E você, já sentiu raiva sem culpa hoje?

"Quando bem usado, esse sentimento nos ajuda a progredir", garantiu a ativista do movimento negro Angela Davis em evento em SP. Você concorda?

Por Ana Carolina Pinheiro 2 nov 2019, 10h05

Dar uma topada na cama, ver uma situação de injustiça ou esquecer um compromisso importante. Escolhi esses exemplos, porque, vire e mexe, eles me causam raiva, seja de alguém ou de mim mesma. Mas, com certeza, cada um tem os seus gatilhos para despertar e intensificar esse sentimento natural do ser humano.

SkyNext/Getty Images

Mesmo sendo algo normal, a raiva parece receber um selo de tolerância dependendo do gênero e da etnia. Se uma garota tem uma fala séria ou simplesmente prática, especialistas em achismo já podem relacionar o comportamento dela com TPM, por exemplo. O que pode até ser real, mas não é uma regra. Se formos parar para pensar, ninguém fica tentando generalizar a raiva de um homem, não é mesmo?

Para os negros, principalmente para as mulheres negras, também rola um estereótipo de ser “raivoso”. Escravidão, racismo e silenciamento podem, sim, impactar o jeito que nos expressamos, mas julgar essas reações não é algo legal. Não é difícil encontrar pessoas brancas, até as mais desconstruídas, apontando exageros em atitudes de mulheres negras, seja por “enxergar racismo em tudo” ou por situações afetivas entre homens negros e mulheres brancas, também conhecida como palmitagem. Ah! Se esse termo é estranho pra você, já falei sobre o assunto aqui na coluna.

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    Já ouvi muita gente falar do meu jeito calmo para falar sobre assuntos espinhosos, mas questionando o porquê de outras pessoas não serem assim. E a resposta é óbvia: cada um tem um jeito e vivências diferentes. Por isso, é importante respeitar as escolhas dos outros, mesmo que a sua opinião seja diferente.

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    Os desdobramentos do racismo, do machismo, da lgbtfobia e de outras formas de repressão não servem como passe livre para ninguém ofender alguém ou coisa do tipo, mas explicam muita coisa. Por isso, o melhor mesmo é tentar entender os motivos que levaram essa pessoa a não estar confortável em alguma situação do que simplesmente julgar.

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    Durante uma conferência em São Paulo na semana passada, Angela Davis, um dos principais nomes do movimento negro mundial, recebeu à pergunta: “como não ser um negro raivoso?”, que inclusive, me fez escolher esse tema para conversarmos aqui. A professora e filósofa respondeu que não há nada de errado com a raiva. Para a ativista, a raiva só é ruim quando é mal direcionada. “Quando bem usado, esse sentimento nos ajuda a progredir”, comentou.

    Ou seja, tá tudo bem sentir raiva. E, mais do que isso, suprir esse sentimento por medo do que vão achar não é saudável. Porém, é importante ficar de olho para que você não fique de lado. Será que vale a pena gastar tanta energia em algo que vai te deixar pior depois? Tento me fazer essa pergunta quando a raiva chega e costuma funcionar para pelo menos ter uma noção do quão fora da casinha eu estou.

    E você, como lida com esse sentimento aí dentro? Já parou para pensar se já julgou a raiva do próximo? Conta nos comentários ou manda um e-mail para anacarolipa16@gmail.com. Sugestões de temas para a coluna O Nosso Lado da História também são sempre bem-vindas!

    Beijos,
    @anacarolipa

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