6% das bonecas produzidas no Brasil são negras; 94% estão dentro do padrão

Levantamento realizado por ONG comprova que representatividade é produto em falta no mercado brasileiro

Por Isabella Otto Atualizado em 30 out 2020, 17h32 - Publicado em 2 nov 2020, 10h03
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Divulgação/CAPRICHO

Uma das maiores questões envolvendo representatividade é que ela deve começar cedo, mas na prática não é assim que funciona. Crianças negras têm que brincar com bonecas brancas por causa de uma falha no mercado, apontada em agosto pela ONG Avante, da Bahia, que produziu a 3ª edição do levantamento “Cadê Nossa Boneca?”.

Marco VDM/Getty Images

O estudo mapeou sites de fabricantes e lojas de brinquedos do Brasil e concluiu que apenas 6% das bonecas produzidas no país são negras, contra 94% que estão dentro do padrão europeu de beleza. Além disso, nas lojas online, a oferta de bonecas negras é de apenas 9%.

Nos 14 sites de empresas associadas à Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), foram identificados 70 modelos de bonecas pretas nos 1.093 produzidos, sendo que seis dessas 14 companhias sequer fabricam modelos fora do padrão europeu.

“Fabricamos bonecas de todos os tipos, tamanhos e cores, não tratamos de gênero nem raça. As crianças negras gostam de bonecas loiras e negras e vice-versa, pois o imaginário é a alegria de brincar. Não se registram julgamentos políticos no imaginário infantil”, disse Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, para o portal Universa.

Algumas das bonecas que foram customizadas por Ingrith Calazans Ingrith Calazans/Arquivo Pessoal/Reprodução

Em 2015, a estudante Ingrith Calazans, na época com 22 anos, moradora do Distrito Federal, começou a customizar bonecas depois de tentar comprar uma Barbie negra para dar para a irmã de aniversário e não encontrar nenhum modelo nas lojas da cidade. “Me deparei com um monte de bonecas brancas, loiras, dos olhos azuis(…) Peguei uma boneca já utilizada, retirei o cabelo original, costurei a lã na cabeça dela e soltei os fios”, disse em entrevista para o G1.

Outro ponto que torna a corrida por representatividade mais desigual é o fato de que as poucas bonecas negras ofertadas pelo mercado tendem a ser mais caras, em suma porque parte significativa delas é feita por artesões e pequenos fabricantes, o que encarece o valor final do produto.

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