente à Justiça, demonstrando que deseja colaborar com ela”. Mais dois pedidos de habeas corpus foram solicitados na sequência, todos negados.

Trechos dos laudos periciais do caso de Mariana Ferrer, postados pela própria vítima nas redes sociais, que comprovam presença de sêmen na calcinha e ruptura do hímen Arquivo Pessoal/Instagram/Reprodução

Os exames constataram conjunção carnal [que é quando há a introdução completa ou incompleta do pênis na vagina] e presença de sêmen na calcinha da jovem, assim como ruptura do hímen. Mariana era virgem quando foi violentada sexualmente. Traumas como esse podem ter consequências, como diminuição da autoestima, a relação do sexo a um ato de violência e até distúrbios ginecológicos. Um exame pericial constatou que o esperma na roupa da vítima é compatível com o DNA do empresário paulistano, que, anteriormente, afirmou que nunca sequer havia tido contato físico com ela. A equipe jurídica de Mariana relata que ela estava dopada quando tudo aconteceu e a advogada Dra. Jackie Anacleto fala ainda que o denunciado teve uma ligação com um “menu de drogas pesadas. A Mariana foi dopada para depois ter sido estuprada. Essa é mais uma prova relevante”, disse. A defesa do réu nega essa versão. “Uma amiga confessou para a minha mãe que foi ela quem me deixou dopada no bangalô [camarote] com dois homens mais velhos”, contou durante a entrevista para a CH. E não foi apenas no beach club que Mari foi deixada sozinha. “No total, quatro pessoas me abandonaram e negaram ajuda, indo jantar com o estuprador depois. Tudo me enjoa e me revolta muito. A frieza que eles tiveram me faz questionar o que eles têm no lugar do coração… Uma pedra?”, questiona-se.

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Prints de fotos em que André aparece e foram postadas nas redes sociais por famosos como Gabriel Jesus e Ronaldo Nazário Arquivo Pessoal/Instagram/Reprodução

A equipe jurídica de Mariana Ferrer ainda ressalta que o caso está sendo negligenciado por envolver pessoas físicas e jurídicas com alto poder aquisitivo e político. Fala-se ainda em favorecimento do réu e dos envolvidos. André de Camargo Aranha, filho de Luiz de Camargo Aranha [advogado que representou a TV Globo em processos], já foi fotografado ao lado de Gabriel Jesus, Ronaldo Nazário e Roberto Marinho Neto [neto de Roberto Marinho, proprietário do Grupo Globo de 1925 a 2003], e já teve passagens anteriores pela polícia [de acordo com carta precatória disponível no Diário da Justiça e analisada por advogados, a ação penal diz respeito a um crime de trânsito no qual o denunciado pelo MP de Santa Catarina foi condenado em primeira instância]. “No Brasil, basta ser branco, rico e influente para a impunidade ocorrer, e basta ser pobre, negro e/ou mulher para vermos como a justiça é preconceituosa”, opina a jovem. A advogada criminalista Marília Scriboni esclarece, que, judicialmente, “de acordo com a Constituição Federal, uma pessoa só é considerada culpada por um crime quando for condenada e não puder mais apresentar recursos”. O processo pode ser lento e Mariana, por conta disso, reforça a necessidade do clamor popular e da pressão pública nas autoridades.

 

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Uma série de influenciadoras, de Kéfera a Karol Queiroz passando por atrizes como Giullia Buscacio, já se pronunciaram sobre o assunto e em prol da mineira. Mari, contudo, não costuma dar entrevistas para veículos de comunicação, pois já teve péssimas experiências envolvendo fake news e sensacionalismos baratos. “Desde que expus o crime, notei como a mídia pode ser corrompida e omissa, principalmente quando tem pessoas influentes envolvidas. No início, achava que todos queriam me ajudar a conseguir justiça, que se solidarizavam com a causa, mas a verdade é mais cruel. Alguns querem apenas polemizar. A cada dia tenho mais discernimento de que as fake news são a forma que pessoas mal-intencionadas encontram de se esquivarem da verdade, fazendo sensacionalismo com a dor de pessoas inocentes, seja por benefício próprio, por se deixarem se corromper ou por terem rabo preso”, lamenta.

De acordo com o advogado Gastão Filho, o silêncio do réu e seu afastamento das redes sociais não são propositais [@andre11spyder era o antigo perfil de André Aranha, que foi apagado]: “Meu cliente não é assíduo nas redes sociais. Ele tem prestado todos os esclarecimentos que a Justiça entende pertinentes”. Além disso, ele disse para a CH que Mariana acusa “um rapaz de passado limpo” e que “até dá para entender, pois ela vive disso, de abusar da boa fé alheia para obter visibilidade junto a pobres incautos”. Atualmente, o caso da Mari Ferrer está nos ritos finais, na fase de instrução. Por conta do coronavírus, algumas audiências foram adiadas e não há data definida para o juiz bater o martelo. “A fase de instrução é a fase de produção de provas, que podem ser periciais e testemunhais, por exemplo”, explica a advogada Marília Scriboni.

Mari explicou à CH que recorreu às redes sociais após cinco meses de silêncio: “Via clara obstrução das provas e favorecimento do denunciado/réu e dos envolvidos no crime. Uma luta que era só minha passou a ser de todos. É uma luta contra o sistema. Não fui a única [a ser estuprada no Cafe de La Musique de Floripa]. Diariamente recebo relatos de mulheres que afirmam ter passado pelo mesmo naquele beach club“, disse.

https://www.instagram.com/p/B1zuTcdnp6N/

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Luciane Borges, a mãe da Mari, é a maior força da jovem, que faz orações todos os dias ao acordar. “Acredito muito em Deus. Mesmo diante de toda essa tragédia, nunca perdi a fé”, afirma. E é ela que alivia parcialmente as constantes crises de pânico, o estresse pós-traumático, a depressão e a fobia social que a garota enfrenta. “O terror que vivi ainda não acabou. Todo o processo é muito desgastante. Faço acompanhamento psicológico já tem alguns meses, mas confesso que foi muito difícil começar e dar continuidade. Meus traumas me impedem de confiar nas pessoas, de conviver com elas, de ter uma vida normal. Estou sempre em estado de alerta. Vivo dentro de casa desde então. Revivo o crime todos os dias na busca incessante por justiça“, relata para a CH.

