Por que ser fã é um exagero, mas chorar por time de futebol é normal?

Jão foi certeiro ao questionar a hipocrisia e machismo presente nas críticas aos seus fãs

Por Juliana Morales 3 abr 2025, 18h33
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e você é uma fangirl, provavelmente, já deve ter recebido pelo menos algum comentário tentando invalidar seu sentimento pelo seu ídolo ou te taxando como exagerada ou histérica. Enquanto o fanatismo de torcedores para com seus times de futebol é visto como um sentimento especial e legal.

Jão foi cirúrgico quando falou sobre isso em um trecho do making of da SUPERTURNÊ, divulgado no Youtube, na última semana. “No fim, eu acho meio hipócrita os caras acharem normal tatuarem brasões de time, chorarem por jogadores de futebol, e quando são os meus fãs tatuando, chorando, se expressando, aí já é demais”, diz.

A fala do cantor viralizou nas redes sociais e foi usado por muitos fãs para rebater as críticas e comentários maldosos que eles recebem, quando, por exemplo, vão assistir um filme do ídolo nos cinemas. “Os caras podem parar uma cidade em dia de clássico, mas eu não posso ir ai cinema e pular na frente do telão ao som das músicas que eu gosto”, escreveu uma fã em um comentário.

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Julgamentos como esses, infelizmente, são muito comuns em relação aos diferentes fandons, e são feitos até nas situações mais difíceis. Quando Liam Payne faleceu, no dia 16 de outubro de 2024, as fãs, que acompanham ele desde da época do One Direction e nutriam um sentimento muito forte, precisaram lidar com o luto e a perda repentina e trágica, mas tiveram o sentimento invalidado por pessoas que não sabem o que significa ser fã. A Sofia Duarte, repórter da CAPRICHO e fã do Liam, escreveu um texto sobre isso na época e explicou como viver o luto de um ídolo só foi possível com o apoio de outros fãs.

Essas invalidações e preconceitos não são justos e nem fazem sentido. Quem é fã sabe que trata-se de um sentimento único, que desperta emoções profundas e se conecta com nossas experiências pessoais. Além disso, a relação entre fã e o ídolo proporciona aprendizados únicos, desde facilitar a compreensão de um novo idioma até entender mais sobre si mesmo – como a redação da CH falou neste outro texto aqui.

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Acontece que a diferença no tratamento dos fãs e dos torcedores dos times de futebol está diretamente ligada à mentalidade machista que perpassa nossa sociedade e cultura. Enquanto a idolatria masculina significa lealdade e paixão, a da mulher é sinônimo de infantilidade, histeria ou “culpa dos hormônios”.

Essa hipocrisia, que Jão questionou, também foi tratada pela roteirista e compositora Yve Blake, criadora do musical Fangirls, em um TED Talk de 2020. Na palestra, ela questiona: “se as meninas crescem em um mundo em que palavras como louca, psicótica e histérica são usadas casualmente para descrever o entusiasmo feminino, como isso molda a maneira como essas meninas veem a si mesmas?”.

Yve diz que essa tentativa de propagar o rebaixamento feminino é uma tática machista antiga. Colocar as fãs como histéricas é munição para que meninas assumam serem menos capazes de racionalizar, de ter o mesmo respeito intelectual que os homens.

Mas a verdade é que fãs sabem fazer uma coisa que muita gente não consegue, diz a roteirista: “fangirls sabem amar sem desculpa ou medo”.

 

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