Falta representação, sobra estereótipo: o que querem os asiáticos LGBTQ+?

Respeito, como qualquer pessoa, mas, acima de tudo, eles querem ser ouvidos: 'a comunidade LGBTQ+ tem muitas cores além da branca'.

Por Melissa Ery Atualizado em 8 jul 2018, 23h58 - Publicado em 8 jul 2018, 17h32

Junho é conhecido como o mês do Orgulho LGBTQ+, mas é preciso estender esse debate para o ano todo. É muito importante que cada vez mais as pessoas se conscientizem, tenham empatia e continuem lutando contra a homofobia. Inclusive porque, infelizmente, a sexualidade continua sendo um tabu gigantesco especialmente dentro de algumas culturas. Em alguns países da Ásia, se declarar homossexual pode custar a própria vida

Falta representação, sobra estereótipo: o que querem os asiáticos LGBTQ+?
Melissa Ery/Reprodução

Apesar de morarmos no Brasil, alguns desses pensamentos conservadores e retrógrados continuam enraizados dentro da nossa cultura também. E quando falamos sobre asiáticos LGBTQ+, falamos de pessoas racializadas que sofrem por serem uma dupla minoria, assim como pessoas negras LGBTQ+É difícil falarmos sobre o assunto e não pensarmos na fetichização e objetificação que pessoas racializadas sofrem – e colocar alguém dentro de um estereótipo é algo que reforça e aumenta ainda mais falta de representatividade!

“Acho que a coisa que mais me incomoda é objetificar e fetichizar muito o menino asiático gay como um ‘objeto passivo’. Dá a entender que a gente não é tão homem quanto o resto, sabe? Isso tem muito a ver com o físico, porque, normalmente, somos menores, mais magrinhos, temos menos pelos corporais… As pessoas ficam querendo que eu seja alguma coisa que eu não sou e isso incomoda”, diz G.O., 18 de anos, que preferiu não ser identificado. Aliás, vou manter secreta a identidade de todos os asiáticos com que conversei para fazer esta matéria.

No total, falei com 6 pessoas sobre como é ser asiáticx e LGBTQ+, quais são os maiores desafios sendo essa dupla minoria, como foi a aceitação da família, qual a importância dessa discussão e por que ainda falta representatividade, mas sobra estereotipação.

1. “Minha mãe sabe que eu sou bi, mas não tive coragem de contar para ela que sou transexual também, depois que ela disse que, se por acaso eu fosse, seria expulsa de casa. Minha irmã é a única que sabe das duas coisas. É complicado ser uma asiática marrom. Apesar de eu ter sido criada pela família branca da minha mãe, depois que eu cresci e tentei entrar na comunidade, eu notei como sexualidade e gênero ainda são tabus para nós. É muito comum ver famílias marrons condenando veementemente homosexuais e trans, principalmente se escorando na religião (um traço cultural muito importante pra gente). É uma pena ver isso, já que culturalmente existem registros de que muitos países marrons não possuíam problemas com diversidade sexual e possuíam até mesmo gêneros não-binários. Eu sinto muita falta de uma representatividade asiática dentro da comunidade LGBTQ+, principalmente transexuais asiáticos e asiáticos marrons. Acho que é importante pra mostrar que está tudo bem sermos quem somos tanto étnica quanto sexualmente. Um não exclui o outro.” (A.S.,19 anos)

2.Sendo mestiça de brasileiro e japonesa, posso dizer que tive reações bastante diferentes de cada lado. Eu me preocupava mais com a reação do meu pai (porque nem imaginava a opinião dele sobre o assunto) do que com a da minha mãe (que sempre teve um ou outro amigo gay e sempre os defendeu de certa forma). Mas quando contei para eles que sou lésbica, foi tudo o oposto do que eu esperava: meu pai não gostou, mas levou menos tempo para aceitar do que minha mãe. Eu tinha 17 anos na época e foi então que comecei a entender que, por trás da pose liberal da minha mãe, existiam anos de tradição japonesa – não apenas machista e homofóbica, como o resto do mundo, mas sempre preocupada com a sua imagem diante da sociedade. À exceção d@s prim@s mais próxim@s, nunca precisei sair do armário para a família inteira, mas sei que as reações seriam similares às dos meus pais: a família brasileira até sabe, mas aceita (ou tolera?) com muito mais facilidade do que a família japonesa, que simplesmente finge que não vê (numa política bastante respeitosa de “don’t ask, don’t tell”). É esperado que você não se exponha demais pra não envergonhar ninguém. Nós somos asiátic@s. E lésbicas masculinas, e gays afeminados, e bissexuais, e transexuais, e travestis, e queer, e não-binários, e assexuais, e drag queens… E nós existimos!” (A.O, 23 anos)

