Vítima de estupro teve vídeos da agressão postados em site de pornografia

"Adolescente chorando e levando tapas" e "adolescente sendo destruída" foram alguns dos títulos usados nas postagens.

Após permanecer anos em silêncio, Rose Kalemba, hoje com 25 anos, resolveu contar sua história através de textos publicados em um blog. Rose levava uma vida tranquila até os seus 14 anos, em Ohio, cidade em que cresceu. Durante um verão, ela foi forçada a entrar em um carro por um homem armado com uma faca.

Dentro do carro, estavam mais dois outros homens. Um deles, de 19 anos, Rose já havia visto por Ohio. A jovem foi levada para uma casa, onde foi esfaqueada na perna, agredida e abusada sexualmente por 12h. Um dos homens ainda filmou o ataque. Rose contou que um deles chegou a lhe  mostrar vídeos de outras mulheres que também foram estupradas. “Eu sou nativo-americana. Os estupradores eram brancos e a estrutura de poder estava clara. Algumas das vítimas eram brancas, mas muitas eram mulheres de cor”, disse para a jornalista Megha Mohan, da BBC. Como os homens ameaçaram matá-la, Rose precisou lutar para ficar acordada e lutar pela sua vida.

Depois do estupro, a jovem foi largada e precisou voltar sozinha para casa. Quando chegou e contou para sua família o que aconteceu, alguns parentes reagiram dizendo que ela estava pedindo por estar na rua naquela hora. Apenas o pai e a avó lhe apoiaram. Ao prestar depoimento, a jovem se  deparou com um sistema que, quase sempre, culpabiliza as vítimas em vez de dar suporte. No dia seguinte que tudo aconteceu, Rose tentou se suicidar por pensar que não aguentaria a dor, mas seu irmão conseguiu impedi-la.

O terror se transformou em algo ainda maior quando, alguns dias depois, o vídeo que os agressores dela fizeram começou a ser compartilhado em uma rede social. Os vídeos do ataque que sofreu foram postados no PornHub, um site mundialmente conhecido de pornografia. Em alguns deles, Rose estava desacordada. “Adolescente chorando e levando tapas”, “adolescente sendo destruída” e “adolescente desmaiada” eram alguns dos títulos que estavam sendo usados.

Rose sofreu bullying na escola e foi obrigada a ouvir comentários de que ela estava pedindo aquilo, que tudo o que aconteceu era sua a culpa. A adolescente decidiu que não contaria para a família sobre os vídeos e entrou em contato com o PornHub para tentar removê-los. Apesar de mandar diversas mensagens contando que havia sido estuprada e que era menor de idade, ela não recebeu nenhuma resposta. Até que, um dia, teve a ideia de entrar em contato se passando por uma advogada, dizendo que entraria com uma ação legal. Os vídeos foram removidos do site em 48h.

Meses depois, Rose Kalemba buscou tratamento psicológico e contou ao psicólogo a identidade dos agressores. O psicólogo denunciou os nomes para polícia, mas Rose ainda não conseguia contar nem para a polícia ou para a sua família sobre os vídeos. Os advogados de seus agressores alegaram que ela havia consentido e os homens foram considerados culpados por “contribuir para a delinquência de um menor”, e assim receberam uma pena mais branda. Com todo o desgaste emocional causado pelo ataque e o processo, Rose não teve forças para lutar por uma pena mais severa.

Só em 2019, 10 anos depois, sua família descobriu sobre os vídeos através de um texto que viralizou, em que ela conta o que aconteceu. Rose decidiu se manifestar depois que viu vários elogios ao PornHub na internet. Os comentários enalteciam o site, por exemplo, por doar dinheiro para ONG’s que buscavam a preservação das abelhas ou por ajudar entidades que ajudavam mulheres vítimas de violência doméstica. “Eles fizeram um ótimo trabalho em posar como ‘esclarecidos’, mas vídeos como o meu ainda estão no site. Não há como saber se há estupros por lá e as vítimas não sabem”, disse Rose para a BBC. Depois de postar o seu relato, ela recebeu muitas mensagens de outras mulheres contando que passaram pelo mesmo: tiveram vídeos de abusos postados no site e enfrentaram grandes dificuldades para ter a exclusão do material.

No último domingo, 9, a jovem compartilhou a matéria da BBC que contava a sua história e na legenda escreveu que: “a arma mais poderosa que um estuprador tem é de nos assustar em silêncio. Ao fazê-lo continuam a vitimizar-nos durante anos e anos após o ataque inicial. Esta é a minha história”. Depois, ainda disse: “quando a minha história foi pública pela primeira vez em Abril, recebi dezenas de mensagens quase instantaneamente de mulheres e homens que também tiveram seus ataques carregados no PornHub, e o PornHub se recusou a derrubar. Continuo a receber mensagens até hoje, num total de centenas agora, de pessoas que ainda estão, nos dias de hoje, a ser re-vítimas pelo PornHub. Se você apoia sobreviventes, não apoie o PornHub ou outros sites como eles”.

O PornHub tentou se justificar com um comunicado dizendo que os atuais proprietários adquiriram o site depois de 2009, ano em que os vídeos de Rose foram publicados, e que buscam combater conteúdo ilegal. “As pessoas podem dizer que o que aconteceu comigo uma década atrás não é uma realidade de hoje, mas isso simplesmente não é verdade”, foi dito.

Mesmo 10 anos depois, Rose precisa lidar com cicatrizes emocionais das violências sofridas, mas disse que não deseja mais ficar calada. Hoje tem esperança. Esse tipo de vídeo, que é publicado com o intuito de ofender e agredir a vítima,  que costuma ser compartilhado por ex-parceiros ou roubado virtualmente, é chamado de pornô de vingança. No Brasil, a Lei 12.737/2012, conhecida como Lei Carolina Dieckman, configura como crime  a invasão de dispositivo informático alheio com fim de obter vantagem ilícita. Já a Lei nº 13.718/18, de 2018, criminaliza a divulgação de fotos e vídeos de sexo, nudez ou pornografia sem consentimento. Um dos artigos da lei específica que é crime divulgar registro audiovisual que contenha cena de estupro, que faça apologia ou induza a prática. A punição é de 1 a 5 anos e nos casos que for comprovado se tratar de  Pornografia de vingança, a pena pode aumentar.

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