Um Lugar Silencioso: Millicent Simmonds e a inclusão de atores deficientes

"É hora de termos todos os tipos de representação, não só para atores surdos", falou atriz com exclusividade à CAPRICHO

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles - 5 abr 2018, 13h06
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Millicent Simmonds durante première de Um Lugar Silencioso em Nova York Jamie McCarthy/Getty Images

Millicent Simmonds tem 15 anos e dois filmes no currículo, mas é uma das estrelas em ascensão em Hollywood. A atriz, que ficou surda quando ainda era bebê, atuou ao lado de Julianne Moore em Sem Fôlego (2017), do conceituado diretor Todd Haynes, exibido em competição no Festival de Cannes, e agora está no terror Um Lugar Silencioso, de John Krasinski.

No filme, uma família formada pelo pai Lee (Krasinski), sua mulher Evelyn (Emily Blunt) e dois filhos, Regan (Simmonds) e Marcus (Noah Jupe, de Extraordinário), precisam permanecer em silêncio absoluto para escapar das garras de criaturas vindas de outro planeta. Há complicações: Evelyn está grávida, e Regan não consegue ter noção dos ruídos que faz. “Me identifiquei com a coragem da personagem”, contou Millie em uma conversa com a CAPRICHO. “Mas ela também sente muita culpa porque acontece algo com sua família que ela pensa ser por sua causa. Fica com raiva de não poder participar mais, porque sua deficiência pode causar a morte de alguém.” A atriz disse que sabe bem como é isso. “Eu entendo como ela se sente. Eu passo por isso diariamente”, disse. Mas emendou uma piada: “Quando vou à cozinha pegar cookies, tenho de ser bem silenciosa porque os outros podem ouvir!”.

Como dá pra ver, Millie é super bem-humorada. Ela faz piada o tempo todo na entrevista, que é feita com a ajuda de uma intérprete – Millie usa linguagem de sinais, e Lynnette Taylor transforma em linguagem sonora. Millie consegue ler lábios só um pouco, então precisa da intérprete nas entrevistas e também durante suas interações no set de filmagem. Mas ela disse ter tido sorte até agora, porque tanto neste filme quanto em Sem Fôlego seus colegas de elenco e a equipe aprenderam a linguagem de sinais. “Millie estava nervosa porque ficou com medo de ser isolada, de não poder se envolver nas brincadeiras do set”, disse Emily Blunt. “Ela ficou feliz porque aprendemos a linguagem.”

John Krasinski gostaria de ter tido tempo para aprender mais, mas ficou impressionado com a atriz. “Não acho que exista língua mais bonita. Fiquei emocionado, porque ela exige que se pinte com seus braços e mãos.” O diretor fez questão de que a atriz a interpretar Regan fosse deficiente auditiva. “Não por ser politicamente correto, mas porque ia conseguir uma interpretação muito mais nuançada. Alguém fingindo ter uma experiência que nunca teve não ia ser tão bom”, disse. Ele também se aproveitou da experiência da atriz. “Eu queria uma guia, alguém a quem pudesse fazer perguntas. Alguém que me contasse como é estar numa família com pessoas que ouvem. Você se sente isolada? Você se sente menor? Você se sente empoderada? Todas essas conversas profundas que não posso ter com uma atriz que ouve.”

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Millie, que mora em Bountiful, Utah, frequenta uma escola para deficientes auditivos. Lá, começou a fazer algumas peças de teatro, mas só foi fazer teste para Sem Fôlego porque sua professora insistiu. “Comecei a atuar por acaso. Nunca esperei que isso fosse acontecer na minha vida. Eu pensava em ser policial ou bombeira, ou algum outro trabalho perigoso.” Agora, ela se apaixonou pela profissão e quer lutar por mais inclusão em Hollywood. “É hora de termos todos os tipos de representação, não só para atores surdos. Quanto mais pessoas assim vemos no cinema, na televisão, nas mídias sociais, mais compaixão temos. E isso só pode fazer do mundo um lugar melhor para todos, não importa a raça, o gênero, a deficiência.”

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