Reprodução/Reprodução
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3. “Eu sou bi e não tenho contato com o meu pai. Ele não gosta da ideia e não acha certo. A minha mãe não dá muita importância para o que eu faço. Ela é indígena, e até agora eu não tive muitos relatos sobre pessoas LGBTQ+ na aldeia onde ela morava, então fica bem difícil tentar explicar que isso é normal e não é errado. Falta representatividade, sim. Nem todo mundo vai ter uma amiga (como eu tive) que te encoraje a colocar seus sentimentos para fora. Mostrar quem você é de verdade e não precisar se esconder por receio de alguém te dizer algo maldoso é fundamental.” (C.Y., 22 anos)

4. “É uma coisa meio complicada exatamente porque as pessoas têm uma visão de que uma pessoa ace só não achou a pessoa certa ainda, embora eu não saia levantando uma bandeira falando: ‘eu sou assexual’. Mas também não faço questão nenhuma de esconder que não estou com ninguém e não estou procurando ninguém. As pessoas acabam tendo aquela visão de que você está esperando a pessoa certa chegar para mudar de opinião. Essa é a sensação que eu tenho. Nesse sentido, minha mãe é bem mais tranquila. Ela é cis-hétero mas eu consigo perceber que ela faz um esforço maior para me entender. Se eu nunca tivesse descoberto que existem pessoas assexuais, talvez eu tivesse passado a minha vida como boa parte das pessoas que eu conheço: achando que eu era uma pessoa hétero esperando o ‘the one’. E parece uma diferença besta mas não é! Essa é uma diferença fundamental para você entender sobre você mesmo e como você vai enxergar o mundo. Talvez a sua interação com o mundo não vá mudar tanto, mas a sua maneira de enxergar e pensar muda muito a partir do momento que você entende de fato o que você é e o que isso quer dizer para você” (E.O., 20 anos)

Falta representação, sobra estereótipo: o que querem os asiáticos LGBTQ+?

5. “Na verdade, minha família a materna é de boa, já a paterna é obrigada a aceitar porque eu descobri que eu tenho uma tia lésbica. Ela acabou me ajudando muito, porque, como aceitaram ela, esse foi o meu caminho. Minha família paterna é okinawana e eles são um pouco mais conservadores, por parte da materna todos são ok, menos os mais velhos mesmo, tipo meus avós. Minha mãe, que é quem importa, não liga para a minha sexualidade. Eu me assumi gay em 2014 e até hoje não falo sobre isso com minha avó materna. A discussão sobre representatividade tinha que ser maior também dentro da comunidade LGBTQ+. Devia rolar uma conscientização maior sobre os gays asiáticos. É preciso que a discussão role principalmente nos lugares onde a gente ocupa.” (G.O., 18 anos)

6. “Me identifico como pansexual, o que significa que me atraio por pessoas independente do gênero delas. Além disso, sou mestiça (ascendência japonesa por parte de mãe e europeia por parte de pai). Meio amarela, meio branca, mas, pelo fato de as pessoas me lerem como japonesa, identifico-me como amarela mesmo. Não sei muito bem como definir a aceitação da minha família. Tinha medo de haver diferenças entre a aceitação nos dois lados, mas não foi o que aconteceu. Já saí do armário há quase dois anos, mas, nos dois lados, não sei se levaram à sério. Sei que devo ser grata por não ter sofrido nenhuma agressão ao me assumir, mas, às vezes, sinto que um pouco mais de apoio vindo deles seria bom. Ser parte da comunidade LGBTQ+ e asiática me faz enfrentar muitas barreiras. Não é segredo para ninguém que a comunidade LGBTQ+ foca nos problemas de um único grupo: homens gays cis brancos. Se você fizer algum esforço, pode dizer que as lésbicas cis brancas também têm voz (ou, pelo menos, mais voz que os outros grupos). Além de ter que lidar com LGBTfobia e racismo vindos da sociedade em geral, também preciso aguentar o apagamento da minha sexualidade, misoginia e racismo dentro da própria comunidade LGBTQ+. Falando em apagamento, tem a questão da representatividade: já é difícil encontrar um personagem LGBTQ+ ou amarelo na mídia que não seja super estereotipado. Encontrar especificamente um bi ou pan já é praticamente impossível! É preciso discutir mais sobre o tema. É preciso fazer o mundo entender que nós, pessoas LGBT amarelas (e, ampliando, pessoas LGBT de todas as etnias), existimos. A comunidade LGBTQ+ tem muitas cores além da branca” (L.O.,18 anos)

Para encerrar a matéria, vou deixar duas indicações. Para você ter mais conhecimento sobre o assunto, o coletivo Asiáticos pela Diversidade reúne pessoas asiáticas LGBTQ+ para construir uma militância inclusiva que discuta a intersecção raça, etnicidade, gênero e sexualidade.  E o documentário OKAMA: Vozes LGBT nipo-brasileiras, que é uma produção do Felipe Higa, para a sua graduação em jornalismo pela ECA-USP. O trabalho é fantástico e necessário.

Para quem quiser conversar comigo, sinta-se à vontade para me mandar um e-mail (melissa.sakaguchi@abril.com.br) ou me chamar para conversar pelo Facebook ou Instagram (ambos @MelissaEry).

Um beijo,
Melissa Ery

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