“Me enganou, me drogou e me estuprou”, desabafa atriz sobre diretor famoso

Juliana Lohmann foi estuprada aos 18 anos e passou quase metade da vida se culpando. Hoje, aos 30, ela enfim se liberta e dá força a outras mulheres

Por Isabella Otto Atualizado em 14 jul 2020, 20h58 - Publicado em 14 jul 2020, 13h30

Foi em Malhação, em 2002, que Juliana Lohmann fez sua primeira atuação em uma novela. Depois, surgiram outros trabalhos até que, em 2011, quando tinha 22 anos, a atriz voltou para Malhação, dando vida à personagem Débora, filha de Letícia Spiller. Esbanjando juventude e com aquele sorriso de quem faz o que ama no rosto, era difícil perceber sinais de que, há pouco tempo, quando tinha 18, a carioca havia sido estuprada por um famoso diretor de cinema.

Juliana Lohmann em foto tirada pelo atual namorado @felipeovelha/Instagram

Foi só hoje, aos 30, que Juliana conseguiu se desprender da culpa que sentia e que foi atribuída a ela por pessoas como um de seus ex-namorados, que, inclusive, era abusivo e a agredia psicológica e fisicamente. “Ouvi que se eu realmente não quisesse ter transado, eu teria jogado um abajur na cara do sujeito”, disse em relato que escreveu para a CLAUDIA.

Nele, a atriz narra como o caso de estupro aconteceu e como o homem branco, rico e influente se aproveitou de seu privilégio para estuprar uma menina de 18 anos, que tinha viajado sozinha pela primeira vez para se encontrar com ele e, quem sabe, conseguir o papel no filme que estava produzindo na época. “Ele me ligou e me chamou diretamente. Era em São Paulo e eu sou do Rio de Janeiro. Perguntei se podia levar minha mãe. Não, ele não poderia pagar mais uma passagem. Pediu desculpas. Fui mesmo assim. (…) Me senti uma desbravadora de novos horizontes, pronta pra fazer cinema. Passei a madrugada estudando a personagem, cheguei com a cabeça cheia de ideias e perguntas. Me instalei no quarto do hotel e, em seguida, a convite dele, nos encontramos em seu apart, no último andar desse mesmo hotel, pra conversarmos um pouco sobre o roteiro”, contou.

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    O crime aconteceu no apart do diretor, que tinha acima da cama, atrás de um quadro, um compartimento secreto cheio de preservativos. “Aquilo me deu a sensação de que eu não era a única pela qual ele ‘tinha se encantado'”, lembra Juliana. O diretor a convenceu de que seria uma boa ideia usar maconha para ajudá-la a entrar na personagem, que precisava de “mais loucura”. Contra sua vontade, ela aceitou. Depois, o cara disse que nada foi premeditado, que ele realmente queria fazer o teste com ela – mas o quadro na parede denunciava que ele não estava falando a verdade. “Tive que insistir muito pra ele pelo menos colocar a camisinha, o que fez somente depois de algum tempo de penetração. (…) Colocou a proteção, mas retirou logo em seguida, ejaculando dentro de mim. (…) No dia seguinte, de manhã, fui acordada por seu membro invadindo minha vagina. (…) Ele ejaculou dentro, de novo”, relembra a atriz, que não tinha forças para se desvencilhar dele e estava com medo de fazer um escândalo. Podiam falar mal dela, afinal ela estava no apart de um homem casado, e sua carreira poderia acabar antes mesmo de começar. “Eu tinha me colocado naquela situação”, era o que passava pela sua cabeça: “Ele me enganou, me drogou e me estuprou.”

    Alguns anos mais tarde, Lohmann ficou presa a um relacionamento abusivo e admite que os traumas causados pelo estupro a acompanhavam dia e noite. “Toda vez que sentia um pouco de agressividade numa relação sexual, engatava num choro compulsivo. (…) Uma vez, ele [o namorado abusivo] colocou a tesoura no meu pescoço e disse que ia me cortar inteirinha. (…) Tive muito medo de morrer. Tinha medo de pedir ajuda, de contar pra alguém“, relatou à CLAUDIA. Quando finalmente conseguiu se libertar, ela descobriu que havia contraído uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível). A jovem só havia transado com o então namorado enquanto estavam juntos, o que provou que ele também a traía. “Até hoje não se sabe até que ponto minhas trompas foram obstruídas”, explicou.

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    Falar sobre o estupro que vivi aos 18 anos e as agressões provenientes de uma relação abusiva de tempos depois é resultado de um processo muito longo de elaboração. São acontecimentos que habitam meu íntimo de maneira muito profunda e constituem grande parte da mulher que me torno a cada dia. Essas memórias perduraram por tempo demais no silêncio e na dúvida que a estrutura patriarcal nos faz ter acerca das próprias marcas que nos infringem. Ajo movida pela força da certeza de que não podemos mais nos calar. Precisamos falar sobre as estruturas de opressão sob as quais as mulheres estão submetidas, sobre o machismo, sobre violência doméstica, sobre relacionamento abusivo, sobre estupro. Exponho esse relato no intuito de, além de jogar luz nessas questões, fazer com que outras mulheres, que talvez possam se identificar com tais acontecimentos, tenham mais clareza acerca das próprias experiências. Meu desejo, ao expor esse relato pessoal, é de denúncia. Não apenas da forma de operar desses homens, mas principalmente de um sistema. Esse isolamento me levou ao reencontro da coragem. Mas, nessa caminhada, tive pessoas que me deram a mão com muito amor. Obrigada @sayonarasarti @novacomunicacao pela confiança, escuta e parceria, e @claudiaonline @isadercole por ter me aberto esse espaço tão precioso. O link pra ler a matéria completa está na bio.

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    Juliana Lohmann passou praticamente metade da vida na dúvida se realmente não foi a culpada por todas essas situações em que, na cabeça dela, havia se colocado: o estupro, a relação abusiva… “Esse diretor usou de sua posição de poder, não só por ser um homem branco muito mais velho, mas principalmente por ser o diretor do filme, responsável por decidir se eu trabalharia ali ou não. (…) E o namorado a seguir também usou de sua posição para me violentar física, verbal e psicologicamente, me fazendo acreditar que o amor é exatamente a submissão, o silenciamento e a destruição de toda potência, liberdade e beleza feminina“, contou.

    Com o relato, a atriz deseja abrir os olhos de outras mulheres que possam ter passado ou estejam passando por situações parecidas, e encorajá-las a tomar uma atitude e, principalmente, se libertar da culpa. “As marcas, se não compartilhadas e transformadas, aumentam através dos tempos. A minha libertação não é só minha; ela encontra eco e força em outras vozes que vieram antes de mim, e também se faz coro às que virão depois“.

    No Instagram, o atual parceiro de Juliana, Felipe Araujo Lima, exaltou a coragem da namorada: “Decidiu fazer um corajoso relato, decidiu expor suas dores e marcas, decidiu falar sobre aquilo que tão pouco se fala, mas que é absolutamente necessário para transformar essa sociedade governada por machos assassinos e abusadores. Por favor, tome seu tempo para ler com cuidado. Compartilhe com todos, mas, principalmente, com aquelas mulheres que vocês sabem que já viveram ou que ainda vivem situações de abuso e opressão masculina. Não tem mais volta”, escreveu.

    O relato completo da atriz você encontra no site da CLAUDIA

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