5 impactos positivos no planeta da redução do consumo de carne

A pecuária é a principal causa do desmatamento. Você sabe. Mas e que cada boi produz até 500 L de gás metano por dia, 25x mais poluente que o carbônico?

Por Isabella Otto Atualizado em 2 out 2020, 16h01 - Publicado em 1 out 2020, 14h31

Desde 1977, Dia Mundial do Vegetarianismo é comemorado todo 1º de outubro. Poderíamos fazer uma matéria engraçadinha com frases que todo vegetariano não aguenta mais ouvir (tipo perguntar se tem um salgado sem carne e ouvir: “Tem, sim. Tem esse de frango”), mas seria ignorar o que está acontecendo no Brasil – e desculpa se você não aguenta mais ler e ouvir sobre as queimadas e o governo, e só queria escutar umas notícias leves, mas nem sempre a alienação é a melhor saída, mesmo que seja a mais fácil. O Pantanal e a Amazônia estão em chamas já faz alguns anos. Neste, contudo, as queimadas estão batendo recordes. A maioria delas, segundo especialistas e órgãos ambientais, é consequência da ação humana, que coloca fogo para a limpeza e criação de pastos. A pecuária continua sendo a principal causa do desmatamento e reduzir o consumo de carne é benéfico para o meio ambiente, a economia e a saúde dos seres humanos.

Não estamos aqui para dizer o que você deve ou não comer, e que precisa parar com aquele sagrado churrasco de domingo. Quem somos nós, afinal! A gente está aqui para te entregar dados que não são fake news. Daí, cabe a você decidir o que fazer ou não com eles. O brasileiro é um dos que mais consome carne vermelha no mundo e também um dos que mais produz o alimento para a exportação. Tem que suprir a indústria local e a estrangeira, e haja volume de boi e pasto para isso! Sem contar soja, um dos grãos que o gado mais consome e que, quando produzido em larga escala, também se torna maléfico para o solo, a fauna e a flora.

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DIA DO VEGETARIANISMO O que é veganismo pra você? Pra mim, ser vegana é a forma mais simples de lutar contra o sistema e contra o AGRONEGÓCIO. É a maneira mais fácil de lutar pelas nossas florestas, rios, mangues e mares. De lutar pela Terra. Quando deixamos de comer vacas, porcos, peixes e galinhas, não estamos somente protegendo a vida destes animais, estamos protegendo TODAS AS ESPÉCIES! Quando uma floresta é derrubada para produzir comida para alimentar animais, quando colocam fogo para abrir caminho pra monocultura, quando passam o “correntão” e derrubam árvores seculares pra implantar pasto, a produção INDUSTRIAL de carne também mata milhares de animais silvestres, essenciais para o equilíbrio do planeta. Então se você ama os animais, ama o nosso planeta e ama a si mesmo, considere o veganismo! Chega de financiar empresas que destroem o nosso planeta, de incentivar a morte das florestas, de apoiar incêndios criminosos. Essa foto foi tirada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, um paraíso natural que vem sendo transformado em um verdadeiro deserto com o propósito de gerar lucro para poucas familias. Tudo isso enquanto envenenam nossos rios com agrotóxicos, diminuem a quantidade de chuvas na região pelo desmatamento, não proporcionam alimento para os animais silvestres (nem mesmo para seres humanos, diretamente) destróem o solo e a acabam com a biodiversidade. Se você não quiser que o Lobo Guará seja só uma lembrança na nova nota de 200 reias, é melhor começar a se mexer, pois o planeta não pode mais esperar. NÃO ADIANTA MAIS SER SÓ ATIVISTA DE INSTAGRAM! AS PESSOAS PRECISAM AGIR. DIMINUA HOJE SEU CONSUMO DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL.

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De acordo com a OMS, a quantidade indicada de carne vermelha por semana é 500 gramas, só que, no Brasil, consome-se muito mais. Há quem, em apenas um dia, coma quase a quantidade indicada para a semana inteirinha! Eis como a redução do consumo do alimento pode ser benéfica para o planeta:

1. Menos carne vermelha significa menos gado, menos pasto, menos gás metano, menos poluentes, mais verde e menos aquecimento global

Em 2014, a Universidade de Yale realizou um estudo em que mostra como os impactos da produção da carne bovina no meio ambiente são maiores que os da produção de frango e porco. O gado precisa de 28x mais terra e 11x mais água do que os outros animais. Além disso, a pecuária deixa uma maior pegada de carbono na atmosfera, contribuindo para o efeito estufa e as mudanças climáticas. No Brasil, cada boi ou vaca produz de 250 a 500 litros de metano por dia, gás cujo potencial poluente é 25x maior que o gás carbônico. Apesar de o rebanho bovino ter recuado no Brasil nos últimos anos, o país ainda detém o 2º lugar no ranking de lugares com mais cabeças de gado, perdendo apenas para a Índia, um dos maiores poluidores globais. São mais de 213 milhões de cabeças de gado, segundo o IBGE. No Brasil, temos pouco mais de 209 milhões de habitantes. Ou seja, mais gado que gente. “Comer menos carne vermelha reduziria mais a pegada de carbono do que desistir de se locomover de carro”, garante o cientista Gidon Eshel, que liderou a pesquisa da Yale.

