Melhor Performance de Pop Asiático no Grammy: inclui ou segrega?

Nova categoria gerou debate entre os fãs de BTS e outros artistas asiáticos, além e dividir a opinião da crítica. Vem entender!

Por Gustavo Balducci 20 jun 2026, 09h00
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A relação entre o Grammy e a música pop asiática acaba de entrar em um novo capítulo. A Recording Academy anunciou nesta semana a criação da categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática, que passará a integrar oficialmente a premiação a partir da edição de 2027. A novidade contempla gêneros como K-pop, J-pop e C-pop, desde que as obras apresentem uso significativo de um ou mais idiomas locais e não sejam cantadas inteiramente em inglês.

Segundo a organização, a nova categoria busca refletir a expansão global da música asiática e reconhecer artistas que vêm conquistando espaço cada vez maior no mercado internacional. O CEO da Recording Academy, Harvey Mason Jr., afirmou que as mudanças representam o crescimento do ecossistema musical contemporâneo e a diversidade de criadores que moldam a indústria atualmente.

À primeira vista, a decisão parece uma vitória para os artistas. Afinal, poucas cenas musicais tiveram um impacto tão grande na cultura pop na última década quanto o K-pop. No entanto, a recepção entre fãs e parte da indústria foi muito mais complexa do que a Academia talvez esperasse.

A principal crítica é simples: em vez de competir lado a lado com artistas ocidentais nas principais categorias, os artistas asiáticos agora ganham um espaço próprio, separado. Para muitos fãs, isso cria uma espécie de segregação musical, reforçando a ideia de que o pop produzido na Ásia continua sendo visto como algo à parte da indústria dominante estadunidense e branca.

A discussão lembra debates antigos sobre categorias específicas para música latina e outros segmentos criados historicamente pelo Grammy. Embora essas categorias tenham ampliado a visibilidade de determinados nomes, críticos argumentam que elas também funcionam como uma barreira invisível que dificulta o acesso às principais disputas da noite, como Álbum do Ano, Gravação do Ano e Canção do Ano.

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Adam Merter Birson, um membro da Academia, publicou um comentário sobre a polêmica. “O fandom ARMY deveria pressionar para que o BTS vença como álbum do ano, e não ser relegado à categoria de melhor pop asiático. Ela é ótima para artistas menores serem reconhecidos, mas o BTS é grande e importante demais para cair nessa armadilha”, disse ele.

Nas redes sociais, muitos fãs destacaram que o objetivo nunca foi conquistar uma categoria exclusiva para o K-pop, mas sim ver seus grupos favoritos sendo reconhecidos em igualdade de condições dentro das categorias gerais.

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A reação negativa também não surgiu do nada. Ela é consequência de um histórico de desconfiança construído ao longo dos anos entre o Grammy e os artistas asiáticos, e nenhum caso simboliza melhor essa relação do que o BTS.

O grupo foi responsável por uma transformação sem precedentes na música. Tornou-se o primeiro ato sul-coreano a liderar a principal parada dos Estados Unidos, acumulou múltiplos números 1 na Billboard Hot 100, esgotou estádios ao redor do mundo e ajudou a consolidar o K-pop como um fenômeno. Mesmo assim, o reconhecimento da Recording Academy sempre foi limitado.

O BTS até recebeu indicações ao Grammy ao longo dos últimos anos, incluindo categorias importantes como Best Pop Duo/Group Performance, Best Music Video e participações em projetos indicados a Álbum do Ano. Ainda assim, o grupo jamais venceu um gramofone.

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Para muitos fãs, as sucessivas derrotas se tornaram um símbolo da resistência da premiação em abraçar plenamente artistas que cantam fora do eixo tradicional anglófono. Recentemente, o próprio grupo já comentou sobre isso. “Você vê muitos indicados relacionados a K-Pop nas categorias gerais e, realmente, quero mandar um grande aplauso para eles. Quero dizer, vamos tentar. Talvez a gente submeta nosso álbum ao Grammy de novo. Mas não sei, nós não queremos ficar desesperadamente ansiosos por isso”, declarou RM em entrevista à revista GQ.

A situação se torna ainda mais controversa quando comparada ao impacto cultural e comercial alcançado pelo grupo. Enquanto seus recordes frequentemente rivalizavam ou superavam os de artistas premiados pela Academia, o reconhecimento institucional nunca veio na mesma proporção.

Isso não significa que a nova categoria seja necessariamente uma má ideia. Existe um argumento de que a música asiática atingiu um nível de relevância global que justifica uma categoria própria. O K-pop movimenta bilhões de dólares anualmente, influencia moda, entretenimento e comportamento em escala mundial, enquanto cenas como J-pop e C-pop continuam expandindo sua presença internacional.

Sob essa perspectiva, a criação da categoria pode representar um passo importante para reconhecer artistas que historicamente receberam pouca atenção da Academia. O problema é que o anúncio chega em um momento em que muitos fãs esperavam algo diferente: não uma nova prateleira para esses nomes, mas a derrubada das barreiras que ainda dificultam sua presença nas principais categorias da premiação.

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Por isso, a pergunta que domina o debate não é se o K-pop merece uma categoria própria. A maioria concorda que merece. A questão é outra. Por que artistas asiáticos ainda precisam de uma categoria específica para serem reconhecidos quando já provaram, há anos, que conseguem competir em pé de igualdade com qualquer nome da indústria pop mundial?

A resposta que o Grammy der a essa pergunta será o verdadeiro teste para saber se a nova era da premiação representa inclusão ou apenas mais uma forma de exclusão cultural.

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