Paulo Mendes fala sobre virada intensa de Raul em ‘Três Graças’
Ator comenta comparações com papéis anteriores, cenas extremas da novela das nove e a construção de um personagem “fora do lugar”
os 21 anos, Paulo Mendes vive um dos momentos mais marcantes da carreira. No ar como Raul em Três Graças, novela das nove escrita por Aguinaldo Silva, o ator vem chamando atenção do público com um personagem cheio de camadas. Filho da vilã Arminda (Grazi Massafera) e neto de Josefa (Arlete Salles), Raul passou por uma sequência de reviravoltas recentes que colocaram o jovem no centro da trama.
Desde que seu nome foi anunciado no elenco, surgiram comparações com outros personagens interpretados por Paulo, algo que ele mesmo percebeu logo na leitura dos primeiros roteiros. “Quando notei essa semelhança, procurei as preparadoras e a direção e falei: ‘Está muito parecido, a gente precisa fazer algo diferente’”, conta o ator à CAPRICHO.
Segundo ele, a proposta sempre foi fugir do óbvio. “O Raul se movimenta de um jeito estranho, se veste de forma esquisita. Ele está sempre meio fora do lugar, quase como um fantasma dentro da própria casa.”
Nos últimos capítulos, o público acompanhou um dos arcos mais duros da história: após o desaparecimento do pai, Rogério (Eduardo Moscovis), Raul tem um colapso emocional e passa a viver em situação de extrema vulnerabilidade nas ruas de São Paulo. As cenas, gravadas em locações reais, exigiram cuidado especial.
“A ideia não era mostrar só sofrimento, mas também um lugar de entendimento”, explica. “Essa fuga de casa não serve apenas para evidenciar a dor dele, mas para mostrar que ele precisa agir. Não adianta olhar para o céu e pedir ajuda.”
Apesar da intensidade do personagem, Paulo faz questão de mostrar nas redes sociais um lado bem diferente do Raul — ainda que igualmente peculiar. “Eu me considero estranho e gosto de mostrar isso sem filtro”, brinca.
A repercussão do personagem também trouxe mensagens mais profundas, especialmente no início da novela, quando a trama abordava de forma mais direta o uso de drogas. “Eu não queria representar alguém ‘drogado’ de forma rasa”, afirma. “Recebi mensagens muito bonitas de pessoas que se sentiram representadas, dizendo que o personagem mostrava fragilidade, ansiedade e até depressão.”
Ao falar diretamente com jovens que se identificam com Raul, Paulo adota um tom sensível e realista. “Buscar uma rede de apoio é essencial. Conversar, respirar, entender que sempre existe uma solução”, aconselha. “Os problemas parecem não ter fim, mas eles têm.”
Leia a entrevista com Paulo Mendes na íntegra:
CAPRICHO: Desde que foi divulgado que você faria o Raul, surgiram muitas comparações com outros personagens que você já interpretou. Como foi trabalhar essa construção e como você vê esse apontamento do público?
Paulo Mendes: Percebi isso lendo o roteiro. Quando notei essa semelhança, procurei as preparadoras e a direção e falei: “Está muito parecido, a gente precisa fazer algo diferente, algo interessante”. O Luiz Henrique Rios sempre falou que queria fugir dos padrões do que costuma ser feito em novelas hoje em dia. A ideia era trazer algo diferente, que chamasse a atenção do público. No caso do Raul, ele se movimenta de um jeito estranho, porque ele é um cara esquisito mesmo. Ele se veste de forma esquisita, tem esses elementos visuais que ajudam muito a construir uma personalidade diferente.
Quando você lê o texto com atenção, percebe que é completamente diferente. São personagens em lugares distintos. O Raul está totalmente perdido, ele não sabe qual caminho seguir. Foi interessante buscar esses lugares. A gente construiu um personagem que está sempre meio fora do lugar, sempre “off”. Dentro de casa, ele está presente, mas é quase como se fosse um fantasma.
Ao longo da novela, isso vai mudando. Ele começa a ganhar mais percepção, os problemas dele ficam mais complexos, e ele passa a entender melhor quem ele é e o que precisa fazer para melhorar. As coisas vão se alinhando para um lugar que eu ainda não posso revelar, mas que é bem interessante — como tudo nessa novela, eu acredito.
