Por dentro dos bastidores do SPFW
Entre criações autorais e descobertas profissionais, estudantes do Senac vivem na prática o maior evento de moda da América Latina
No dia 17 de outubro, estudantes do Senac São Paulo ocuparam diferentes espaços dos bastidores da semana de moda, atuando em áreas como moda, beleza, fotografia e produção de eventos. Como Escola Oficial do SPFW, a instituição levou mais de 180 estudantes para vivenciar de perto a dinâmica de um dos principais eventos de moda do país.
Para quem está acostumado a aprender sobre processos criativos, técnicas e desenvolvimento de projetos em sala de aula, a experiência trouxe um ingrediente que nenhum planejamento consegue reproduzir completamente: como inovar diante do imprevisível.
“Às vezes, a gente esquece que é o maior evento de moda do Brasil e da América Latina e que a correria vale demais”, conta a estudante Karine Nakasone, de 21 anos, que participou do Talentos Senac, desfile autoral que trouxe as criações dos alunos durante a programação do SPFW, ao apresentar a coleção “CALA”.
Criatividade também é saber inovar
No universo da moda, uma ideia precisa atravessar diferentes etapas até se transformar em uma peça pronta para ser apresentada ao público. No caminho, entram pesquisa, construção, ajustes, decisões coletivas e muita criatividade.
Foi justamente essa dinâmica que chamou a atenção de Macau Silveira, de 55 anos, estudante de Design de Moda, que já chegou à formação sabendo costurar e a fazer modelagem. “É a minha primeira vez no SPFW e está sendo uma experiência maravilhosa sair da sala de aula e vir para a prática do que é um desfile”, diz.
Laysa Gois, estudante de Design de Moda do Talentos Senac, ficou impressionada com a grandeza do evento. “Não sei nem descrever qual é a sensação de ter o seu trabalho visto por muitas pessoas, mas foi bizarro de incrível. Minha camisa é uma alfaiataria não convencional, mas deu tudo certo porque a criatividade é o que a gente mais precisa nessas horas”.
Para ela, a diferença entre o ambiente acadêmico e a experiência profissional está, principalmente, no ritmo. “Na sala de aula tem tempo para fazer as coisas, aqui é tudo na hora. Essa parceria com o SPFW do Senac nos permite abrir portas inimagináveis”.
Criação, construção e comunicação
Enquanto as criações ganham forma e os modelos se preparam para entrar na passarela, uma equipe inteira trabalha para que tudo aconteça. Cabelo, maquiagem, fotografia, produção e organização são partes fundamentais para o desfile e também para que os estudantes possam descobrir novos caminhos profissionais.
Na beleza, Márcia Cristina Pereira, de 58 anos, viveu a experiência de preparar os modelos. “Muito feliz de estar aqui com a idade que tenho, tem sido muito enriquecedor. Foi uma correria gostosa demais para deixar os modelos todos prontos para o início do desfile”, conta.
Para Lucas Sales, docente de Beleza do Senac São Paulo, a preparação dos estudantes também envolveu um exercício de criação coletiva. Desta vez, a equipe precisou construir a proposta de beleza do zero, a partir das referências apresentadas pelos alunos do Talentos Senac. “Todas as referências que os alunos trouxeram, tivemos que fazer uma imersão profunda e em pouco tempo, foi um processo criativo intenso e muito inspirador”, explica.
Ao lado de Danielle Gomes, que viveu seu primeiro ano assinando a beleza como docente do Senac São Paulo, o processo exige que os estudantes aprendam a traduzir uma ideia em decisões práticas. “É um trabalho que envolve técnica, mas também interpretação e diálogo entre diferentes áreas. Quando os alunos pisam aqui, eles sentem que expandem as possibilidades da profissão”, explica.
A experiência muda tudo!
Se, para alguns estudantes, o SPFW representa o primeiro contato com uma grande produção de moda, para outros, a experiência também funciona como um exercício de confiança e autonomia.
Khaissa Cruz, de 22 anos, estudante de Design de Moda, conta que a participação no evento ajudou a transformar a maneira como se percebe profissionalmente e também trouxe uma descoberta pessoal. “Confesso que eu sou super tímida e esse evento conseguiu me fazer ser mais segura, que eu posso abrir aquilo que está no meu coração.”
