É no “lar doce lar” que mais mulheres morrem vítimas do feminicídio

Deveria ser um local de segurança, mas, de acordo com novo relatório da ONU, é onde grande parte das mulheres sofre violência e é assassinada

Por Isabella Otto - Atualizado em 30 mar 2020, 19h19 - Publicado em 30 mar 2020, 17h30
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CAPRICHO/Divulgação

No Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, 25 de novembro, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um novo relatório sobre feminicídio. De acordo com o levantamento, 6 mulheres morrem a cada hora no mundo. Ou seja, mais de 130 mulheres são mortas diariamente por cometerem apenas um crime: serem do sexo feminino.

Violência doméstica faz vítimas no mundo todo e é uma das que mais mata Choja/Getty Images

Outro dado foi reforçado pelo recente relatório: a maioria das vítimas de feminicídio é morta por homens próximos, com quem mantém ou mantinha algum tipo de relação. Em 2017, 58% dos assassinatos foram cometidos por maridos, ex-namorados e familiares. Neste ano, o número se manteve, provando que o ambiente domiciliar está longe de ser seguro.

Deveria ser o contrário, certo? Na verdade, nenhuma das opções deveria ser aceita, mas é socialmente mais defensável que a mulher se sinta mais vulnerável na rua e mais protegia em sua residência. Na prática, isso não acontece. Esse número explica a grande quantidade de mulheres que é violentada dentro de casa por companheiros que, do lado de fora do lar, são vistos com bons olhos por vizinhos, conhecidos e colegas de trabalho. São “cidadãos de bem”.

“No mundo todo, em países ricos e pobres, em regiões desenvolvidas e em desenvolvimento, um total de 50 mil mulheres são assassinadas todo ano por companheiros atuais ou passados, pais, irmãos, mulheres, irmãs e outros parentes, devido ao seu papel e a sua condição de mulher”, está escrito no relatório da ONU.

No Brasil, o feminicídio não vê idade. As vítimas vão de adolescentes a idosas. Rio Grande do Norte e Mato Grosso são os estados com mais casos registrados. Em cidades do interior do nordeste e do centro-oeste, a cultura patriarcal e machista ainda é forte. A realidade é diferente das que vemos em cidades grandes do sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro. A quantidade de informações recebida por uma garota de 15 anos da classe média paulistana é diferente da quantidade de informações que recebe uma garota da mesma idade que mora em uma cidadezinha no interior da Bahia e não tem acesso à internet. A realidade é outra, a cultura é outra, o machismo sofrido, consequentemente, pode se tornar muito, mas muito mais intenso.

Simona Granati/Corbis/Getty Images

Para lutar contra a violência doméstica, a ONU lançou a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, que vai até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Durante esse período, a Organização quer estimular mulheres a desabafarem sobre casos pessoais e promover o debate, para que a informação chegue até lugares que ainda não chega e incentivar denúncias pelo mundo. “É um chamado para ouvir e acreditar nas sobreviventes, colocar fim à cultura de silêncio e que a nossa resposta tenha como foco as sobreviventes. Deve-se deixar de questionar a credibilidade da vítima”, disse Phumzile Mlambo-Ngcuka, chefe da ONU Mulheres.

A ONU também garantiu que é preciso falar sobre o assunto, inclusive nas escolas, porque o conhecimento tem um papel importante na redução das enormes taxas de feminicídio no mundo. O grande desafio é fazer isso em locais em que a sociedade machista não permite que isso acontece, seja boicotando que tal conteúdo seja tratado em sala de aula, seja não dando o direito de educação às meninas.

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