CAPRICHO: Te acompanhamos bastante nas redes sociais e você é bem ativo por lá, comentando sobre a novela. Como tem sido essa experiência de viver o Raul e, ao mesmo tempo, acompanhar a percepção e os comentários do público?
Paulo Mendes: Eu não vejo os comentários. Parei de ver isso há bastante tempo. Eu basicamente posto e falo. Gosto muito da interação que a gente pode ter, geralmente por meio das caixinhas de perguntas no Instagram. É mais um jeito de entreter as pessoas do que de responder de fato, porque quase sempre vêm as mesmas perguntas ou alguns comentários meio estranhos. Então, eu reajo ao que chega até mim. É muito divertido ver a reação das pessoas. Às vezes, leio algumas mensagens que mandam no privado, mas comentários sobre cenas da novela, por exemplo, eu não acompanho. Ainda assim, acho bem legal esse espaço para mostrar quem eu sou além do personagem. Vejo que isso também interessa bastante ao público. Uma coisa que gera muita visualização é o bastidor de novelas. O que acontece por trás das câmeras chama muito mais atenção nas redes sociais do que só o que está na tela. Então, eu gosto de mostrar um pouco de mim, de quem eu sou mesmo — essa pessoa meio estranha. Eu me considero estranho e gosto de mostrar isso sem filtro.
CAPRICHO: Mas é um estranho bem diferente do Raul, né? Em quais pontos você acha que mais se aproxima dele?
Paulo Mendes: Às vezes, na rua ou em momentos em que não estou fazendo nada, eu fico parado, olhando para um ponto fixo, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Fico nesse lugar por um bom tempo, até alguém falar comigo e eu sair desse transe. Acho que esse lado meio perdido, às vezes, eu tenho também. Mas não tanto. No geral, essa é a única coisa que a gente tem em comum. Eu sou bem diferente desse personagem.
CAPRICHO: Nos últimos capítulos, a gente viu um momento bem extremo do Raul: ele fora de casa, dormindo na rua. Isso vem logo depois do impacto de ver o pai vivo novamente e, em seguida, perdê-lo de novo. Como foi a preparação para viver essa fase do personagem?
Paulo Mendes: Não houve exatamente uma preparação longa ou muito elaborada. A gente recebe os roteiros em cima da hora, grava muito, e nem sempre tem tempo de parar e pensar: “Vamos fazer isso exatamente assim”. O processo é bem intenso. Por sorte, eu consegui saber desse arco antes, conversando com a direção. Comecei a pensar nisso bem antes, quase um mês antes de gravar essas cenas. Quando o roteiro chegou, eu já tinha uma certa mentalidade formada, uma ideia de como poderia ser feito. Aí ficou mais fácil construir uma imagem do que eu precisava passar em cena.
A gente teve muito cuidado na hora de gravar, até porque foram cenas feitas na rua mesmo. O diretor foi o Emer Lavinni, que é um grande parceiro meu desde o começo da novela. Conseguimos unir nossas ideias para criar algo que não fosse só sofrimento, mas também um lugar de entendimento. Um momento em que o Raul começa a compreender o que é a vida, o lugar dele no mundo, o que ele está vivendo e o que precisa fazer. Essa sensação de estar perdido foi muito importante. Mostrar que esse menino está realmente sofrendo com todos os problemas envolvendo o pai, e que essa fuga de casa não serve só para evidenciar a dor dele, mas também para mostrar que ele precisa mudar, precisa agir. Não adianta olhar para o céu e pedir ajuda — ele precisa fazer alguma coisa.
CAPRICHO: Você contracena bastante com a Grazi Massafera. Queremos saber se ela te deu alguma dica ou ajuda especial durante as gravações.
Paulo Mendes: Não tem uma coisa específica, mas a gente sempre troca muito durante as cenas. Nós dois gostamos muito de atuar para televisão, então observamos bastante um ao outro. Sempre surge um ponto para melhorar, algo para acrescentar ou tirar de cena. Uma coisa que eu gosto muito na Grazi é que a gente se parece bastante na forma de enxergar a novela. A gente lê as cenas de um jeito parecido, tem percepções muito próximas. Quando conversamos sobre o que vai acontecer, geralmente chegamos a opiniões semelhantes, e isso cria um diálogo muito de igual para igual. A nossa relação fora de cena é bem diferente da novela: é uma relação muito boa, de conversa, de afeto. A gente se abraça muito, é algo muito bonito que conseguimos construir. Eu estava bem nervoso no começo, porque admiro muito ela como atriz, mas foi — e continua sendo — super tranquilo trabalhar com ela.
