Mulheres endividadas e que mandam nudes também podem ser estupradas

Existem pessoas que se aproveitam de outras e desvalidam movimentos? Sim. Mas usar dívidas e nudes para tentar provar a inocência de alguém é desconexo.

Por Isabella Otto Atualizado em 5 jun 2019, 17h21 - Publicado em 5 jun 2019, 13h00

É muito difícil escrever qualquer texto sobre feminismo, cultura do estupro e assuntos que têm algum tipo de relação com a sociedade patriarcal porque as pessoas em geral parecem já ter uma opinião bastante formada e engessada. Você pode até falar, mas nem todos estão dispostos a ouvir e/ou participar de um debate saudável. É por isso que quero começar este texto falando que não estou defendendo lados ou julgando pessoas. Atitudes, sim. Pessoas, (ainda) não. Mas vamos lá.

Você já deve estar sabendo que o Neymar Jr. foi acusado de estupro, certo? E que depois divulgou partes de mensagens íntimas que trocou com a vítima na tentativa de provar sua inocência? E que o vídeo foi retirado do ar por fazer parte de uma investigação policial sigilosa? Essas são algumas das últimas notícias com relação ao caso e, desde que compartilhou as conversas de WhatsApp, aconteceram duas coisas: o jogador virou meme e a vítima se tornou ainda mais odiada.

Matéria que está sendo compartilhada por pessoas na tentativa de provar a inocência de Neymar e o interesse da menina que o acusou. Reprodução/Reprodução

Uma das matérias que mais tenho visto pipocar no meu feed de notícias do Facebook tem o seguinte título: “Mulher que acusou Neymar de estupro tem dívida de R$ 30 mil e ação de despejo”. As pessoas, em sua grande maioria, estão compartilhando a notícia para mostrar como a mulher é uma enganadora, uma interesseira e uma vagabunda. Isso porque ela, na visão dessas pessoas, está tentando usar o nome do camisa 10 da Seleção Brasileira de Futebol para ganhar uma grana e, consequentemente, pagar suas dívidas. Pode ser? Pode. Por enquanto, o inquérito ainda está em andamento e o martelo não foi batido. Mas uma coisa não pode ser nunca: usar o fato de a mulher ser endividada para “provar” que um abuso sexual não aconteceu. Pasmem, mas mulheres com o nome sujo também podem ser estupradas. Levando em conta que 41% da população adulta brasileira têm dívidas, segundo levantamento divulgado pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e pelo SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), esse fato se torna ainda mais incontestável.

 

Tudo bem, talvez não tenha nada a ver mesmo tentar justificar um estupro com dívidas, mesmo que o acusado em questão seja um dos nomes mais conhecidos do futebol mundial, mas e aquelas mensagens que a mulher mandou para o Neymar? Com certeza, “ela estava pedindo”. É muito tentador se posicionar contra uma pessoa que acusa outra de abuso sexual mas troca um monte de nudes e mensagens picantes com ela. Se essa pessoa é uma mulher, piorou! Você pode até falar que não, que as coisas mudaram (e um pouquinho, já era tempo, mudaram mesmo), mas uma mulher que envia fotos íntimas é ainda muito mais julgada pela sociedade que um homem que envia por Snapchat ou Stories fotos do seu órgão sexual – sem que ninguém as tenha pedido. Então, é óbvio que a moça que acusa Neymar estava querendo algo. Afinal, ela deixou isso claro no WhatsApp, viajou para Paris com tudo pago e falou para o atleta se encontrar com ela em seu quarto de hotel. Não estava querendo? Não.

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É complicado e tentador, eu sei. Às vezes, também me pego pensando como as pessoas abaixo, que comentaram sobre o Caso Neymar no Twitter. Mas pasmem parte 2 mulheres que mandam nudes também podem ser estupradas. E o fato de elas terem mandado fotos íntimas para o estuprador não recai sobre elas. Ou não deveria recair. Até porque a culpa de um estupro é sempre do estuprador, não de uma foto, de uma roupa ou de uma mensagem. É óbvio que cada caso deve ser analisado separadamente, levando em conta as provas em questão. Usar mensagens íntimas para tentar incriminar a vítima, entretanto, não é uma opção. Até porque, se você expuser essas mensagens como fez o jogador, pode responder por suspeita de crime virtual. Ou seja, você pode não ter cometido um crime sexual, mas pode cometer um de internet. Ou pior: pode cometer mais um crime ao tentar justificar outro.

