Negros não devem ser rotulados apenas à escravidão

Festival Preta Potência, que reuniu obras de arte de 18 jovens negros, teve a participação de Rincon Sapiência e da poeta Kimani.

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 26 Maio 2019, 10h14 - Publicado em 26 Maio 2019, 10h01

Quando o assunto é negritude, qual a primeira coisa que vem à cabeça? Provavelmente, muita gente deve ter pensado em escravidão. E é “natural”, já que a maior parte das informações que recebemos sobre questões afros estão ligadas a essa relação de opressão. Mas o Festival Pretas Potências, que aconteceu no sábado,11, no Red Bull Station, em São Paulo, entrou em cena para mudar essa ideia de pensar em negritude apenas como escravidão.

Alguns dos convidados do eventos palestrando em um painel. Arquivo pessoal/Reprodução

A 2ª edição do evento, criada pela Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, maior evento de cultura negra da América Latina, usou o Dia da Abolição da Escravatura, 13 de maio, para mostrar as potências dos negros que nem sempre são vistas. Teve bate-papo sobre culturas urbanas com a poetisa Kimani, o grafiteiro Toddy e o rapper Rincon Sapiência, feira com marcas de roupa, livros e acessórios, além de instalações de arte com obras de 18 jovens negros.

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    Assim como o Dia Internacional da Mulher, o Dia da Abolição não é uma data de comemoração. Pelo contrário, integrantes do movimento negro e historiadores questionam essa valorização extrema da imagem da Princesa Isabel, como a branca que assinou um documento e acabou com todos os problemas dos negros escravizados. Vale lembrar também que a abolição aconteceu por pressão dos ingleses e fazendeiros, que pensavam apenas nos benefícios financeiros, ou seja, quantos mais pessoas livres e com dinheiro para consumir, mais eles lucravam. Por isso, o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, é bem mais respeitado pelos afrodescentes, já que simboliza a luta de pessoas que realmente correram atrás de mudanças concretas, como Zumbi dos Palmares, Dandara, Luiz Gama, entre outros.

    Jovens negros que foram escolhidos para participar do Festival Pretas Potências. Arquivo pessoal/Reprodução

    Adriana Barbosa explicou como feita a escolha dos participantes: “esse ano, a Feira Preta completa 18 anos de existência. Por isso, chamamos esse número de jovens pra pensar a negritude no presente, passado e futuro”. Antes de apresentar as obras no Festival, os participantes tiveram dois encontros. “Eles fizeram vários para refletirem sobre suas particularidades, além de terem encontros com griôs, pessoas mais velhas que, na cultura africana, são responsáveis por passar ensinamentos aos mais novos”, disse Adriana.

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    Aniké Pellegrini, uma das jovens potência e da Galera Capricho 2018, contou pra gente como foi a experiência: “dizer que eu saí de lá outra pessoa é algo que não posso dizer, porque eu continuo sendo a Aniké. Mas dizer que eu saí de lá maior e mais forte, eu posso. Em três dias, entendi melhor quem eu sou, para onde quero ir, qual minha identidade, meu reflexo, minha fala, minha escuta, posicionamento. Entendi melhor sobre minha existência e minha luz”.

    Algumas das instalações produzidas pelos 18 jovens negros no Red Bull Station. Arquivo pessoal/Reprodução

    Outra potência preta que conversou com a gente no evento foi o produtor cultural Charles Borges. Na sua instalação cultura, todos os visitantes eram convidados a escrever uma palavra ou frase na parede. “Isso é importante não só para mim, mas para todos os outros jovens que passaram por aqui hoje. Muitas vezes o jovem negro e periférico é banido da arte e da cultura. Então, o evento deu uma oportunidade de usarmos a arte como combustível para ter força”, explicou Charles.

    Os participantes do bate-papo também deixaram mensagens inspiradoras para o público sobre acreditar na cultura e incentivar o trabalho de afrodescendentes. O rapper Rincon Sapiência, por exemplo, falou sobre a escolha das pessoas que trabalham como ele. “Ao longo do tempo, sempre vi gente na minha quebrada [Cohab 1- Zona Leste de São Paulo] fazendo vários trampos legais. Por isso, criei o selo MGoma para tentar colocar eles como colaboradores do meu trabalho”, disse o rapper.

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    Representando a literatura marginal, a poeta Kimani, do Slam do Grajaú, um dos maiores campeonatos de poesia do Brasil, comentou o que a levou para as batalhas: “Vi que o povo preto tem essa necessidade de ser visto. E foi por isso que eu vim pro slam. Estar bem no palco, com um microfone acaba sendo uma maneira de compensar todas as situações que invisibilidade por mulher negra”. Além disso, a poetisa também explicou a importância que o slam tem, principalmente na periferia. “Percebi que o processo é muito mais embaixo, quando vi que dava para salvar a vida lá. Tem mina que estava em um relacionamento abusivo, por exemplo, e só foi perceber com as ideias da poesia”.

    Já o grafiteiro Toddy, que faz parte do coletivo OPNI e criou uma frente social também na Zona Leste de São Paulo, levantou um ponto importante: a saúde mental de quem vive na periferia. Para ele, a arte funciona como um calmante para seguir na rotina acelerada. “O grafite me ajuda muito a ter um encontro comigo mesmo. Nós tivemos boas referências ideológicas, mas quase ninguém fala sobre o cuidado de se manter bem. E é na favela, na minha base, que consigo manter os pés no chão”.

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