A batalha das mulheres que só querem jogar basquete numa quadra pública

Após muito toco, Magic Minas consegue ocupar seu espaço e promover melhorias para a comunidade: 'queremos encorajar mulheres a ocuparem o espaço público'

Por Isabella Otto 16 dez 2018, 10h02

O logo do coletivo é um útero e o que elas querem é empoderar mulheres por meio do esporte. Foi assim desde o começo, quando o Magic Minas nasceu, em 2016, inspirado na jogadora de basquete Magic Paula, que inclusive deu a maior força para as meninas e participou da primeira ocupação do coletivo de basquete feminino.

Parte do coletivo Magic Minas. A Dea é a de franjinha, ajoelhada à direita. BRSK Photo Marcela Silva Kethleen Rodrigues Alcântara Augusta Deluca/Reprodução

Em outubro deste ano, o Magic Minas, em parceria com o grupo de artistas de rua Efêmmera e a Nike, teve uma grande conquista: a revitalização da quadra pública localizada na Praça Rotary, no centro de São Paulo. A quadra foi pintada, ganhou aros de basquete mais resistentes, gols com rede, iluminação… E tudo começou porque as meninas não conseguiam jogar.

Na verdade, elas até conseguiam, mas depois de muita dor de cabeça e provação. “Só eu já consertei o aro três vezes. De vir aqui com a madeirinha, comprar os parafusos, trazer escada… Porque, se você liga no 156… bom, está lá até agora o primeiro pedido que enviamos”, conta Dea Nunes, de 36 anos, uma das cabeças por trás do Magic Minas. Dea conversou com a CAPRICHO sobre as dores e alegrias de ser uma mulher que joga basquete. Toda segunda-feira, das 20h às 22h, a quadra da praça é reservada não só para o coletivo, mas para toda e qualquer garota que queira jogar. Contudo, as meninas já sofreram boicotes, foram atacadas por gente que achou que achou que após a reforma a quadra era só das mulheres e por homens que não acham justo essa reserva semanal de tempo.

  • “Essa quadra não é nossa, essa quadra é da comunidade. O mais correto seria todo mundo agendar horários e fazer uma rotação. Mas, por enquanto, é preciso que as mulheres tenham esse espaço uma vez por semana, um espaço sagrado onde elas possam errar, aprender e criar a cultura do basquete feminino“, garante Dea. A quadra fica vazia em muitos momentos, mas ainda tem gente que implica com o fato de, às segundas, em um curto intervalo de tempo, ela ser dominada por mulheres.

    “Na segunda-feira após inauguração, tinha outro grupo de futebol que ficou sabendo da reabertura da quadra e veio jogar justamente no horário reservado para o basquete feminino. A gente chegou e os meninos começaram a dizer que não iam sair, que a quadra era pública, começaram a chutar forte a bola para machucar… eles estavam irredutíveis”, lembra a jogadora, que completa dizendo: “a gente não vai esperar o poder público para fazer as coisas, e quando isso é feito por um grupo de mulheres, acaba influenciando mais mulheres a fazer o mesmo“.

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    2 // Foram 16 dias de muito trampo na Quadra da Praça Rotary para reforçar a ocupação das minas nos espaços públicos. #AForçaéDasMinas #BattleForce 📸 @heeytrinny

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    Além da resistência por parte de alguns homens, as meninas ainda precisaram fazer um ofício para formalizar a ocupação da quadra às segundas-feiras, sempre mostrando que o benefício não seria apenas sentido pelo coletivo, mas por todas as mulheres que gostariam de jogar basquete em um espaço seguro. “A quadra é um lugar em que a gente pode desenvolver várias competências que a gente leva para a vida. A mulher fica mais autônoma, mais independente, menos submissa a relacionamentos abusivos. Nosso intuito é encorajar mulheres a ocuparem o espaço público, principalmente à noite, formar uma rede de proteção e um espaço seguro”.

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    Foram 17 dias seguidos de muito trabalho até que a quadra fosse revitalizada com sucesso pelo Effêmera. As artistas receberam todo tipo de feedback, desde positivos, da galera que faz parte da comunidade, até negativos, de gente criticando a escolha da cor rosa. “Agora só mulher pode jogar?”, diziam.

    BRSK Photo Marcela Silva Kethleen Rodrigues Alcântara Augusta Deluca/Divulgação

    Bela Gregório, de 27 anos, criadora do coletivo de artistas de rua, contou para a CAPRICHO que as cores utilizadas foram escolhidas levando em conta o logo do Magic Minas, mas que o rosa nunca foi tão significativo. “Quando a gente fala sobre empoderamento feminino, a gente tende a fugir do rosa por várias questões, mas o rosa foi muito emblemático!“, defendeu.