2. A pecuária é a principal causa do desmatamento e dos focos ilegais de fogo que acabam virando incêndios sem controle

A pecuária não agrava os efeitos que aceleram o aquecimento global simplesmente porque os bois e as vacas soltam muitos gases. Na verdade, é todo um ciclo de destruição. É preciso pasto para criar todas essas mais de 213 milhões de cabeças de gado. E é preciso limpar os pastos antigos e abrir novos. Como se faz isso? Desmatando e queimando. Sem árvores, o número de poluentes na atmosfera aumenta, já que o gás carbônico, que seria “roubado” durante o processo de fotossíntese, segue circulando no ar. A consequência disso é o aumento da temperatura da Terra, dias mais quentes, temporadas de seca mais intensas e queimadas sendo aceleradas e intensificadas. A derrubada da vegetação nativa para a criação de pastos também impacta negativamente na flora e na fauna, deixando espécies de animais e plantas à beira da extinção. No Pantanal, por exemplo, nossa icônica onça-pintada está ameaçada, assim como a arara-azul. O fogo e a perda da flora e da fauna acabam abalando o sustento e a sobrevivência de pequenas comunidades e indígenas que moram nessas regiões afetadas, que perdem suas casas, seus alimentos, sua história. Todas essas consequências acabam com a credibilidade do Brasil lá fora, o que dificulta o crescimento da economia. Somado à falta de políticas verdes, que os governantes e as indústrias parecem não ter interesse, pois erroneamente acreditam não gerar lucro, a imagem do país no exterior só fica mais e mais queimada… Literalmente.

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3. Reduzir o consumo de carne é uma das medidas mais eficazes no combate às mudanças climáticas – mais do que investir naquela bike!

Um estudo realizado pelo Greenpeace mostra que a redução de 50% no consumo de carne e derivados até 2050 é uma das soluções mais eficazes contra o desmatamento e as mudanças climáticas. “A produção de carne é responsável pela emissão de gases poluentes e acelera os efeitos do aquecimento global. Por isso, precisamos refletir sobre os limites dessa produção para a preservação de nossas florestas, o incentivo à agricultura familiar e a manutenção do clima global. Não se trata de ser contra toda a produção agropecuária, e sim de pensar modelos de produção mais responsáveis, menos impactantes e mais transparentes com os consumidores. (…) A mudança começa no consumo individual, porém, o papel mais importante cabe aos grandes produtores, em assumirem o compromisso com uma produção menos impactante ao meio ambiente e uma relação mais honesta e transparente com seus consumidores”, foi esclarecido em nota. Aderir a movimentos como “Segunda Sem Carne”, por exemplo, já surte um efeito danado!

4. Uma pessoa economiza 5 milhões de litros de água e salva 500 hectares de vegetação se deixa de comer carne uma vez por semana durante um ano

Você sabia que a “Segunda Sem Carne” do Brasil é a maior do mundo? Uma boa notícia, apesar de tudo! Um levantamento realizado entre 2018 e 2019, pela Sociedade Vegetariana Brasileira, aponta que, no intervalo de 365 dias, aqueles que aderiram à campanha e deixaram de consumir carne uma vez por semana preservaram 500 hectares de vegetação, economizaram 5 milhões de litros de água e reduziram 1,5 milhão de quilos de gases do efeito estufa. Pequenos grandes passos pelas pessoas, pelos animais e pelo planeta. Mas não adianta deixar de comer carne um dia e compensar tudo o que não foi comido no churrasquinho do final de semana, ok? Excessos são sempre prejudiciais. Mantenha o equilíbrio.

Estima-se que, em 2050, tenhamos 10 milhões de mortes ao ano por infecções resistente a antibióticos, mais do que câncer ou diabete, segundo a SVB @sociedadevegetariana/Instagram

5. Diminuir o consumo de carne vermelha – e carnes no geral – traz benefícios para a saúde do ser humano e para a economia, mesmo que a indústria pecuária e os governantes não queiram que você acredite nisso

Já deu para entender como a redução do consumo de carne vermelha é benéfica para o meio ambiente, né? Agora, ela também traz benefícios para a saúde do ser humano. Em 2016, a Universidade de Oxford realizou um estudo, publicado pela revista PNAS, que conclui que dietas vegetarianas podem salvar 7,3 milhões de vidas todos os anos. Mas o consumo de apenas 43 gramas de carne por dia, aliado a dietas saudáveis, em que se consome verduras, legumes e frutas, já salva 5,1 milhões de pessoas anualmente no mundo! Essa melhora na qualidade de vida impacta diretamente no bolso da população e também no do governo. Isso porque hábitos mais saudáveis significam menos doenças que significam menos gastos com saúde. De acordo com a pesquisa, por ano, uma economia mundial de US$ 700 bilhões a US$ 1 trilhão seria registrada. Lembrando que o consumo em excesso de carne vermelha aumenta o risco de doenças cardíacas e câncer, o nível do colesterol e acidez do sangue, e a resistência a antibióticos – criada pelos próprios antibióticos que os animais recebem ainda em vida. “A resistência [a esses medicamentos] está se desenvolvendo e se espalhando a uma velocidade que não pode ser contida. (…) Se não forem tomadas medidas urgentes para reduzir o consumo global de antibióticos, podemos enfrentar um regresso a uma era na qual as infecções simples podem matar”, alertou a ONG Consumers International já em 2014.

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