CAPRICHO: Isso sem falar da Arlete Salles, claro. Uma grande diva da nossa televisão.
Paulo Mendes: Cara, a Arlete é incrível. Eu adoro a Arlete. Confesso que era quem me dava mais medo no início, porque comecei a gravar com ela um pouco depois. E ela é uma estrela que atravessa gerações. Meu avô era fã, meus pais acompanharam muito o trabalho dela no teatro e na televisão, e eu também, tanto pela TV quanto por Hairspray, que eu era apaixonado. Eu ficava meio quieto no começo, mais na minha, porque estava nervoso. Até que um dia ela me chamou pelo nome. Aquilo me deixou muito feliz.
A relação com ela é parecida com a que tenho com a Grazi: a gente conversa muito sobre as cenas. As duas são extremamente generosas, observam muito, são experientes e, ao mesmo tempo, querem sempre melhorar. Até a Arlete, com tantos anos de carreira, busca fazer algo com verdade, qualidade e vida. Isso me inspira muito a querer ir além, por quantos anos de carreira eu tiver.
CAPRICHO: Você mencionou Hairspray. Você tem um top 3 de musicais?
Paulo Mendes: Tenho. Meu musical preferido da vida é Rent. Eu amo Jonathan Larson. Conheci por causa da minha irmã, que tinha o DVD do filme. A gente assistiu junto e eu fiquei obcecado, comecei a procurar bootlegs na internet. Provavelmente vou esquecer algum, mas Rent com certeza, Os Miseráveis, que eu acho lindo demais, e Jekyll & Hyde. Eu nunca vi o musical ao vivo, mas já ouvi a trilha sonora umas quinhentas milhões de vezes.
CAPRICHO: Além da dinâmica com a Grazi e a Arlete, tem alguma história curiosa ou engraçada de bastidores que você queira compartilhar?
Paulo Mendes: Teve uma vez que eu e a Grazi estávamos gravando cenas muito parecidas e a gente começou a ficar meio desesperado: “Como vamos diferenciar isso?”. Em uma delas, que foi mais para a comédia, eu estava correndo e ela dizia que eu estava fedido. Do nada, surgiu a ideia de ela jogar água na minha cara.
O diretor topou, mas só tinha uma chance, porque eu não tinha outra roupa. Se desse errado, tinha acabado. O figurino topou, o pessoal do som ficou apavorado por causa do microfone… mas a gente fez. Deu certo, consegui proteger o microfone e foi isso. Não é a história mais engraçada do mundo, mas marcou. Fora isso, toda cena minha com a Alana começa com crise de riso antes de gravar.
CAPRICHO: Ela comentou isso em uma entrevista na CH, que a dinâmica de vocês era muito divertida.
Paulo Mendes: Eu encho o saco dela o dia inteiro. Dei azar pra ela, porque quando alguém me dá intimidade, eu não paro de falar nem de fazer piada. Mas, na hora de concentrar, a gente concentra, porque quer fazer um bom trabalho.
CAPRICHO: Você já comentou que ainda está aprendendo a lidar com a fama. Como tem sido essa repercussão de Três Graças?
Paulo Mendes: Eu acho engraçado quando as pessoas não falam nada, mas ficam olhando. Aquele olhar que você entende. Outro dia eu estava na Tijuca, onde cresci, num bar com amigos de infância, e percebi isso. Teve uma moça que foi tirar uma foto e, sem querer, eu apareci. Quando ela viu a foto, dava para perceber que o foco era eu. Achei isso muito engraçado. Acontece bastante. Eu não me importo, acho divertido. As mensagens na internet também são ótimas. Às vezes eu printo e mando para os meus amigos, tem umas mensagens completamente sem vergonha. Continuem mandando, eu rio muito.
CAPRICHO: E com esse cabelo, fica impossível não te reconhecer, né?
