Um novo jeito de ver Malala Yousafzai | Capricho

Um novo jeito de ver Malala Yousafzai

O filme baseado na vida da ativista paquistanesa mostra que o importante é se inspirar nas semelhanças para entender as diferenças.

Por Isabella Otto Atualizado em 12 jul 2017, 18h39 - Publicado em 5 nov 2015, 12h40

O sofrimento dos outros nunca é maior que o nosso. Às vezes, quando vemos pessoas sofrendo em noticiários de TV, mesmo que sem querer, tendemos a minimizar a dor delas. E isso não é algo condenável, porque, na maioria dos casos, nós não estamos sentindo na pele o que aquela pessoa está sentindo. Então, como julgar?

Façamos um exercício. Imagine-se nas seguintes situações :

1. você, por ser uma garota, não tem direito à mesma educação que os meninos recebem, porque, afinal, não precisa disso para cuidar da casa;

2. você não concorda com isso. Você quer estudar, quer ir à escola, quer ter uma profissão, mas sabe que se contra argumentar, toda a sua família corre perigo;

3. você não pode voltar para a sua casa nunca mais, pois sabe que, se voltar, vai ser morta.

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Se você conseguiu sentir um pinguinho do desespero que é viver nessa situação, conseguiu entender, mesmo que superficialmente, como é ser Malala Yousafzai .

Aos 18 anos, a adolescente já ganhou um Prêmio Nobel da Paz, lançou um livro e agora ganhou um filme, He Named Me Malala, que estreia nos cinemas dia 19 . Mas a paquistanesa não pode voltar para a sua casa no Vale do Swat, no Paquistão, porque aqueles mesmos talibãs que a balearam na cabeça, quando ela tinha 15 anos, estão a esperando com as mesmas armas em mãos.

Não há glamour em ser Malala. Apesar dos prêmios, das capas de revista, das entrevistas. Isso o filme deixa claro. Aliás, você e a paquistanesa podem ter mais coisas em comum do que imagina! Vamos ver: Malala vive brigando com os irmãos (principalmente, com o mais novo), adora procurar fotos dos ídolos no Google (entre eles, o tenista Federer e o ator Brad Pitt), tem um grave problema com as aulas de física, sente-se muitas vezes sozinha no colégio novo, sente falta das amigas de infância, contesta diversas vezes a opinião da mãe e devora livros e mais livros. Ah! Sem falar que tem uma séria crush pelos Minions.

Agora as diferenças: Malala faz parte de uma tradicional família paquistanesa e foi a primeira garota a entrar para a árvore genealógica dos Yousafzai (com mais de 300 anos, o registro não tinha o nome de nenhuma mulher; só de homens), ela não pode ter encontros com garotos nem namorar, ela tem pesadelos terríveis com a época em que ainda vivia no Vale do Swat e checava as trancas das portas de casa incansavelmente para se certificar de que nenhum membro do Talibã pudesse entrar e assassinar o seu pai (que já era um ativista). Ah! Ela é surda do ouvido esquerdo e passou meses no hospital e em recuperação, após levar um tiro na cabeça, pois queria frequentar a escola e queria que as outras 400 milhões de meninas ao redor do mundo, que são privadas do direito à educação, também tivessem essa chance.

As diferenças podem ser gritantes, mas são nas semelhanças que nos apegamos a alguém. Por isso, da próxima vez em que você ver Malala na TV, nas livrarias, na tela do computador ou do cinema, lembre-se de que ela é uma adolescente assim como você, com alguns gostos parecidos, inseguranças típicas da idade, mas que não pode voltar para casa, que vê a mãe chorar frequentemente, pois sente falta do seu país, que precisa superar as expectativas de uma infinidade de gente e lidar, ao mesmo tempo, com as ameaças constantes de Fazlullah, líder islâmico que comanda o grupo Talibã.

Esperamos que, agora, Malala tenha deixado de ser apenas “aquela garota famosa que desafiou o Talibã” (mas que, na verdade, você nem entenda o porquê de a luta dela ser tão importante). Porque como ela mesma diz em uma das cenas do filme: “apenas uma garota normal”.

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