Combate ao coronavírus: mulheres são melhores líderes por natureza?

Recentes levantamentos mostram que os países comandados por mulheres apresentam cenários menos catastróficos com relação à pandemia de COVID-19.

Por Isabella Otto 18 abr 2020, 10h01

Na corrida contra o coronavírus, um fato vem chamando a atenção: países com líderes mulheres têm tido um desempenho mais eficaz no combate à COVID-19 e ao vírus que provoca a doença. Tsai Ing-wen, presidente de Taiwan, a primeira a ocupar o cargo, é um dos destaques. No dia 31 de dezembro, quando descobriu que um novo vírus havia sido identificado em Wuhan, na China, ela já determinou que todos os passageiros que retornassem da cidade passassem por uma investigação médica. A OMS (Organização Mundial da Saúde) só viria a declarar que o vírus era altamente transmissível em humanos alguns dias depois.

Angela Merkel, da Alemanha, e Sanna Marin, da Finlândia, juntas em evento que aconteceu em fevereiro de 2019. Emmanuele Contini/Getty Images

O pioneirismo de Tsai não parou por aí! Antes de a OMS declarar uma pandemia, ela já havia decretado 124 medidas de prevenção no país que governa. Hoje, é possível dizer que, mesmo próximo da China, Taiwan passa praticamente ilesa aos caos.

Sanna Marin, a chefe de Estado mais nova do mundo, com 34 anos, que está a frente da Finlândia, usa as redes sociais e os influenciadores para transmitir informações confiáveis sobre a doença e o vírus, e as medidas de prevenção. Os números de infectados no país seguem baixos, assim como os números na Alemanha, comandada por Angela Merkel. A atual chanceler do país, logo de cara, disponibilizou um vasto número de testes rápidos para a população e leitos de UTI. Na Islândia, liderada pela primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, muitos testes também foi distribuídos. 10% da população do país já foi testada, estivessem as pessoas com ou sem sintomas. A Islândia não precisou adotar a prática do isolamento social.

É claro que é difícil comparar, por uma série de fatores, diferentes países do globo. Por exemplo, a área da Islândia é de 103.000 km² e a população soma pouco mais de 360 mil habitantes. A Itália, um dos países europeus mais afetados pelo coronavírus e com mais mortes, tem uma área de 301.338 km² e uma população de 60 milhões de habitantes. Também é complicado comparar Taiwan, com uma área de 36.193 km² e 23 milhões de pessoas, com os EUA, que superou recentemente a Itália em recorde de mortos por dia, que tem uma área de 9.834.000 km² e uma população que soma 328 milhões de habitantes. O Brasil também é enorme, com 8.511.000 km² e 209 milhões de pessoas. Na somatória geral, talvez seja claro que países mais populosos tenham um maior número de infectados e mortos, assim como países mais extensos sintam mais dificuldade em conter a curva de transmissão.

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    É inegável, contudo, que os países com os cenários mais drásticos são comandados por homens: os EUA têm como presidente Donald Trump, o Brasil tem como representante máximo Jair Bolsonaro, Sergio Mattarella é o presidente da Itália e a China é liderada por Xi Jinping. Esses governantes também nem sempre fizeram declarações muito felizes sobre pandemia e o cenário atual mundial ao longo do caminho. No começo de março, Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, desdenhou do coronavírus ao se gabar dizendo que continuava dando a mão para todo mundo. Além disso, ele demorou para adotar medidas preventivas no Reino Unido. Um mês depois, no início de abril, ele foi internado na UTI após atestar positivo para a COVID-19. Ele segue em recuperação e afastado do trabalho.

    Seriam então as mulheres melhores líderes e mais preparadas para enfrentar cenários de crise? Em 2019, uma pesquisa realizada pela consultoria de desenvolvimento de liderança Zenger/Folkman mostrou que as pessoas acreditam que isso seja verdade. Em 2012, a mesma pesquisava já apontava o mesmo resultado. Em 2014, um estudo conduzido pela DDI e The Conference Board, e publicado pela revista Forbes, mostrou que as empresas com melhor desempenho financeiro são as que têm mulheres em cargos de liderança.

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    GIPHY/SoulPancake/Reprodução

    Algumas das justificativas para isso são que as mulheres são mais habilidosas na hora de ouvir e falar, características importantes para um líder, principalmente em momentos de crise. Além disso, diversos estudos mostram que elas são menos egocêntricas que os homens e conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, realizando múltiplas tarefas com maestria. As mulheres tendem também a ser mais ponderadas, o que não significa que sejam mais fracas que os homens, muito pelo contrário! Tem que ter culhão para dar o braço a torcer, assumir erros e crises. Também é comprovado, pela Universidade da Pensilvânia, que o cérebro feminino é mais bem conectado entre os hemisférios que o masculino. Isso faz com que as mulheres tenham um lado analítico mais apurado, assim como sua intuição, que é mais aflorada. Lembra quando citamos o exemplo da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, que tomou medidas preventivas antes mesmo da OMS decretá-las? Teria sido o tal feeling feminino?

    Sabe quando dizem que homens não gostam de assumir que estão perdidos e só param em último caso para pedir informação nas ruas, quando nem o GPS ajuda mais? É o lance do egocentrismo masculino descoberto por neurocientistas da Universidade do Sul da Califórnia, que notaram que, em meio a situações de estresse, mulheres se tornam mais empáticas enquanto homens, mais egocêntricos. Às vezes, a “cabeça dura” é tamanha que eles só conseguem acreditar em si mesmos ou em quem tem a mesma opinião que eles, duvidando até mesmo de questões científicas. 

    Então, sim, é comprovado que, em um cenário geral, mulheres são melhores líderes que homens. Engraçado que, mesmo sabendo disso, na prática, os homens continuam ocupando mais cargos de liderança – mesmo cometendo inúmeros erros que, se fossem cometidos em menor quantidade por mulheres, já seriam considerados imperdoáveis.

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