Para as estudantes de Fotografia, Camilly França, de 23 anos, e Livia Motta, de 18 anos, a parceria do Senac como escola oficial do SPFW marca o primeiro ano de formação na prática. “Na sala de aula, a gente normalmente trabalha com um set controlado e aqui a gente precisa ajustar com a luz que já existe, além do tempo curto entre uma pose e outra”, explica Camilly.
Além das questões técnicas, a experiência exigiu iniciativa para abordar pessoas e construir as imagens. “É incrível que acabamos de entrar na formação e já estamos sendo desafiadas nessa cobertura e expondo nosso trabalho nas redes oficiais da escola”, reforça Livia.
João Pimenta guia o trabalho em equipe
No Talentos Senac, a relação entre autoria e colaboração ganha forma em uma coleção desenvolvida pelos estudantes e apresentada em 14 looks. Com consultoria criativa do estilista João Pimenta, o projeto reúne estudantes envolvidos nas frentes de criação, construção e comunicação.
Nesta edição, a matéria-prima foi o ponto de partida para o desenvolvimento da coleção. Levar o denim, tecido historicamente casual e popular para a passarela mais exclusiva do mundo, cria o choque do high-low, com o jeans contrastando com a alta costura. “A inspiração do meu trabalho sempre foi e é a matéria-prima. No ano passado, estávamos mais perto da ficção e do conceitual, esse ano estamos mais próximos da realidade. É importante os alunos saberem que moda é conceito, mas que também precisa chegar em um produto final”, explica o estilista.
O desenvolvimento da coleção aconteceu em apenas dois meses, e foi João Pimenta, em parceria com os professores do Centro Universitário Senac, quem escolheu as ideias que poderiam fazer parte da coleção. A seleção também levou em conta a capacidade de trabalhar coletivamente.
Para Ana Paula Mendonça, coordenadora do bacharelado de Design de Moda do Senac São Paulo e ex-aluna da instituição, a proposta é dar protagonismo aos estudantes e prepará-los para uma realidade em que o trabalho criativo depende da colaboração. “O objetivo pedagógico é principalmente estimular o senso de coletividade porque, quando a gente vai para o mercado de trabalho, o aluno não vai criar para ele, ele precisa entender que o que ele cria é para o público”, contextualiza.
O desafio também faz parte do aprendizado. Por mais que os professores orientem e compartilhem seus conhecimentos, é na hora de colocar a mão na massa que os estudantes precisam assumir as próprias decisões. “Às vezes, o aluno vem correndo para nós e damos as dicas, mas insistimos: agora é com vocês, agora é hora de brilhar”, diz Thaís Sauer, professora de Moda do Senac São Paulo.
Moda plural
A diversidade foi outro aspecto que chamou a atenção dos profissionais envolvidos na experiência. Kledir Salgado, professor de Design de Moda, conta um exemplo marcante. “Eu não sabia que meus alunos tinham escolhido uma modelo que faz hemodiálise e que participaria do desfile com o cateter à mostra. Só descobri quando estava ajudando a vesti-la. Eu fico extremamente orgulhoso em acompanhar as escolhas dos alunos e a atenção que dedicam à diversidade. Acredito que isso seja possível porque o Senac proporciona o encontro de diferentes estudantes”.
A inclusão também aparece na leitura que Dudu Bertholini, estilista com mais de duas décadas de trabalhos na semana da moda e que acompanhou o backstage aberto dos estudantes. “É legal notar que hoje o SPFW tem um line-up mais inclusivo, mais descentralizado, que abarca estilistas de todos os gêneros, raças e estilos. A moda, na verdade, faz parte de todas as pessoas, apesar do mercado ainda não ser acessível a todos”, avalia.
Para Dudu, conhecer a história das marcas e compreender o que existe por trás de uma roupa é parte importante da formação de quem deseja atuar na área. “A graduação em Moda é uma das mais plurais que existem. Hoje nós somos uma das principais indústrias e você pode trabalhar para além do designer de moda. É um mercado consolidado, por isso indico estudar Moda para quem quer impactar o nosso mundo ao redor”.
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