    Você pode achar que não dá para comparar as realidades de Dea e Bela. Afinal, uma é jogadora e a outra, artista. Mas tudo é arte, no fim das contas, e o intuito de ambas e de seus coletivos é ganhar as ruas. “A gente, como artista de rua, enfrenta a hegemonia masculina. Quando tem um evento incrível, a gente sempre acaba ganhando para pintar o muro chapiscado, aquele que sobrou. Por que a gente tem que ficar sempre com o pior horário? Ou com as piores condições?“, questiona Bela, que criou o Efêmmera depois de fazer um trabalho para a faculdade de jornalismo sobre arte de rua e perceber que só havia entrevistado homens. Sempre que ia pesquisar mais, outro homem era indicado. “Eu já quase fui estuprada por um PM, eu era sempre a mulher do fulano por namorar um grafiteiro… As meninas ficam sempre escondidas atrás dos caras”.

    Dea também estava cansada de só levar toco, de chegar em quadras públicas e ver que os aros de basquete haviam sido arrancados para impossibilitar o jogo das meninas, que, muitas vezes, sentiam medo de jogar inclusive em times profissionais, também por causa do machismo. O coletivo Magic Minas preza a horizontalidade nas tomadas de decisões. Por exemplo, nunca vai acontecer de uma mulher se sentir renegada por ter sido a última a ser escolhida para a equipe. “Na hora de escolher os times, não tem essa de alguém ficar sobrando. A gente sempre dá um jeito, escolhe por cor de roupa, algo bem aleatório. A gente também tem uma carta de princípios que é enviada a toda menina que entra para o coletivo. Não tem provocação, não tem exclusão. Só empoderamento feminino e superação”, garante Dea.

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    Alô Magic Migues! 🏀🏀🏀 Depois de muita espera, muita festa e muito jogo no último sábado, só temos a agradecer de coração todas as pessoas que nos apoiaram e participaram da reinauguração dessa quadra linda que é de TODOS! Rachao Basquete Feminino Instituto Passe de Mágica Cristal Rocha Damiris Dantas Gabi De Brito Miria Alves Carol Ambulante Pam Araujo poesia JadeQuebra Ingrid Martins V Lia Fenix Bela Gregório Aline Lorenzon Marta Missmartinha Amanda Pankill Alana Ambrosio Taiguara Nazareth Bala na Cesta 💜💛💝 Uma oportunidade que enxergamos em uma disputa (em julho de 2017) pelo espaço, entre homens e mulheres, entre a modalidade basquete e futebol. E pensamos, de que maneira poderíamos coexistir e conviver? De que maneira, podemos legitimar o nosso direito de habitar a rua e usufruir de um bem público? Apesar de escura, cinzenta e desgastada, a quadra da Praça Rotary foi cenário do evento #OccupyRotary, em que uma convocação foi atendida não só por mais de 100 minas, como também pela maravilhosa Magic Paula, pela Daniela Castro (na época, secretária adjunta do esporte e lazer), chamando atenção de diversos coletivos feministas, ligas de basquete, mídias e pela Nike Do Brasil, que nos convidou para fazer parte de um timaço de artistas (Mel Duarte Tássia Reis Lellêzinha Marina Santa Helena) para a campanha #theforceisfemale. Ao invés de cachê, pedimos a reforma dessa quadra que nunca vamos esquecer. Não existe dinheiro que pague a crença na nossa luta e o apoio de todos que acompanharam tanto suor. Mais de um ano depois, essa história é recontada e decorada por mulheres incríveis que deixam sua marca com tintas Efêmmera e palavras versadas Slam das Minas – SP. Nossos corações pulsam e nossos olhos marejam. Temos muito, mas muito orgulho mesmo em dizer que essa foi a primeira quadra conquistada por mulheres e revitalizada por mulheres, através da força e dos traços da nossa união! Juntas somos mais fortes! Valeu demais! 🏆 Crédito das fotos: BRSK Photo Marcela Silva Kethleen Rodrigues Alcântara Augusta Deluca

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    Hoje, após aquele 10 de julho de 2017, quando a quadra da Praça Rotary foi ocupada pacificamente por 100 mulheres, o Magic Minas continua tendo que vencer pequenas batalhas diárias. Neste mês, por exemplo, elas celebraram as novas luzes que foram instaladas no local, deixando-o mais iluminado.

    Não é uma quadra “para mulheres”. É uma quadra “de mulheres” para todos. Quem diz o contrário é justamente aquela pessoa que defende que o espaço deve ser público, mas, na prática, não aceita o coletivo.

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