As vozes do feminejo: ‘A mulher não é a coitadinha sofredora’

A CAPRICHO conversou com exclusividade com os principais nomes femininos do sertanejo atual e perguntou o que as cantoras acham do termo 'feminejo'.

Por Marcela Bonafé - 25 jun 2017, 12h08

Se você abrir os rankings de música no Brasil, vai perceber que um gênero em especial faz cada vez mais sucesso: o sertanejo. Ao contrário de alguns anos atrás, no entanto, não são apenas nomes masculinos que recebem destaque. As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço e colocando suas músicas no topo das paradas. Mas nem sempre foi assim…

A LUTA
Sempre existiu mulheres no sertanejo, mas talvez esta seja a primeira vez que elas estejam sendo tão reconhecidas quanto os homens (se bobear, até mais!). Paula Fernandes é um exemplo de quem começou lá atrás, quando sertanejas ainda não eram estouradas no meio. E ela conta que por isso mesmo não foi tão fácil: “Há uma maioria masculina. Sempre tive que me provar quando era criança e, depois, por ser mulher”. Thaeme Marioto também teve um pouco de dificuldade para se firmar no cenário e conta que uma coisa que ela sempre ouvia dos empresários ficava martelando em sua cabeça. “Eles diziam que mulher cantando sertanejo, além das que haviam se destacado há algum tempo, dificilmente daria certo novamente, que seria difícil conquistar o mercado“, recorda.

Paula Fernandes lançou seu primeiro CD independente com apenas 10 anos! Nessa mesma idade, Thaeme formou uma dupla com sua irmã, a Priscilla. Poderosas, né? Orelha; Divulgação/Divulgação

Quem chegou um pouco depois encontrou as portas mais abertas, mas nem tanto. Simone conta que ela e Simaria ouviram diversas vezes de homens que mulheres nunca fariam sucesso à frente de uma banda – principalmente, quando elas tocavam forró, no início da carreira. Apesar de estar no mercado há 12 anos, Lauana Prado destaca que também já sofreu bastante com o machismo, que é ainda mais enraizado no sertanejo.

E o preconceito não se limitava apenas ao fato de serem mulheres, viu? Maiara, da dupla Maiara & Maraisa, conta que as irmãs foram alvo de críticas e zombaria por não se enquadrarem nos ultrapassados padrões de beleza. “As portas se fechavam pra gente sempre. Muitas vezes, elas nem se abriam! O motivo? Além de sermos mulheres, não estávamos na forma física ideal“, conta a cantora, que, assim como a irmã, já pensou em desistir.

GIRLPOWER NA VIOLA CAIPIRA, SÔ!
É unanimidade. Todas as artistas que conversaram com a CAPRICHO contam que sentiam falta de ouvir músicas feitas por mulheres e sobre mulheres dentro do sertanejo. Por muito tempo fomos acostumadas a ouvir principalmente homens nesse gênero musical, cantando a visão de mundo deles. Agora, elas estão aqui para mudar isso, não só com suas conquistas, mas com suas composições. “Nós gostamos de passar a mensagem que todas as mulheres têm os mesmos diretos que os homens, que podemos dar o mesmo recado, mas com o nosso jeitinho”, explica Lara, da dupla Day & Lara. Outro ponto legal que a Maraisa levanta é que também é interessante escrever músicas que tanto homens quanto mulheres possam cantar, sem distinções. Afinal, nós estamos falando de igualdade, certo?

Maiara, Maraísa e Marília Mendonça são três nomes de muita força no sertanejo atual, com um destaque enorme nos rankings de música pelo Brasil. Maravilhosas! Maurício Antônio/Divulgação

Para Simaria, as composições trazem muito do cotidiano feminino. “Procuro levantar o astral das mulheres. Elas sofrem com o amor, mas depois passa e fica tudo lindo”, conta ela sobre as músicas da dupla com a irmã Simone. “O chifre, por exemplo, pode ser bom, porque é através dele que você vê que a pessoa que estava ao seu lado não vale um real”, brinca. Marília Mendonça segue o mesmo raciocínio e acha que a realidade é justamente o que faz tanta gente se identificar com ela: “A ideia das minhas letras é dizer que a mulher não aceita mais relacionamentos abusivos. Que se não deu certo, ela manda embora. Que ela bebe, que também trai, que não é a coitadinha sofredora“.

Continua após a publicidade

O TAL DO “FEMINEJO”
A nova onda de mulheres no sertanejo, que trouxe não só músicas com uma visão mais feminina, mas também oportunidades, é inegavelmente importante e as artistas estão adorando! “Só fortalece cada vez mais o gênero musical e fortalece também as mulheres. Isso era algo que não existia quando entrei no sertanejo“, comemora Thaeme. Para Lauana, as mulheres não são apenas merecedoras, como têm o direito de usufruir do talento delas na sociedade. Day ainda ressalta que o Brasil está cheio de garotas talentosas, não só na música.

Tanto Lauana quanto Day e Lara têm a música enraizada desde cedo na vida e receberam um apoio bem legal da família! Divulgação/Divulgação

Foi diante de todas essas conquistas que o termo “feminejo” surgiu, mesclando o feminismo com o sertanejo, defendendo o que as garotas conseguiram e o que muitas outras vêm lutando para conseguir na indústria musical: a equidade de gênero. “Acho importante as mulheres se juntarem para defenderem seus direitos e diminuir a distância que ainda existe com os homens. Infelizmente, há algumas injustiças ainda, como, por exemplo, o fato de uma mulher que ocupa o mesmo cargo de um homem ganhar menos“, aponta Paula Fernandes. Lauana concorda e ressalta que realmente ainda há muito o que se conquistar – e que a luta é diária!

Apesar de não levantarem a bandeira feminista, Simone e Simaria contam que defendem as mulheres em suas composições. Marília Mendonça, que também revelou à CAPRICHO que não se considera feminista, opina: “Mas respeito eu gosto! É importante que saibam que a igualdade entre os sexos é sempre a solução“. Maiara e Maraísa, apesar de curtirem bastante o termo “feminejo”, preferem não levantar nenhuma bandeira.

As irmãs começaram a carreira no nordeste do Brasil, cantando forró e hoje são um sucesso nacional! Instagram/Reprodução

A CONQUISTA
Apesar de todos os obstáculos, no entanto, as ~coleguinhas~ nunca desistiram – e o sucesso chegou por causa disso! “Para mim, ter o reconhecimento do público é algo maravilhoso, é tudo pelo que lutei durante minha vida inteira!”, comemora Thaeme. Paula Fernandes concorda que é gratificante ter o reconhecimento (tanto do mercado quanto do público) e complementa: “Ser citada como referência ou inspiração é maior que muito prêmio que você possa conquistar, é um legado maior e que gera frutos“. E toda a batalha para chegar até aqui ainda torna a realização ainda mais emocionante, destaca Simone. No fim das contas, é apenas uma coisa que importa e a Lauana resume bem isso: “Amo o que faço e se depositamos amor, dificilmente dá errado”.

 

Publicidade