Ana Hikari rebate estereótipos: ‘qualquer trama cabe a uma atriz oriental’

Nossa colunista Melissa Ery bateu um papo muito importante sobre estereótipos asiáticos com a Ana Hikari.

Por Melissa Ery Atualizado em 21 jul 2018, 14h36 - Publicado em 21 jul 2018, 14h20

Quando a atriz Ana Hikari estreou em Malhação: Viva a Diferença, ela deu voz a muitas meninas que, assim como eu, cresceram tendo poucas referências de mulheres asiáticas na mídia. Ela fez com que essas garotas pudessem se identificar com vários momentos da vida de Tina. A personagem foi muito importante para gerar discussões e abrir um grande espaço de visibilidade para nós.    

Oi, essa sou eu, a Mel! À esquerda, vocês podem me ver entrevistando e tirando umas fotos da Ana. Arquivo Pessoal/Reprodução

A mídia sempre representou asiáticos de forma estereotipada, superficial e preconceituosa. E, por isso, acabamos criando um sentimento muito negativo sobre nós mesmas. A forma como nos vemos representadas pode interferir na maneira como interagimos com o mundo e afetar principalmente a maneira como as outras pessoas nos veem. Por muitos anos, eu achei que ser amarela não era legal. Achava que meus traços não eram bonitos o suficiente, porque o padrão de beleza sempre surgia com uma menina branca. Eu me sentia na obrigação de ir bem em matemática, porque, onde já se viu, uma asiática não sendo crânio em exatas? Eu criava tudo isso na minha cabeça, porque a mídia me colocava dentro de um estereótipo e era um peso gigantesco superar essas expectativas

Por sorte, o cenário está mudando e, aos poucos, podemos ver atrizes de origem asiática se destacando e sendo boas referências. Seja a Ana Hikari interpretando a primeira protagonista asiática em uma novela da Globo, a Sandra Oh sendo a primeira asiática indicada ao prêmio de Melhor Atriz por Killing Eve, a atriz Lana Condor interpretando uma protagonista em um filme de comédia romântica adolescente ou como o filme Podres de Ricos, que traz um elenco composto majoritariamente por asiáticos.

Melissa Ery / Instituto Gustavo Rosa/CAPRICHO

Precisamos debater o assunto, pois representatividade importa! Conversei com a Ana Hikari, que trouxe algumas quebras interessantes de estereótipos sobre os asiáticos amarelos. 

Melissa: Quando você era mais nova, se sentia representada em algum filme ou desenho?
Ana: Era bem difícil eu me sentir representada, porque, geralmente, as garotas não eram orientais. Ou, quando eram, estavam dentro de um estereótipo que não me contemplava. Mas eu tentava me inspirar nas garotas mais fortes e poderosas, tipo a Mulan, a Florzinha, a Sam (de As Três Espiãs Demais), as WITCH’s, etc. Me apoiei em personagens femininas fortes e inteligentes para me inspirar e crescer.

Melissa: Quem eram as mulheres que te inspiraram para seguir carreira como atriz
Ana: Eu sempre gostei muito de teatro e, desde pequena, sempre tive muito contato com performances. Uma das atrizes que sempre admirei no teatro é a Roberta Estrela Dalva, do Núcleo Bartolomeude Depoimentos, em São Paulo. Na TV, duas atrizes me fizeram acreditar que um dia eu poderia, além de ser atriz no teatro, trabalhar com televisão: Dani Suzuki e Luana Tanaka. Vê-las nas novelas me fazia pensar que era possível ocuparmos aquele espaço na mídia, como descendente de orientais, por mais que fôssemos uma minoria.

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Melissa: Quais foram as suas maiores dificuldades na carreira?
Ana: Como atriz com traços japoneses, é muito fácil me colocarem dentro do estereótipo de personagem oriental. Meu desafio é me mostrar uma atriz versátil, inteligente e dedicada para que possam entender que é possível, sim, uma atriz de descendência oriental fazer um papel que seja simplesmente um papel não vinculado ao oriente. Posso ser uma médica, uma manicure, uma dona de loja, uma empresária, uma garota que gosta de futebol, uma pirata, uma detetive… Qualquer trama cabe a uma atriz oriental sem precisar que se justifique que ela é descendente.

Melissa: Já sofreu algum tipo de racismo no trabalho?
Ana: Como a “Malhação” da qual participei falava sobre diferenças e a minha personagem falava abertamente sobre essas questões de discriminação racial sofrida por orientais, a equipe toda de trabalho acabava refletindo, entendendo e questionando as próprias atitudes ali dentro do trabalho. Muitas vezes, fui chamada de “japa”, mas logo já ouvia alguém da própria equipe dizendo: “ei, a Tina não gosta que chamem ela de japa! Tá errado! Ela tem nome”. Aos poucos, todos foram entendendo essas pequenas questões. Minhas companheiras de trabalho, principalmente, me ajudavam nisso, sempre se posicionando e defendendo essa questão, mesmo que eu não estivesse presente.

Melissa: Como se sentiu quando foi escalada para o papel de Tina em Malhação? O que você esperava do papel?
Ana: Eu acho que a minha ficha só caiu mesmo na preparação de elenco, antes de entrarmos em contato com o texto. Quando recebi a notícia pelo telefone, eu ainda não conseguia acreditar. Foi muito chocante, eu não tinha noção do que a minha vida se tornaria depois disso. E foi uma mudança muito grande! Eu tinha muito medo de que a Tina fosse apenas mais um estereótipo oriental clichê, mas, graças ao Cao Hamburguer e a equipe de roteiristas colaboradores da nossa “Malhação”, nosso núcleo oriental teve uma trama muito boa, muito rica e, principalmente, abriu a possibilidade de apresentar pro país inteiro a vivência de uma parcela brasileira que, muitas vezes, sofre um apagamento na mídia: brasileiros com descendência oriental.

Melissa: Sente que existe um certo preconceito para conseguir trabalhos só porque é oriental?
Ana: É complicado para atrizes orientais e negras (etnias não brancas, em geral), pois, muitas vezes, só somos escaladas quando o papel vem com a especificação em relação à etnia. Porém, acredito que cada vez mais os produtores de elenco e diretores têm pensado fora da caixinha em relação à escalação de elenco, no sentido de que eles têm pensado em, por exemplo, uma atriz descendente de oriental mesmo quando não está especificado no papel “todas as etnias” ou “oriental”. Isso é um processo que eu sinto que está se modificando e tenho esperanças de poder ser lembrada cada vez mais como a atriz que sou, não só pela minha aparência de fenótipo oriental, mas pelo meu talento, minha dedicação com o trabalho e capacidade de atuação para X ou Y personagem.

Melissa: Você sabe que tem uma grande influência sobre as meninas mais novas. Como você se sente sabendo que você é uma grande referência para elas?
Ana: Eu me sinto com uma grande responsabilidade. Sempre tento passar mensagens que acredito serem importantes através das minhas redes sociais. Meu desejo é que minhas redes sociais funcionem como uma ferramenta de empoderamento para elas. Gosto de compartilhar reflexões ou poesias que falem sobre empoderamento.

O que você acha sobre o assunto? Falta representatividade? O cenário está mudando? Mandem um email no melissa.sakaguchi@abril.com.br ou uma mensagem nas redes sociais. Vamos trocar ideias!

Um beijo,
@MelissaEry

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