‘A misoginia é um complexo de superioridade’, opina Malala

A ativista paquistanesa acredita que muitos homens defendem e estimulam a desigualdade de gênero por medo.

Por Isabella Otto - Atualizado em 19 mar 2018, 17h52 - Publicado em 19 mar 2018, 17h37

Quando você chega ao nível do americano David Letterman, você pode criar um programa chamado My Next Guest Needs No Introduction (“Meu próximo convidado dispensa introdução”) e entrevistar personalidades como Barack Obama. E quando você é Malala Yousafzai, pode ser uma das entrevistadas e ensinar um montão de coisas sobre educação, feminismo e humanidade em pouco menos de 60 minutos.

Reprodução/Reprodução

No programa mais recente, produzido e lançado pela Netflix, Malala conta que não se lembra do atentado, só de ter acordado em um hospital em outro país, com pessoas ao redor dela falando outro idioma. Faz cinco anos desde que isso aconteceu e a paquistanesa não guarda mágoas de quem a baleou, pois se vingar por meio da violência é algo que o Talibã defende. “Quem me atacou foi um garoto. Da mesma idade que eu. Ele achou que estava fazendo a coisa certa, que estava atacando uma pessoa má, que estava fazendo algo bom“, conta ao entrevistador David Letterman. Malala diz também que, na cultura islâmica, coisas como matar pela honra acontecem. “Mas nós estamos desafiando isso(…) A melhor vingança é o perdão(…) As pessoas que me atacaram, eu as perdoei, porque esse é a minha melhor vingança”, garante.

A atual estudante de Oxford, na Inglaterra, conta que sua principal missão é empoderar meninas através da educação. Quando morava no Vale do Swat, no Paquistão, Malala foi impedida de frequentar a escola, assim como todas as meninas. O motivo? De acordo com a ativista, essa é uma manobra do Talibã para que as mulheres não se tornem independentes. Afinal, eles bem sabem que conhecimento é poder. “Meu objetivo principal é empoderar líderes locais. Eu acredito nas campanhas, em elevar a voz, o que meu pai e eu estávamos fazendo. Agora, fazemos isso na Ásia, na África e na América Latina(…) Acredito no empoderamento de meninas locais. Quando empoderamos meninas, elas trazem a mudança. Eu era uma menina, levantei minha voz e pude mudar o mundo. Há outras meninas por aí. Se lhes dermos apoio, elas poderão levantar a voz e mudar o mundo“, defendeu.

Para a paquistanesa, a resposta para a mudança é fácil: “os governos precisam investir mais na educação. Os executivos, todos que fazem parte da sociedade, devem pensar em investir nas meninas e na educação”. Infelizmente, o que vemos acontecer é justamente o contrário. No Brasil, em 2017, quase 70% das universidades federais tiveram cortes no orçamento e, neste ano, estima-se que os recursos voltados para a educação sejam reduzidos em 32%.

O machismo para Malala Yousafzai também não é algo tão complexo assim. Na verdade, a jovem de 20 anos acredita que muitos homens defendem e estimulam a desigualdade de gênero por puro medo. Para não assumirem isso, eles culpam terceiros – tanto pessoas quanto tradições. “A misoginia é um velho complexo de superioridade. E encontram justificativas. A justificativa da cultura, da religião e procuram meios de apoiar isso”, dispara a estudante.

Mesmo sofrendo ameaças do grupo extremista Talibã antes de sofrer o atentado, Malala não desistiu e continuou sua luta para que garotas pudessem ter acesso à educação. Ela não largou tudo e foi embora, pensando apenas em sua segurança e na de sua família, pois se sentiria culpada. Lutar contra o machismo não é apenas lutar contra homens machistas, mas conta toda uma ideologia que está enraizada na cabeça de homens e mulheres, jovens e idosos.”É contra ela que temos que lutar. A ideologia que existe, que não aceita mulheres iguais aos homens, que não dá às mulheres o direito à educação, que não dá às mulheres o direito ao trabalho e a decidir seu próprio futuro. É uma ideologia e temos que lutar contra ela, seja ela das montanhas do Paquistão ou de grandes cidades. Nós temos que desafiar”, garante.

E você, já lutou hoje?

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