Jack Johnson só faz o que gosta
Ele quase recusou um contrato com uma gravadora de peso porque tinha marcado uma surf trip para a Indonésia com seus melhores amigos. Jack prefere pegar onda e curtir a vida com a família a cumprir a agenda de um megastar.

Jack Johnson, acredite, é como aquele surfistinha da sua escola que faz todas as meninas passarem mal. Primeiro, porque ele é desencanadaço. Bermuda de surfista, camiseta e chinelo de dedo são o seu outfit preferido. Até que ele dá uma incrementada no visual para os shows – troca a bermuda por um jeans largão e as sandálias por um tênis do tipo streetwear. Depois, porque pegar onda é a sua razão de ser. Ele nasceu e cresceu em Oahu, ilha do Havaí onde concentram-se as melhores ondas do planeta: Pipeline, Waimea, Rocky Point… Tudo em Oahu. Surfar, pra ele, é religião. Aos quatro anos, já corria as ondas ajoelhado no bico do pranchão do seu pai. Aos cinco, ganhou sua primeira prancha. “A gente [Jack, seus dois irmãos mais velhos e seu pai] acordava cedo, ainda escuro, pra surfar por 45 minutos. Eu chegava na escola de cabelo molhado. Voltava pra casa, ia surfar, almoçava, voltava para o mar.”
Mas, diferentemente do menino da sua classe, Jack transformou-se num megastar do mundo da música. Aos 30 anos, tem três álbuns no currículo. Só os dois primeiros, Brushfire Fairytales e On and On, venderam 3 milhões de cópias. O terceiro, In Between Dreams, segue no mesmo caminho. Diferentemente da paixão pelo oceano, a vontade de tocar música veio mais tarde. Ele ganhou um violão quando tinha 14 anos e, inspirado na sonzeira que os pais escutavam em casa – Ray Charles, Aretha Franklin, Marvin Gaye – ele foi aprendendo, sozinho, a tocar.
Ele curtia música, sim, mas era só para tirar uma onda. Chegou até a tocar numa banda de punk na escola, mas preferiu investir no surf. Até patrocínio ele arrumou. A marca de surfwear Quiksilver lhe pagava 200 dólares por mês. Nem era tanta grana, é verdade, mas certamente era muito mais glamuroso que trabalhar no McDonald’s – sem falar no sucesso com as garotas. Daí, veio o destino: aos 17 anos, um mês depois de correr o campeonato Pipeline Masters como o competidor mais jovem (todo surfista do mundo sonha em estar nesse evento), ele sofreu um acidente feio durante uma sessão de surfe. Bateu a cabeça nos corais, perdeu três dentes e precisou de 100 pontos para remendar o estrago. As cicatrizes ainda aparecem no seu rosto bronzeado.
Mudança de ares
Nos dois meses seguintes ao acidente, ficou em casa, de molho, e o violão transformou-se em seu maior companheiro. Daí, ele decidiu fazer faculdade em Santa Barbara, na Califórnia. Matemática. Logo na primeira semana, deu de cara com uma loirinha de olhos grandes na lanchonete da escola. Aí, meio sem graça, decidiu seguir um conselho que ouviu de um amigo: “nunca, de jeito nenhum, seja o primeiro a desviar o olhar quando fizer contato visual com uma garota”. Então, Jack começou a encará-la. E a garota correspondeu. Dez, quinze, vinte segundos. Os dois caíram na risada. Aí, ela foi até a mesa dele. A menina era Kim, seu primeiro amor, com quem ele vive junto até hoje.
Kim transformou-se na musa do cantor. Quando batia a saudade de casa, era ela quem o consolava. Eles passavam horas juntos no dormitório da faculdade, e Jack tocava para ela. “Eu uso muitas idéias de Kim”, diz. “Se ela vai ao estúdio e não gosta de uma parte da música, eu troco na hora. Tem gente que fica dizendo que eu sou pau mandado, mas não importa, quero manter as coisas como eram desde o início. Kim sempre esteve comigo e sabe, melhor do que eu, de onde vem as cancões.”
Jack trocou a matemática pelo curso de cinema, e, aí, voltou às suas origens. Ao lado dos amigos Emmet e Chris Malloy, juntou uma grana e fez o seu primeiro filme. O tema? Surf, é claro. Tão convincente quanto o filme Thicker than Water era a trilha sonora, que incluía as músicas do Jack, e que foi lançada em CD. A surfistada adorou. E o som começou a tocar em barzinhos, no rádio, na casa de amigos quentes do Jack, como o músico Ben Harper e o heptacampeão de surf Kelly Slater. A música despretenciosa de Johnson, com violão tranqüilo e voz macia, ganhou fãs no mundo todo.
Daí, não teve jeito, ele gravou seu primeiro disco, Brushfire Fairytales. O sucesso estrondoso chamou a atenção das grandes gravadoras. Na primeira reunião, o então garoto de 24 anos levou os amigos Chris e Emmet para fazer o papel de empresários. Cada vez que se falava nas cifras milionárias do showbizz, os três trocavam chutes sob a mesa. Mas aí, veio o ultimato. Eles queriam que Jack gravasse o seu próximo disco no mesmo mês em que as melhores ondas quebrariam nas Ilhas Mentawai, na Indonésia. Apesar do encalço, o contrato foi assinado. Mas Jack procurou manter-se o mais independente possível da ciranda do mundo das gravadoras. “Nunca quis ser capa da Rolling Stones segurando uma prancha como o próximo Beach Boy”, diz.
No palco, Jack experimenta uma sensação parecida com a de pegar onda. Mas o surfe ainda vem em primeiro lugar. “Toda vez que me encontro a uma hora do oceano, vou surfar. É a minha droga, o meu café da manhã, parte da minha personalidade. Se eu não entro no mar por mais de duas semanas fico mal. Minha mulher diz que eu fico com TPM”, brinca.
Grávido
Ele e sua mulher Kim já têm um filho, Joseph Moe Johnson, de 2 anos. Jack não marcou shows no segundo semestre porque ela vai ter outro bebê.
Marcado
Um acidente, aos 17 anos, mudou a sua vida – e o seu rosto. Ele caiu da prancha e bateu a cabeça nos corais. Quebrou o nariz, sofreu cortes profundos e ganhou uma cicatriz na testa. Durante o repouso, não largou o violão. E oito meses depois, já estava no mar de novo.
No Brasil
O cantor vem ao Brasil nos dias 7 (no Skol Arena, em São Paulo) e 8 (na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro). O cara não tem muita frescura, só pediu um cardápio natureba, com gengibre, brotos e leite de soja. Por aqui, as coisas vão ser tão corridas, que ele não vai poder nem dar uma quedinha no mar. No dia 9, já embarca direto para o Japão.