Paulo Mendes: Pois é. Estou começando uma coleção de bonés. Quando esqueço de sair de boné, sei que vou ser parado. Com esse cabelo não tem como esconder.
CAPRICHO: Você torce para o Raul mudar o visual?
Paulo Mendes: Desde o início. No primeiro dia de caracterização, me mostraram uma foto editada do visual e eu fiquei olhando, sem reação. Não é bonito, mas acho que esse é o objetivo. É para ser estranho mesmo. Funciona para o personagem, então está tudo certo. É um período da minha vida, estou numa novela irada. No dia seguinte ao fim das gravações, com certeza eu mudo tudo. Quando terminei Mania de Você, cheguei em casa e tirei a barba na mesma hora. Eu odeio barba, acho feia. Mas, justamente por isso, eu estava com ela.
CAPRICHO: Você comentou sobre algumas mensagens estranhas que recebe, mas o Raul é um personagem muito vulnerável, e muita gente pode se identificar com o que ele está passando. Você chegou a receber mensagens mais sensíveis nesse sentido, de pessoas que se viram no personagem?
Paulo Mendes: Sim, recebi, e isso foi muito legal. No início da novela, essa identificação era ainda mais evidente, porque tinham muitas cenas ligadas às drogas. Dava para perceber isso muito claramente no começo — no corpo do personagem, na forma dele falar, em tudo. Com o tempo, o personagem vai para outros lugares. Não é que essa trama fique para trás, mas outras camadas vão surgindo e ganhando importância. Mesmo assim, no início, muita gente se identificou. Eu estudei bastante para tentar fazer algo que não fosse genérico. Não queria representar alguém “drogado” de uma forma rasa, porque nem todo mundo reage da mesma maneira. A vida não funciona assim. Essa é uma novela que trata muito da realidade, então conversei com muitas pessoas próximas que são ou foram dependentes químicos.
Recebi mensagens muito bonitas. Teve gente com páginas grandes nas redes sociais — não lembro exatamente quem agora — me mandando mensagem dizendo que ficou feliz com a forma como a novela estava retratando isso, que o personagem conseguia mostrar fragilidade, ansiedade, até depressão. Foram mensagens muito carinhosas. Fico feliz de tocar nesse lugar e de ver que as pessoas entendem que esses assuntos precisam ser tratados com cuidado e seriedade.
CAPRICHO: E você, Paulo, que conselho daria para um jovem que esteja passando por algo parecido com o que o Raul vive — seja o conflito com a mãe, a questão da paternidade, das drogas ou outras dores?
Paulo Mendes: É muito difícil, para um jovem, assumir as consequências dos próprios atos. Tudo é muito intenso, tudo parece ser o agora, o imediato. A gente acaba esquecendo de pensar no que pode fazer hoje que vai ser importante para o futuro. Acho que o principal é buscar uma rede de apoio. Falar com um amigo, conversar, ponderar sobre o que aconteceu. Sempre existe uma solução, um lugar para onde você pode ir. Às vezes é respirar fundo e pensar: “Ok, eu estou vivo. Isso já é algo bom. O que eu faço agora?”.
Conversar consigo mesmo, refletir, respirar. Eu já tive momentos na minha vida em que pensei: “Acabou, o que eu vou fazer agora?”. Momentos muito pesados, em que não só eu, mas também minha mãe — que é minha heroína — estava perdida. A gente conversou, respirou e falou: “Calma, não está tudo perdido. A gente ainda pode resolver isso”.
Os problemas parecem não ter fim, mas eles têm. Espero que as pessoas consigam encontrar formas de resolvê-los sem seguir pelo caminho mais trágico. As pessoas são muito complexas, e a gente precisa parar, mesmo sem entender tudo, para tentar compreender o que causou aquilo, onde estamos e o que podemos fazer para melhorar. A mente precisa estar tranquila para conseguir resolver os problemas.
A novela Três Graças vai ao ar às 20h40 nas quartas-feiras e às 21h20 nos outros dias da semana (horário de Brasília).
+Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.
Resumo de ‘Três Graças’: Capítulo de quinta-feira (19/03/2026)
O ano começou de verdade: 3 dicas de hobbies para começar agora