Desabafo de Mariana retirado das redes sociais e print do atestado médico enviado por Mari Ferrer, concedido após exames em clínica neurológica em 2019 Arquivo Pessoal/Instagram/Reprodução

Sobre o Cafe de La Musique, quando o caso veio à tona, o estabelecimento divulgou que estava dando todo o apoio que a Justiça determinasse para que tudo fosse solucionado. A equipe jurídica de Mari, entretanto, afirma que a casa nunca deu nenhum tipo de auxílio espontâneo. “Funcionários e embaixadoras do beach club se uniram para tentar abafar o crime. Foi preciso minha equipe jurídica, que cuida da parte civil, ingressar com queixas-crimes contra eles por calúnia, injúria, difamação e perseguição. Ingressaram também com um processo de danos morais, no qual foi aceito pelo Juiz da 2ª Vara um pedido liminar que determina que o Cafe de La Musique arcasse com os custos do meu tratamento psicológico e da minha família [mãe e irmã]“, explica a vítima. O beach club afirmou em nota enviada para a CAPRICHO que a casa não é parte do processo, não havendo qualquer tipo de acusação que recaia sobre marca, equipe, sócios ou parceiros: “O Cafe de La Musique, franquia de Florianópolis, ratifica que a preocupação sempre foi com o esclarecimento do fato e a eventual punição dos responsáveis, sempre colaborando com todo o processo de investigação, e que repudia veementemente toda e qualquer violência, principalmente as que foram levadas a público(…). Nesse sentido, seguimos à inteira disposição das autoridades, apoiando-os prontamente, e no aguardo da conclusão.”

Print de matéria publicada no https://www.trf4.jus.br/ em maio de 2019, que mostra que o Cafe la Musique estava envolvido no esquema da Operação Moeda Verde. Ricardo Mansur Filho (representante do Cafe de La Musique/T&T Gastronomia) e Álvaro Monteiro de Carvalho (representante do Cafe de La Musique/T&T Gastronomia) foram absolvidos em primeiro grau. Leonardo de Barros Fagundes Ribeiro (locatário/sócio do Cafe de La Musique/T&T Gastronomia) e Roger Rodrigues da Silva (locatário/sócio do Cafe de La Musique/T&T Gastronomia) foram condenados por crimes ambientais em primeiro grau com pena de 7 meses de serviços comunitários. A T&T Gastronomia Ltda (Cafe de La Musique) foi condenada por crimes ambientais em primeiro grau com o pagamento de 30 dias multa. Atualmente, não resta mais nenhuma pena a ser cumprida http://www.trf4.jus.br/Reprodução

Enquanto Mariana usa as redes sociais para relatar sua história e pedir clamor através da hashtag #justiçapormariferrer, a jovem também precisa lutar não só com a Justiça e contra o réu, mas também contra o machismo. “Não faltam pessoas que têm ligação com o réu e o local querendo deslegitimar o caso usando minhas roupas e as fotos que postava no Instagram de meus trabalhos como influenciadora e modelo”, conta Mari. A própria defesa do acusado usou algumas dessas imagens com a intenção de justificar o crime. “São pessoas que tentam passar pano para um estupro de vulnerável. A pior parte da impunidade é saber que ela ocorre quando os estupradores são privilegiados. Fica praticamente impossível se sentir segura novamente. É um absurdo a forma com que os agressores [brancos, ricos, influentes] são tratados, com respeito, reverência, acima da lei e da verdade, ficando na maioria das vezes livres para circular pelas ruas à procura de novas vidas para destroçarem. O que é afinal justiça e direitos humanos? Precisamos apenas de dinheiro e poder para vivermos uma vida acima das regras e leis? É isso que vamos passar às próximas gerações? Pessoas são isentas de seus crimes de acordo com sua conta bancária/grau de influência? Quanto vale a vida de alguém? Você começa a se questionar, questionar os outros e o mundo em que vive. A realidade assusta e é obscura. Não podemos mais aceitar isso e precisamos furar essa bolha. Intocável só Deus”, reflete Ferrer.

 

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Para o juiz Rudson Marcos, titular da 3ª Vara Criminal da comarca da Capital, “os fatos narrados na denúncia constituem crime. Não há qualquer causa extintiva da punibilidade. Não há ilegitimidade de parte, nem falta de condição exigida pela lei para o exercício da ação penal”, disse em fevereiro deste ano, referindo-se à denúncia oferecida pelo Ministério Público sobre o caso em questão. A jornada é desgastante, porque é uma luta contra todo um sistema que favorece homens brancos poderosos, mas Mariana Ferrer aguarda a fase decisória em busca de Justiça não só para ela, mas para todas as mulheres. “Quero usar este espaço para fazer as pessoas pensarem o que realmente acontece quando uma mulher denuncia a violência sofrida, como é difícil provar um crime que ocorre na surdina”. No Brasil, segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas 35% dos crimes de estupro são registrados em delegacias. A descrença no Poder Judiciário e o medo do julgamento por parte das autoridades, muitas vezes pelos próprios funcionários da delegacia, são apontados como os principais fatores que levam uma mulher a não denunciar. Desse número, somente 6% dos crimes viram ação penal na Justiça.

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