Decidi redigir os comentários e não dar print para tentar preservar a identidade das pessoas ao máximo. Reprodução/Reprodução

Agora que todo mundo já descobriu que mulheres endividadas e que mandam nudes podem mesmo ser vítimas de estupro, vamos tentar esclarecer mais um ponto, ainda usando como exemplo o Caso Neymar. A mulher pode ter convidado o atleta para o quarto dela, trocado mensagens de cunho sexual no dia seguinte e ainda assim ter sido vítima de violação sexual? Sim, pode acontecer. Para entender isso, vamos primeiro a pedir ajuda dos universitários de um dicionário. Segundo o Michaelis, a definição para a palavra estupro é “1. crime que consiste em constranger alguém a manter relações sexuais por meio de violência, forçamento, violação; 2. violência carnal”. Logo, você pode estar de boa, curtindo as preliminares e o momento e, de repente, mudar de ideia e decidir que não quer mais transar ou, melhor dizendo, consumar o ato (lê-se “envolver a penetração no assunto”). Se a outra pessoa não aceitar essa decisão, ir contra sua vontade e usar de força física para chegar aos finalmentes, seja essa pessoa um desconhecido ou seu marido, sim, você foi estuprada.

Para entender ainda mais essa questão, vamos usar alguns dados coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2018. No Brasil, uma em cada 4 mulheres já sofreu algum tipo de violência, sendo que 42% dos casos ocorreram no ambiente doméstico, ou seja, dentro de casa. Analisando esse quadro, a proporção é de que 8 em cada 10 mulheres foram violentadas por algum conhecido, sendo namorados ou maridos os principais agressores. Levando em conta que 52% das vítimas não denunciam, pode-se afirmar que a maioria das mulheres que já foi vítima de um crime sexual continuou trocando mensagens com o parceiro e transando com ele. A vítima então pode ter tido conversas íntimas com o Neymar um dia depois de ter sido estuprada? Pode. Mais uma vez, não estamos dizendo que isso realmente aconteceu, só que a hipótese de ter acontecido não é assim tão absurda. Em seu blog pessoal chamado Escreva, Lola, Escreva, a professora e doutora em Literatura e Língua Inglesa pela UFSC Lola Aronovich aponta o seguinte: “é uma coisa assustadora, mas boa parte das mulheres transa com o mesmo cara depois de ser estuprada. Há muitos casos de mulheres que são estupradas e se encontram com o sujeito outra vez, e são estupradas de novo. Quem não entende como isso é frequente deve pensar que estupro só é cometido pelo total estranho numa rua deserta à noite. 70% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. Na maior parte das vezes a vítima não corta contato com o marido, namorado, chefe, pai, tio, amigo que a estuprou. É até um mecanismo de defesa: ela transa com ele novamente para tentar se convencer que não foi estupro“.

 

É tentador culpar a mulher, principalmente em casos em que o homem em questão é poderoso e rico, e ela uma “anônima que não se dá ao respeito”. A cultura do estupro não só existe como estamos acompanhando ela de pertinho. Não é preciso que o inquérito seja finalizado para notar que usar dívidas e nudes como “provas” contra um estupro fazem parte dela. Às vezes, compactuamos com essa cultura sem perceber. Outras, por querer. Ela não é um “jovenzinho de 27 anos”. É experiente, com muitos e muitos anos de vida. Entender que ela existe, veja bem, não é deixar de dar margem para dúvidas. Existem pessoas que, é verdade, se aproveitam de outras e desvalidam todo um movimento para ganhar dinheiro ou cinco minutos de fama, seja ela positiva ou negativa. Mas, se é para dar o benefício da dúvida, que ele seja igualitário para ambas as partes, porque, às vezes, parece mesmo muito mais fácil ficar do lado de quem já conhecemos (mesmo ilusoriamente) há mais tempo, né?

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