Cyberbullying: como identificar, guardar provas e pedir ajuda

Ataques em grupos, exposição de fotos e perfis criados para humilhar podem ser violência digital. Entenda o que fazer e como denunciar.

Por Andréa Martinelli 23 out 2026, 13h00
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ocê abre o celular e descobre que virou alvo de um grupo: estão espalhando mentiras sobre você, compartilhando uma foto para provocar constrangimento ou deixando ofensas em todas as suas publicações. Mesmo depois de sair da escola e chegar em casa, os ataques continuam. Esse tipo de violência tem nome: cyberbullying. E ninguém precisa enfrentar isso sozinho.

Uma pesquisa da Ipsos-Ipec citada pela CAPRICHO mostra como essas agressões aparecem na vida dos jovens. Entre as situações relatadas estão mensagens ofensivas, mentiras espalhadas pela internet, uso indevido do nome, exposição de informações pessoais e divulgação de fotos ou vídeos constrangedores.

Mas como reconhecer o problema? É possível descobrir quem está por trás de um perfil anônimo? E onde pedir ajuda? A gente explica.

Oiê, tá tudo bem?

E ei, antes de continuar a ler esse texto, leitor e leitora de CAPRICHO, a nossa reportagem gostaria de te contar que esse é um assunto delicado e difícil de ser abordado e que está tudo bem se você não quiser continuar a leitura, ok? Não sabemos se você brigou com alguém ontem, se está passando por um momento de ansiedade ou pressão antes de uma prova, por exemplo. É real e está tudo bem.

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O que é cyberbullying?

É o bullying praticado em ambientes digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos online. Envolve comportamentos intencionais e repetidos para intimidar, humilhar ou constranger alguém.

Pode acontecer quando um grupo passa a atacar uma colega todos os dias, por exemplo, ou quando uma pessoa é perseguida com comentários ofensivos em diferentes plataformas. Na internet, os compartilhamentos também podem ampliar a exposição e fazer a agressão alcançar muito mais gente.

Como diferenciar uma brincadeira de uma agressão?

Uma pergunta ajuda: todo mundo está se divertindo ou uma pessoa está sendo humilhada para divertir as outras?

Quando a situação provoca sofrimento, ultrapassa limites e continua mesmo depois de a pessoa demonstrar incômodo, dizer que era “só uma brincadeira” não resolve. Para o UNICEF, a repetição e a intenção de assustar, irritar ou envergonhar são características do cyberbullying.

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Também vale um cuidado: um ataque isolado pode não se enquadrar como cyberbullying, mas ainda assim ser grave e configurar outra violência ou crime. Você não precisa esperar que aconteça de novo para pedir ajuda. Ameaças, racismo e exposição íntima, por exemplo, precisam ser avaliados conforme as circunstâncias de cada caso.

Cyberbullying é crime?

Sim. A Lei nº 14.811, de 2024, incluiu a intimidação sistemática virtual no Código Penal. A pena prevista é de dois a quatro anos de reclusão e multa, quando a conduta não constitui crime mais grave. O enquadramento depende da análise do caso pelas autoridades.

O que fazer se isso estiver acontecendo com você?

O primeiro passo é procurar alguém de confiança: um familiar, responsável, professor ou outra pessoa adulta que possa acolher você e ajudar a interromper a violência. Se a primeira pessoa minimizar o que aconteceu, procure outra. O UNICEF recomenda buscar esse apoio para decidir os próximos passos.

A orientação da SaferNet é evitar revidar, preservar as possíveis provas e bloquear os contatos que praticam as agressões. Pedir ajuda não é exagero — e a responsabilidade pelos ataques é de quem os pratica.

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Como reunir provas para uma investigação?

Antes de apagar mensagens ou bloquear contas, se for possível fazer isso com segurança, registre o que aconteceu. Peça ajuda para não precisar revisitar os ataques sozinho. Organize os seguintes itens abaixo:

  • Capturas de tela: preserve a conversa e o contexto, com identificação do perfil, datas e horários.
  • Links: copie os endereços das publicações e das contas envolvidas.
  • Identificação dos contatos: anote nomes de usuário, números de telefone e e-mails utilizados.
  • Histórico dos episódios: registre quando começaram, em quais plataformas ocorreram e quem presenciou.
  • Arquivos e mensagens originais: mantenha o material disponível para apresentar às autoridades, sem editar os registros.

Essas informações podem ajudar a apuração. A Polícia Civil orienta guardar URLs, nomes de perfis, mensagens, datas e horários, além dos prints.

Se houver imagens íntimas, especialmente de menores de idade, não as encaminhe para amigos ou grupos para “provar” o ocorrido. Procure orientação para denunciar e preservar as informações sem ampliar a exposição.

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Um perfil anônimo não impede necessariamente uma investigação. A identificação pode envolver análise de vestígios digitais e procedimentos legais conduzidos pelas autoridades. Os registros preservados pela vítima ajudam nesse trabalho, mas não garantem, sozinhos, que a autoria será descoberta.

Você não precisa descobrir quem é a pessoa antes de procurar a polícia. Leve o que já tem. Evite confrontar suspeitos ou expor nomes por conta própria: a apuração da autoria deve ficar com as autoridades.

Onde denunciar e pedir ajuda?

Na própria plataforma: denuncie as publicações e os perfis pelas ferramentas do aplicativo. Guarde os protocolos e, depois de preservar os registros possíveis, bloqueie ou restrinja os contatos.

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Na Polícia Civil: a vítima ou seu responsável pode procurar uma delegacia para registrar um boletim de ocorrência e apresentar as provas. Não é necessário esperar encontrar uma unidade especializada em crimes digitais para buscar atendimento.

Na SaferNet: o Canal de Ajuda oferece orientação sigilosa sobre situações de violência na internet envolvendo crianças e adolescentes. Ele ajuda a entender os próximos passos, mas não substitui o registro policial nem funciona como canal de denúncias.

No Disque 100: o serviço recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo situações envolvendo crianças e adolescentes. A ligação para o número 100 é gratuita.

Na escola: quando os ataques envolvem colegas ou afetam a rotina escolar, procure a coordenação e peça que a situação seja registrada e acompanhada. O enfrentamento exige acolhimento, proteção e participação da comunidade escolar.

E se estiver acontecendo com uma amiga?

Não curta, comente para rir nem compartilhe o conteúdo ofensivo. Procure a pessoa em particular, diga que ela pode contar com você e ofereça companhia para conversar com um adulto ou fazer uma denúncia.

Segundo o UNICEF, apoiar quem sofre cyberbullying e ajudá-lo a encontrar uma pessoa de confiança são formas de agir. Você não precisa ter todas as respostas para oferecer acolhimento. Combinado?

É possível encontrar ajuda, sim

É possível conversar com pessoas de confiança, buscar atendimento em serviços de saúde do SUS, procurar um CAPS ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento 24 horas por dia gratuito e sigiloso – além de sem julgamentos, críticas ou comparações – pelo telefone 188.

O CVV também pode ser acessado por meio de um chat no site oficial da organização, só que com horário de funcionamento restrito:

  • Aos domingos, de 17h à 1h;
  • De segunda a quinta-feira, de 9h à 1h;
  • Na sexta-feira, de 15h às 23h;
  • E nos sábados, de 16h à 1h.

Outros canais que oferecem atenção e auxílio são o Mapa da Saúde Mental, que traz uma lista de locais de atendimento voluntário online e presencial em todo país, e o Pode Falar, lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de ajuda em saúde mental para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. Funciona também de forma anônima e gratuita.

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