A artista que transformou uma roupa da avó em um reencontro
Em mostra na Japan House, Kaoru Hirano parte de um juban que pertenceu à avó para falar sobre tempo, ausência e as histórias que carregamos.
ocê já guardou uma camiseta, uma carta ou até um objeto aparentemente banal simplesmente porque ele pertenceu a alguém importante? Às vezes, aquilo que ocupa pouco espaço dentro de uma gaveta consegue carregar uma história inteira. É justamente desse encontro entre memória e matéria que parte o trabalho da artista japonesa Kaoru Hirano, em exposição na Japan House São Paulo.
Uma das obras apresentadas nasceu a partir de um juban, peça tradicional usada sob o quimono, que pertenceu à avó da artista. Curiosamente, Hirano não começou o trabalho sabendo que recorreria a uma memória tão pessoal.
Em entrevista à CAPRICHO, ela contou que recebeu a proposta de desenvolver um trabalho relacionado ao tempo e à cor branca, algo que ainda não havia explorado daquela maneira. Foi então que telefonou para a mãe para perguntar se, entre os pertences de sua avó, existia alguma peça que pudesse dialogar com a ideia. Assim, encontrou o juban.
O processo acabou transformando uma roupa de família em algo maior. Ao trabalhar artisticamente com a peça, Hirano percebeu que não estava necessariamente lidando com uma despedida. “Eu me senti mais como se estivesse tendo um reencontro com a minha avó”, contou à CAPRICHO.
O que fica de alguém nos objetos dela?
É uma sensação que provavelmente não está restrita à história da artista. Uma roupa que ainda guarda o formato de quem a usou, uma carta escrita à mão, uma fotografia esquecida em uma caixa ou aquele objeto que ninguém na família tem coragem de jogar fora: coisas podem funcionar como pequenos arquivos de uma vida.
Para Hirano, talvez exista algo que seja transmitido justamente por meio dos objetos físicos. A reflexão ganha outra camada em uma época na qual grande parte das nossas lembranças está armazenada em celulares, nuvens e redes sociais. Nunca produzimos e guardamos tanta informação, mas uma parcela enorme dela já não pode ser segurada nas mãos.
Na obra da artista, o tecido ocupa esse lugar físico da memória. E, embora o ponto de partida seja profundamente particular, Hirano não quer determinar o que cada visitante deve enxergar. Pelo contrário. “Eu espero que todos possam visualizar suas próprias memórias e desenhá-las na tela da obra”, explicou.
Uma espécie de tela em branco
Essa abertura para a imaginação também aparece em uma escolha importante de Hirano: ela não mostra o rosto das pessoas que originalmente vestiram as peças representadas em seus trabalhos. Segundo a artista, alguém já descreveu suas obras como “telas em branco”, porque elas permitem que cada pessoa imagine outros corpos, rostos e histórias ocupando aquelas roupas.
O próprio branco ajuda nesse processo. Para Hirano, a cor cria espaço para que o público projete suas próprias imagens mentais: quem poderia ter usado aquela peça? Que pessoa da sua vida caberia naquela memória? Que história você colocaria ali?
Mesmo que o juban tenha uma relação direta com a cultura japonesa e com a história particular de sua família, a artista acredita que existe algo universal no tecido. Afinal, praticamente todo mundo se relaciona com roupas de alguma maneira. “A gente está falando do quimono da minha avó, mas basicamente todas as pessoas do mundo usam algum tipo de tecido”, disse. “Então acho que é universal nesse sentido de poder transpor a sua imaginação naquela peça.”
No fim, talvez seja justamente essa a força do trabalho de Kaoru Hirano: partir de uma roupa que pertenceu a uma pessoa específica para abrir espaço para milhares de outras histórias. Diante da obra, o visitante pode até não ter conhecido sua avó, mas provavelmente conhece a sensação de encontrar alguém novamente por meio daquilo que ficou.





